BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975
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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

COMO OS EUROPEUS RETALHARAM A ÁFRICA – A CONFERENCIA DE BERLIM (1884/85) – PREÂMBULO PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 12)


PREÂMBULO PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 12) 

COMO OS EUROPEUS 
RETALHARAM A ÁFRICA

A CONFERENCIA DE BERLIM 
(1884/85)

Depois da independência do Brasil, declarada em 1821, mas cuja efectivação se arrastaria até 1825, quando foi reconhecida por Portugal, o governo português, depois também do desassossego das guerras liberais, entre 1828 e 1834, começou a equacionar a questão do império colonial. 
Sem o Brasil, haveria que reconstruir o império em África.

Em 1877 foi lançado, por João de Andrade Corvo, um conjunto de iniciativas de exploração destinadas a conhecer a zona do interior africano, que separava as feitorias de Angola e Moçambique. Era uma ideia que teve origem no projecto do governador de Angola Francisco de Sousa Coutinho, de 1788, com o mesmo objectivo e que só não teve sucesso porque o Dr. Lacerda e Almeida, que se abalançou à travessia do continente, faleceu antes de atingir, em 1797, as nascentes do rio Zaire. Silva Porto (comerciante no Bié, actual Kuito) tentou a travessia em 1853-1854, mas adoeceu gravemente quando atingiu o Luy – ou Barotze –, um “império” a sul do Katanga. Sem poder continuar, enviou o seu pombeiro (capataz dos carregadores da expedição) João da Silva para terminar a viagem e este atingiu o Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Mais tarde, Silva Porto encontrou-se com Livingstone no Barotze.

Toda esta actividade na exploração dos territórios entre as feitorias de Angola e Moçambique, levou à criação da Sociedade de Geografia de Lisboa no último dia do ano de 1875. E foi sob a égide desta Sociedade que se realizaram as famosas expedições de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens – de Angola à Contra-Costa em 1884/1885 –, integradas numa nova estratégia portuguesa para o continente Africano, que privilegiava a ocupação efectiva através da exploração e colonização em detrimento dos simples direitos históricos. Pretendia-se assim romper com a precariedade das então “feitorias” portuguesas nas costas africanas, destinadas, desde o início (em 1576, com a fundação da cidade-feitoria de Loanda) ao comércio de escravos para o Brasil e pouco mais, transformando-as em colónias efectivas. Desta conjectura nasceria a ideia do “mapa cor-de-rosa”. Também Serpa Pinto havia já tentado a travessia de Angola a Moçambique, em 1877, mas errou o "alvo" – a costa de Moçambique –, terminando a sua viagem em Durban, na África do Sul.



É preciso dizer que desde finais do século XVIII, havia no interior de África uma legião de exploradores geográficos europeus, de diversos países, sendo o mais conhecido o britânico David Livingstone (desde 1849), percorrendo todo o continente à procura de referências geográficas e cartografando-as. Além dos portugueses referidos acima, podem contar-se também os casos de José de Anchieta, Teixeira de Sousa, etc, etc…

No entanto, em 1876 o rei Leopoldo II da Bélgica (reino independente apenas desde 1830), estava bem informado do que se passava em África e quis ter uma colónia no continente “negro”. Organizou uma Conferência Geográfica em Bruxelas em 1876, com a presença da França, Alemanha, Inglaterra, Áustria e Rússia (Portugal e Espanha não foram convidados) e onde, a pretexto de querer ficar com uma fatia africana, fundou a Association Internacionale Africaine. Reivindicou o território que é hoje a República Democrática do Congo, ex Zaire, que passou a designar por Estado Livre do Congo. Assim, um monarca europeu passava a ser proprietário pessoal de um bom bocado da África. Só em 1908 o Congo se tornou colónia do estado belga.

Fotos que mostram o tratamento dado pelos agentes de Leopoldo II aos africanos (era-lhes amputada uma das mãos) que "trabalhavam" para a sua Association Internacionale Africaine, no Estado Livre do Congo e o selo postal comemorativo da passagem da propriedade da colónia para o estado belga.
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Ilustração que retrata a Conferência de Berlim, com o mapa gigante de África na parede. Otto von Bismarck está no primeiro plano da mesa, a olhar directamente para o ilustrador.

Mas nenhum país europeu viu com bons olhos as manobras de Leopoldo II. Alguns anos mais tarde, o chanceler prussiano-alemão Otto von Bismark organizou uma conferência a sério para tratar da colonização da África. A Conferência de Berlim iniciada em 19 de novembro de 1884 (e que terminaria a 26 de fevereiro de 1885), na Chancelaria do Reich, em Berlim, com a participação, além do Império Alemão, da Grã-Bretanha, França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Império da Áustria-Hungria e do Império Otomano. Os Estados Unidos da América participaram como observadores, uma vez que a única colónia que tiveram em África foi a Libéria, formada por escravos africanos libertos, entre 1816 e 1824 – data em que a Libéria proclamou a sua independência. A Libéria foi o segundo país independente de África (após o início da época das colonizações), juntando-se à Abissínia (actual Etiópia), cujo território nunca foi colonizado – embora tivesse sido ocupado, durante meia dúzia de anos (1935-1941), após a conquista pelo regime italiano de Mussolini.

Mapa de África antes da Conferência de Berlim

Mapa esquemático dos "reinos" africanos existentes na altura e as possessões europeias em África antes de 1884

As colónias europeias antes da Conferência de Berlim, alguns dos estados africanos pré-existentes e os trajectos das explorações por diversos exploradores, especialmente britânicos, franceses e alemães.

Mas o objectivo da Conferência acabou por ser mais lato do que o pretendido pelos portugueses. Tornou-se na oportunidade para se definirem as regras de ocupação da África pelas potências coloniais europeias. Assim, perante um mapa de África com cinco metros de altura na sala do Reichstag alemão – que mostrava o continente africano, com rios e lagos, como referências já conhecidas ou fictícias, os nomes de alguns locais e muitas manchas brancas – e onde, sem qualquer respeito pela história dos estados nativos existentes, nem pelas relações étnicas e mesmo familiares dos povos desse continente, foram traçadas as fronteiras das futuras colónias europeias.

Podemos acrescentar que esta divisão aleatória seria a origem de quase todas as guerras, após as independências dos países delimitados pelas fronteiras desenhadas na Conferância. Curiosamente nunca houve em África guerra alguma no século XX motivada por questões de delimitação de fronteiras ou tentativas de conquista de espaços vizinhos das antigas colónias. As guerras foram todas provocadas pelas divisões de antigos estados, ignorados pelos europeus, ou entre tribos divididas pelas fronteiras estabelecidas em Berlim.

O Império Alemão que, sob o governo de Bismarck derrotara a França de Napoleão III em 1870, não tinha qualquer colónia em África. Pelo que as suas pretensões foram atendidas com a atribuição de territórios – passando a administrar o Sudoeste Africano (actual Namíbia) e o Tanganica (actual Tanzânia).

O “mapa cor-de-rosa” português obteve aprovação unanime. Como resultado desta conferência, a Grã-Bretanha passou a administrar toda a África Austral, com excepção do interland entre as colónias portuguesas de Angola e Moçambique, resultante do Mapa “cor-de-rosa”. Ficando também de fora do domínio britânico o Sudoeste Africano, e toda a África Oriental, onde administraria apenas o Quénia, partilhando a costa ocidental e o norte com a França, a Espanha e Portugal (Guiné-Bissau e Cabo Verde); e o Congo – que estava também no centro da disputa, aliás o nome da Conferência em alemão foi mesmo o de “Conferência do Congo” – continuou como “propriedade” da Associação Internacional do Congo, cujo principal accionista era, como já vimos, o rei Leopoldo II da Bélgica; este país passou ainda a administrar os pequenos reinos das montanhas a leste, o Ruanda e o Burundi.

Mapa inglês de 1883, a base do "mapa cor-de-rosa", em que o território ocupado em Angola está francamente exagerado - seria talvez metade da área colorida, em largura.

O Mapa que resultou da Conferência de Berlim, depois da interferência de Cecil Rhodes e do ultimatum inglês, de 11 de Janeiro de 1890.

Ao tomar conhecimento do acordo da Conferência de Berlim, Cecil John Rhodes (1853-1902) – presidente da Companhia Britânica da África do Sul e que foi mesmo financiador das guerras do nkosi (régulo) nguni Ngungunhane (Gugunhana) contra os portugueses no sul de Moçambique – cujo principal objectivo político-comercial era determinado pela construção de um caminho-de-ferro entre o Cairo e a cidade do Cabo, atravessando a África de Norte a Sul (que nunca seria construído), opôs-se veementemente à pretensa ocupação portuguesa do interland africano entre Angola e Moçambique. A sua acção política junto do então primeiro ministro britânico, o marquês de Salisbury, Sir Robert Gascoyne-Cecil, fez com que o governo de Sua Magestade, à margem do Tratado de Windsor, enviasse ao governo português um ultimatum, em 11 de Janeiro de 1890, exigindo a remoção daquela pretensão portuguesa, que havia sido aprovada na Conferência de Berlim, ameaçando com represálias militares. Contudo, a pretensão de Cecil Rhodes seria mesmo frustrada, devido à atribuição do desmesuradamente grande território do Congo ao rei Leopoldo II da Bélgica e da atribuição do Tanganica à Alemanha (África oriental Alemã). Não chegou a existir nenhum "corredor" contínuo de territórios britânicos, do Cabo ao Cairo.

Caricatura da época representando Cecil Rhodes sobre o mapa de África, com um pé no Cairo e o outro no Cabo...

A destruição do mapa cor-de-rosa pelos ingleses - a verde. Os territórios entre o que viram a ser Angola e Moçambique, prontamente ocupados pela Inglaterra, seriam designados por Rodésia (ou Rhodesia) em homenagem a Cecil Rhodes. Seriam depois divididos em Rodésia do Norte (actual Zâmbia) e Rodésia do Sul (actual Zimbabué). Depois de uma pretensa independência em 1965 (que duraria até 1979), os estados daí resultantes nunca foram reconhecidos pela comunidade internacional.

Projecto da divisão administrativa de Angola, mapa de 1900.

E os portugueses, perante a ameaça da força conhecida dos exércitos britânicos, retiraram timidamente as suas pretensões. Contudo foi nesta Conferência que nasceram os territórios coloniais de Angola e Moçambique, que dariam origem, em 1975, aos países respectivos, com as fronteiras que hoje lhes conhecemos. Os territórios actuais de Angola e Moçambique não existiam antes de 1884 e a colonização efectiva só ocorreu depois desta data.

A questão do ultimatum britânico, como sabemos, daria origem à cada vez mais agressiva movimentação dos militantes pró-republicanos, primeiro com a revolta de 31 de Janeiro de 1891 no Porto e levaria mesmo à queda da monarquia em Portugal em 5 de Outubro de 1910.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A LONGA HIBERNAÇÃO DE PORTUGAL EM ANGOLA ENTRE 1580 E 1834 – PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 11)

PREÂMBULO
PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 11)
A LONGA HIBERNAÇÃO 
DE PORTUGAL EM ANGOLA 
ENTRE 1580 E 1834

É preciso fazer uma pequena introdução histórica – política e militar – dos acontecimentos no Reino de Portugal, para se perceberem as causas da longa hibernação de Portugal em Angola, entre os anos de 1580 e 1834.

As feitorias portuguesas de África, entraram em franca decadência depois da morte de Sebastião I na batalha de al Quasr al-kibr em 1578, a que se seguiu o curto reinado do seu tio, o Cardeal Henrique I, focado apenas na sucessão do trono, em que fez tudo e mais alguma coisa para impedir que o filho legitimo do seu irmão Luís, o infante António (Prior do Crato), ocupasse o trono a que tinha direito, dando preferência ao seu outro sobrinho, Filipe II de Castela. Este acabou por conquistar o trono português através da compra da nobreza do reino e da guerra contra o primo António.

 António I, rei de Portugal entre 24 de Julho de 1580 a 16 de Abril de 1581 e Filipe II, de Castela, Aragão e etc…, rei de Portugal – como Filipe I – entre 16 de Abril de 1581 a 13 de Setembro de 1598

Depois da conquista do trono português em 1580, quando as tropas do duque de Alba derrotaram a pequena força de António I na batalha de Alcântara, Filipe II acrescentou o título de Rei de Portugal e das Índias Orientais (após as Cortes de Tomar, em 16 de Abril de 1581) à sua vasta titulatura: Pela Graça de Deus, Rei de Castela, de Leão, de Aragão, das Duas Sicílias, de Jerusalém, de Navarra, de Granada, de Toledo, de Valência, da Galiza, de Maiorca, de Sevilha, da Sardenha, de Córdova, da Córsega, de Múrcia, de Jáen, dos Algarves, de Algeciras, de Gibraltar, das Ilhas de Canária, das Índias Ocidentais, Ilhas e Terra Firme do Mar-Oceano, Conde de Barcelona, Senhor da Biscaia e de Molina, Duque de Atenas e de Neopátria, Conde de Rossilhão e da Cerdanha, Marquês de Oristano e de Gociano, Arquiduque de Áustria, Duque da Borgonha, do Brabante e de Milão, Conde de Habsburgo, da Flandres e do Tirol, etc… Contudo, não lhe interessavam para nada as minúsculas e improdutivas feitorias africanas dos seus novos súbditos. As suas atenções concentravam-se apenas no ouro que lhe chegava das Índias Ocidentais – leia-se América do Sul, como mais tarde foram denominadas.

O império filipino...

Filipe II “comprava” guerras por toda a Europa. Muito especialmente com a Inglaterra, de que fora rei consorte entre 1553 e 1558, pelo seu casamento com a rainha Maria I. A tentativa gorada de invasão da Inglaterra, com a sua Armada “Invencível”, levou à destruição de quase toda a armada portuguesa na batalha de 28 de Julho de 1588, no canal da Mancha. No entanto o seu principal problema foi sobretudo o das Províncias Unidas dos Países Baixos (Flandres e Holanda), de que era rei – por herança de seu pai Carlos V de Habsburgo – e que haviam proclamado a independência em relação ao império dos Habsburgo, em 1579. Deste modo, os holandeses passaram também a atacar todos os territórios portugueses de “além-mar”. Em 1630 conquistaram São Salvador da Baía, Olinda, Recife e Pernambuco, no Brasil. Em 1631 foi a vez de São Jorge da Mina e depois em 1640 conquistaram São Tomé e Príncipe e Luanda. Ocuparam grande parte do litoral angolano - Benguela, Santo António do Zaire, as barras do Bengo e do Cuanza. Em 1641, já depois da restauração da monarquia portuguesa, os holandeses conquistaram Málaca, no extremo oriente, depois de um cerco de cinco meses.

 
A Batalha do Cabo Rachado, no Estreito de Malaca, deu-se em 18 de Agosto de 1606 entre uma armada portuguesa comandada pelo Vice-Rei da Índia, Dom Martim Afonso de Castro, e uma armada holandesa comandada pelo Almirante Cornelis Matelieff de Jonge, tendo-se saldado numa vitória táctica portuguesa, já que os navios da VOC retiraram com baixas superiores às portuguesas. Contudo a vitória não foi convenientemente explorada pelo Vice-Rei o que mais tarde levou à sua derrota.
Em 1648 no Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides preparou uma frota de 15 navios sob o pretexto de levar ajuda aos portugueses sitiados pelos guerreiros da rainha Nzinga em Angola. Partiu do Rio de Janeiro a 12 de Maio e, através de contactos com padres Jesuítas, conseguiu reconquistar Luanda em 15 de Agosto. A campanha prolongou-se de 1648 a 1652, recuperando os territórios perdidos em Angola e a ilha de São Tomé para os portugueses.

Entretanto no território de Angola, Benguela foi assumindo aos poucos o controlo sobre um pequeno território a norte e leste, e iniciou por sua vez o tráfego de escravos, com a ajuda de intermediários africanos radicados no Planalto Central de Angola. Neste Planalto existia um aglormerado de “reinos” – intitulados “do Planalto Central”, de etnia Ovimbundo – ocupando uma vasta área entre as falésias do planalto e o curso inicial do Rio Kuanza.

Os Ovimbundu nunca tiveram uma estrutura política central, como os Bakongo e os Ambundu. Possuíam uma organização complexa de 22 “reinos”, às vezes confederados, com chefes que governavam entre 3 a 300 aldeias. Porém, nunca estiveram profundamente divididos, quer linguística, que politicamente. Só em 1902, o governador do distrito de Benguela, general Joaquim Teixeira Moutinho, organizou e comandou a Coluna do Sul, que actuou com duas outras forças militares na Campanha do Mbalundu. Estabeleceu a soberania portuguesa no Huambo, tendo-se fortificado na localidade de Huambo, onde depois se ergueu a cidade de Nova Lisboa.

Ocupação portuguesa de Angola antes da Conferência de Berlim em 1884/85.
Os limites do território angolano aprovados nessa Conferência estão desenhados e tracejado, com as datas das respectivas efectivações da ocupação.

As campanhas do planalto central, em 1902, evidenciaram a resistência das monarquias vigentes no Mbalundu (Bailundo), Viye (Bié – Kuito), Wambu (Huambo) e de outros reinos independentes, apesar da presença militar na região. Até que a dominação portuguesa se viesse a efectivar, os “reis” Ekuikui II, Mutu ya Kevela, Ndunduma..., seriam alguns dos mais destacados de toda uma resistência, que se estabeleceu entre as últimas décadas do século XIX e o primeiro quartel do século XX.

Embora tenha havido , desde o início da sua presença em Luanda e Benguela, ocasionais incursões dos portugueses para lá dos pequenos territórios sob o seu controlo, esforços sérios de penetração no interior apenas começaram nas primeiras décadas do século XIX, abrandado em meados daquele século, mas recomeçando com mais vigor nas suas últimas décadas. Estes avanços eram em parte militares, visando o estabelecimento de um domínio duradouro sobre determinadas regiões, e tiveram geralmente que vencer, pelas armas, uma resistência maior ou menor das respectivas populações. Em outros casos tratou-se, no entanto, de criar apenas postos avançados, destinados a facilitar a extensão de redes comerciais. Formas particulares de penetração económica foram também desenvolvidas no Sul, a partir de Moçâmedes (hoje Namibe). Finalmente, houve naquele século a implantação das primeiras missões católicas para lá dos perímetros controlados por Luanda e Benguela.

Voltando à questão holandesa, depois de uma guerra que se prolongou no oriente, em 1661 firmou-se o tratado de paz de Haia. Portugal aceitou as suas perdas na Ásia – Malaca, Ceilão, Cochim, Malabar, etc, etc… –, comprometendo-se os holandeses a pagar oito milhões de Florins, equivalente a sessenta e três toneladas de ouro, como indemnização pela sua "usurpação e saque" do Nordeste brasileiro, reconhecendo a soberania portuguesa. Este valor foi pago em prestações, ao longo de quarenta anos e sob a ameaça de invasão de Haia pela Marinha de Guerra portuguesa. Já nesse ano de 1661, a cidade de Bombaim, na Índia, havia sido cedida a Inglaterra como dote do casamento entre a princesa Catarina de Bragança e Carlos II de Inglaterra. Portugal perderia para sempre a sua anterior proeminência no Oriente.

Conquista de Cochim, pelos holandeses.

Em 12 de Fevereiro de 1761, o Marquês de Pombal proibiu o tráfico de escravos no território do Reino de Portugal, que por este facto foi pioneiro no abolicionismo. No início do século XIX, juntamente com a Grã-Bretanha, Portugal proibiu novamente o comércio de escravos, e em 1854 por decreto foram libertos todos os escravos que restavam. Dois anos mais tarde, também foram libertos todos os escravos da Igreja nas colónias. A 25 de Fevereiro de 1869 deu-se finalmente a abolição "prática" e completa da escravatura no Império Português.


Segundo os estudos mais recentes, foram transportados de África para o continente americano (com vida), cerca de 12 milhões de escravos (o total efectivo, que inclui os mortos durante a travessia do Atlântico, é muito superior), distribuídos pelos seguintes destinos:
Fazendo as contas, os portugueses transportaram de África (de Arguim, Goreia, São Jorge da Mina, Ajudá, Moçambique, mas muito especialmente de Angola), cerca de 4 milhões de escravos, que chegaram vivos ao Brasil – um terço do total!!! 


As fronteiras de Angola, como veremos em próximo texto, só seriam definidas nos finais do século XIX, na Conferência de Berlim, passando a sua extensão a ser muitíssimo maior do que a do território dos Ambundu, a cuja língua o termo Angola está associado.

Mas antes de abordarmos a Conferência de Berlim, em 1884/85 e a sua antecessora Conferência de Bruxelas, em 1876, iremos falar um pouco sobre as explorações geográficas no interland angolano.

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sexta-feira, 3 de abril de 2015

NZINGA MBANDE (A “RAINHA” JINGA) – PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 10)

NZINGA MBANDE 
(A “RAINHA” JINGA)
1583 - 1663

A Ngola Nzinga Mbande ou “Rainha Jinga” (nascida c. 1583 — Matamba, 17 de dezembro de 1663) foi “rainha” (Ngola) do Ndongo (apenas da parte oriental, não ocupada pelos portugueses) e de Matamba no século XVII. A sua titulatura de chefia na língua quimbundu, Ngola foi, como já temos aqui escrito, o nome utilizado pelos portugueses para denominar aquela região (Angola).

Nzinga viveu durante um período em que o tráfico de escravos africanos e a consolidação do poder dos portugueses na região estavam a crescer rapidamente. Era filha do Ngola Nzinga a Mbande Kiluanje e de Guenguela Cakombe, e irmã do Ngola Ngoli Bbondi (o soberano de Matamba) que, tendo-se revoltado contra o domínio português em 1618, foi derrotado pelas forças sob o comando de Luís Mendes de Vasconcelos (12º Governador e Capitão-General de Luanda). O nome de Nzinga surge nos registos históricos três anos mais tarde, como enviada de seu irmão, a uma conferência de paz com o governador português de Luanda. Após anos de incursões portuguesas para capturar escravos, e entre batalhas intermitentes, Nzinga negociou um tratado de termos iguais, converteu-se ao cristianismo para fortalecer o tratado e adoptou o nome português de Ana de Sousa.

No ano subsequente, entretanto, reiniciaram-se as hostilidades. Dois motivos alternativos costumam ser apontados:

Ngoli Bbondi revoltou-se novamente, fazendo grandes ofensas aos portugueses e derrotando as tropas do 13º Governador e Capitão-General português João Correia de Sousa em 1621. Nzinga Mbande, entretanto, teria permanecido fiel aos portugueses, a quem teria auxiliado por vingança do assassinato, pelo irmão, de um filho seu. Tendo mais tarde envenenado o irmão, sucedeu-lhe no poder.

Nzinga formou uma aliança com o povo Jaga, desposando o seu chefe e, subsequentemente, conquistando o “reino” de Matamba. Ganhou notoriedade durante a guerra por liderar pessoalmente as suas tropas, proibindo-as de a tratarem como "Rainha", exigindo que se dirigissem a ela como "Rei". Em 1635, encontrava-se disponível para formar uma coligação com os reinos do Congo, Kassanje, Dembos e Kissama.

Como soberana, rompeu os compromissos com Portugal, abandonando a religião católica e praticando uma série de violências não só contra os portugueses, mas também contra as populações tributárias de Portugal na região. O 16º Governador e Capitão-General de Angola, Fernão de Sousa (de 1624 a 1630), moveu-lhe guerra exemplar, derrotando-a em batalha em que lhe matou muita gente e aprisionando-lhe duas irmãs, Cambe e Funge. Estas foram trazidas para Luanda e batizadas, respectivamente com os nomes de Bárbara e Engrácia, tendo retornado, em 1623, para Matamba.

O território controlado pelos portugueses e o "reino" de Nzinga.
Algumas datas mostram o leeeento avanço português, do séc. XVI ao séc. XIX

A “rainha” manteve-se em paz por quase duas décadas até que, diante do plano de conquista de Angola por forças da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, percebeu uma nova oportunidade de resistir. Traída eventualmente pelos Jagas, formou uma aliança com os holandeses que à época ocupavam parte da Região Nordeste do Brasil. Com o auxílio das forças de Nzinga, os holandeses conseguiram ocupar Luanda, de 1641 a 1648.

Em Janeiro de 1647, Gaspar Borges de Madureira derrotou as forças de Nzinga, aprisionando sua irmã, Bárbara. Com a reconquista definitiva de Angola pelas forças portuguesas de Salvador Correia de Sá e Benevides, que viria a ser o 23º Governador e Capitão-General de Angola, Nzinga retirou-se para Matamba, onde continuou a resistir.

Em 1657, um grupo de missionários capuchinhos italianos convenceram-na a retornar à fé católica, e então, o 27º Governador de Angola, Luís Martins de Sousa Chichorro, restituiu-lhe a irmã Bárbara, que ainda era mantida cativa.

Em 1659, Nzinga assinou um novo tratado de paz com Portugal. Ajudou a reinserir antigos escravos e formou uma economia que ao contrário de outras no continente, não dependia do tráfico de escravos.

Nzinga Mbande faleceu de forma pacífica aos oitenta anos de idade, como uma figura admirada e respeitada por Portugal. Na Angola actual é considerada a grande heroina do país e a “Mãe da Liberdade”.

Após a sua morte, 7 000 soldados de Nzinga Mbande foram levados para o Brasil e vendidos como escravos. Os portugueses passaram a controlar a área em 1671. Em certas zonas, Portugal não obteve controle total até ao século XX, principalmente devido ao seu tipo de colonização, centrado nas feitorias do litoral.

O nome de Nzinga Mbande tem muitas variações que, em alguns casos, são completamente distintos. Entre eles registam-se: rainha Nzinga, Nzinga I, rainha Nzinga Mdongo, Nzinga Mbandi, Nzinga Mbande, Jinga, Njinga, Singa, Zhinga, Ginga, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, rainha Nzingha de Ndongo, Ann Nzingha, Nxingha e Mbande Ana Nzingha.

ALGUMAS OBRAS SOBRE NZINGA MBANDE

JINGA, RAINHA DE MATAMBA
João Maria Cerqueira d’Azevedo
Edição do Autor
1949

GINGA RAINHA DE ANGOLA
Manuel Ricardo Miranda
Edição Oficina do Livro
2008

NJINGA - RAINHA DE ANGOLA
Filme
Realização: Sérgio Graciano (Portugal)
Com a actriz Lesliana Pereira
2014

A RAINHA GINGA
José Eduardo Agualusa
Edição Quetzal, Junho 2014

RAINHA JINGA – AS GUERRAS DE KWATA-KWATA
Argumento e desenho de Fernando Relvas
INÉDITO - TENTANDO ENCONTRAR EDITOR QUE PUBLIQUE A HISTÓRIA

Sentada sobre as costas de uma dama de companhia, a Rainha Jinga negoceia com os portugueses – numa gravura de 1687 

Pintura actual, baseada em gravura do século XIX 

No antigo largo do Kinaxixe (actualmente Praça Rainha Jinga) em Luanda onde já esteve a estátua da Maria da Fonte – monumento aos Combatentes da Grande Guerra –, está agora a estátua da rainha Jinga. Ao que parece, também já lá esteve um tanque soviético. 

Pormenor do monumento

O antigo largo do Kinaxixe e a Avenida dos Combatentes – foto de 1970 

Escultura da rainha Ginga, na Baía de Luanda, feita de ferro velho e pneus usados, da autoria de Ruthia d'O Berço do Mundo
Link do post onde aparece a imagem: http://bercodomundo.blogspot.pt/2015/01/uma-cidade-rebentar-pelas-costuras.html
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IMAGENS DO FILME NJINGA - RAINHA DE ANGOLA - de Sérgio Graciano






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domingo, 29 de março de 2015

1617 – A FUNDAÇÃO DA CIDADE DE BENGUELA + OS 400 ANOS DE TODOS OS GOVERNADORES PORTUGUESES DE ANGOLA: PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 9)


Manuel Cerveira Pereira 

O INÍCIO DA EXPLORAÇÃO 
DO SUL DE ANGOLA 
COM A FUNDAÇÃO 
DA CIDADE DE BENGUELA EM 1617

E A LISTAGEM DOS 400 ANOS DE TODOS OS GOVERNADORES PORTUGUESES DE ANGOLA
DE 1 DE FEVEREIRO DE 1575, 
A 10 DE NOVEMBRO DE 1975.

Manuel Cerveira Pereira foi o 8º Governador e Capitão-General da Feitoria portuguesa de Luanda e Angola (como já dissemos esta designação deriva do título Ngola, usado pelos soberanos do “Reino” de Ndongo) e foi nesse mandato que comandou a expedição que veio a resultar na criação do presídio e forte de Cambambe, nas margens do Rio Cuanza, perto da actual barragem hidroeléctrica – a Leste de Dondo.

 
Ruinas do Forte de Cambambe

Parece ter caído nas boas graças do rei Filipe II (de Castela, Portugal, Aragão, etc...), que o nomeou, a 10 de Dezembro de 1614, capitão-mor e conquistador do Reino de Benguela. O facto de ser considerado um dos mais experimentados oficiais portugueses nas campanhas militares no Ndongo pesou na sua nomeação de novo como Governador e Capitão-General, tornando-se agora, com o segundo mandato, o 11º no cargo, incumbido de “conquistar o reino de Benguela”, que marcaria o início da exploração portuguesa do Sul do território.


Cerveira Pereira fundeou na Baía de Santo António (anteriormente conhecida por Baía das Vacas), no dia 17 de Maio de 1617, sendo esta data considerada como a da fundação da Cidade de S. Filipe de Benguela, em homenagem ao rei, que se tornou então a sede do “Reino de Benguela”. Benguela é pois, a segunda cidade mais antiga de Angola, depois de Luanda. 


Segundo o historiador, escritor e editor Armindo Jaime Gomes, a origem da palavra Benguela provém “Do étimo mbenga, Benguela é a corruptela do verbo “okuvenga” da língua umbundu; okuvengela (sujar) / okumbengela ovava (sujar-me a água), relativamente às águas estagnadas e em língua portuguesa é entendido como turvar, turvar-se, perturbar, alterar, transtornar, escurecer, embaciar, nublar, enuvear (Pe. Alves, A., 1951). Evoluído de “mbengela”, a toponímia passou a significar perda de transparência, de limpidez, de clareza, perturbação, fazer perder a razão, cobrir o céu de nuvens, situação confusa, indefinição (op. cit.). Apesar de fazer parte da onomástica planáltica, a exemplo de Katombela, Mbaka, Kakonda, Civangulula, etc., a versão popular admite que o topónimo tenha resultado da distorção linguística nos primeiros contactos entre os portugueses e ambwi. Em vez do nome da região que se pretendia saber, os intrusos receberam a justificação da turvês das águas lacustres e fluviais.”

Contudo, já tinha existido uma povoação com o nome de Benguela, perto de uma aldeia chamada Kissonde, no limite Sul do “Reino” de Kissama – perto da foz do Rio Calala –, já em territórios umbundu. Os portugueses tentaram colonizar essa região em 1587, fundando uma povoação com o nome de Benguela. O povoado foi abandonado pouco depois mas em 1771 os portugueses voltaram ao local original e ergueram a povoação de Benguela Velha, actual Porto Amboim. O primeiro contacto entre os povos dessa região e os portugueses realizou-se no ano de 1587, por António Lopes Peixoto, a mando do seu tio Paulo Dias de Novaes, com o objectivo de erguer um fortim no local – com forma de baía – onde Diogo Cão havia passado sem atracar, para nele construir o povoado com a designação de Benguela, que acabou por ser abandonado, face à resistência das populações da região. Dos documentos conhecidos, sabe-se que António Peixoto terá mesmo erguido uma fortificação no morro do Kissonde, onde existe hoje um farol, erguido sobre os restos da antiga fortificação.

O morro de Kissonde, com o actual farol lá no alto...

Mas o “Reino de Benguela” de Cerveira Pereira, não durou muito. As fabulosas riquezas de cobre, supostamente em Sumbe-Ambela – um pouco a sul de Benguela – com que Manuel Cerveira Pereira sonhava, e tinha levado o rei a separar os dois “reinos", revelou-se um total fracasso. Um ano e meio após a sua chegada, o optimismo começou a desvanecer-se dos horizontes do conquistador. Depois de muitas guerras, a primeira "conquista" de Benguela acabou tragicamente na noite de 15 de Janeiro de 1619, terça-feira: Cerveira Pereira foi expulso de Benguela e posto à deriva em um batel ... com um mastro quebrado e uma vela rota, ... sem mantimento, ... sem cama e sem vestidos mais do que tinha quando ... o prenderam. Doente, praticamente cego de uma vista e na miséria, Cerveira Pereira chegou a Luanda, arrastado pela corrente, no dia 20 de Janeiro de 1619.
A seguir à sua morte ficou como governador interino Lopo Soares Lasso que, já depois de abandonar aqulea função governativa, em 1633, numa tentativa de dar guerra ao Ngola Njimbu, de Caconda (já o “reino” do Ndongo se encontrava fragmentado em vários potentados, sendo a Ngola Nzinga (Ginga) Mbande senhora da sua parte oriental e da Matamba), que tinha mandado avisar o governador que não havia razão para este lhe fazer guerra, que ele, soba, não queria; mas Lopo Lasso foi penetrando nas suas terras e sofreu uma derrota total. Salvou-se um único homem, angolano, que levou a triste nova ao 17º Governador e Capitão-General de Angola, Manuel Pereira Coutinho.

A pequena guarnição que ficou em Benguela, morria de fome. Sem comida, nem armas para se defenderem.

O cobre apareceu, séculos depois, mas não em Sumbe-Ambela!

Em 1641 a cidade foi tomada pelos holandeses e a população teve de se refugiar no interior, a cerca de 200 km do litoral. Sete anos depois, em 1648, Benguela foi libertada. Desde então passou a ser porta de passagem para o interior e a região desenvolveu-se muito. Em 1705 uma esquadra francesa destruiu a cidade quase completamente, mas entre 1710 e 1755 os benguelenses reconstruíram-na. As construções eram rudimentares, sendo a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, a primeira construção de pedra e cal.

LISTAGEM DOS 400 ANOS DE TODOS OS GOVERNADORES PORTUGUESES DE ANGOLA
DE 1 DE FEVEREIRO DE 1575, 
A 10 DE NOVEMBRO DE 1975:





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