BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

sábado, 21 de junho de 2014

OS RELATÓRIOS DO COMANDANTE DO BART 6221/74 E DO COMANDANTE DA 2ª CART DO BART 6221/74 SOBRE A VIAGEM LUSO – NOVA LISBOA


OS RELATÓRIOS DO COMANDANTE DO BART 6221/74 E DO COMANDANTE DA 2ª CART DO BART 6221/74 

SOBRE A VIAGEM LUSO – NOVA LISBOA
A 2ª CART do BART 6221/74 saiu do Luso a 12 de Agosto, como escolta da coluna auto-transportada, de refugiados civis para Nova Lisboa e o BART 6221/74 saiu do Luso em comboio às 19 horas do dia 17 – com centenas de civis a bordo, milhares de armas e de toneladas de munições pertencentes à OPVDC [Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil], à Polícia e aos Caminhos de Ferro de Benguela, cobiçadas pelos movimentos de libertação, em especial pela UNITA, que não recebia armas do exterior – a FNLA recebia-as do Zaire e EUA e o MPLA da União Soviética e de Cuba – num comboio com 50 vagons puxados por duas locomotivas. Era uma coisa com quase um quilómetro de extensão...

Eis os Relatórios do Comandante do Batalhão, Tenente-Coronel de Artilharia João Manuel De Faria M. Amaro e do Capitão Milton da Costa Figueiredo (Comandante da 2ª CART) mas reportado ao Comando do Batalhão.

Devo dizer que fiquei com cópias destes relatórios porque (já não me recordo porquê) fui eu que os passei à máquina.

Distância entre Luso (à direita) e Nova Lisboa (à esquerda) - assinaladas pelos círculos a vermelho - comparativamente à dimensão do território angolano

Pormenor do mapa anterior mostrando apenas o trajecto 
- a linha férrea está assinalada a vermelho (traço mais grosso).

 

REGIÃO MILITAR DE ANGOLA
C T LIS
BATALHÃO DE ARTILHARIA N° 6221/74


Relatório sobre os acontecimentos que culminaram com o desarmamento do BART 6221/74 e saque do comboio que o transportava do LUSO para NOVA LISBOA.

1. ANTECEDENTES

a) A MINHA CHEGADA A LUANDA


A minha chegada a Luanda, em trânsito para o Luso onde ia assumir o Comando do BART 6221/74, verificou-se em 29 de Julho de 1975 [o BART 6221/74 já se encontrava no Luso desde 21 de Maio].

Após os necessários contactos nas REP/QG onde me procurei inteirar da situação geral em Angola e particularmente da situação politica-militar no LUSO, apenas um facto concreto me foi dado concluir: que era urgente retirar o «Batalhão daquela cidade e fazê-lo che­gar a Nova Lisboa».

Requisitada a minha passagem para o Luso, esta só se viria a efe­ctivar no dia 3 de Agosto por a situação local não garantir a segurança dos aviões TAAG que por isso cancelaram os seus vôos para o Luso até àquela data.

b) SITUAÇÃO DO BART 6221/74 À DATA DA MINHA CHEGADA

O BART 6221/74, sedeado no Luso, encontrava-se aquartelado nas dependências da Base Aérea (1ª e 3ª Carts), num quartel próximo do aeroporto, junto ao quartel das F.I. (CCS), estando a outra Compa­nhia (2ª CART) aquartelada no centro da cidade, próximo do edifício onde estava instalado o Comando do Batalhão (antigo Comando Mili­tar do Luso).

As 1ª, 2ª e 3ª CARTS, embora com os efectivos reduzidos por moti­vos dos amparos, tinham os seus quadros de graduados sem faltas apreciáveis, não havendo, sobre elas problemas de maior a referir. Já quanto à CCS notei de imediato graves problemas de carácter disciplinar que se poderiam agudizar se não fossem tomadas imedia­tas medidas preventivas.

As causas dessa situação situavam-se numa fraca actuação de Comando, pois o Comandante da Companhia, um Capitão do QSG, era uma pessoa doente, que nessa altura regressava de licença de Portugal, cuja acção parece que nunca se fez sentir junto do pessoal e que nunca teve a devida ajuda do restante pessoal graduado da Companhia. Este Oficial foi evacuado por motivo de saúde, dias depois, para Luanda.

A situação desta CCS obrigou pois a que o Comandante e o Oficial de operações do Batalhão, à falta de outros, desviassem parte das suas preocupações para a CCS.

Por sua vez, o Comando do Batalhão, quanto a Oficiais, estava reduzido ao Comandante Interino, que era na altura o Cap. Guerrei­ro, o Oficial de operações do Batalhão, e a um Tenente do QSG, que tinha a seu cargo a Sec. Transportes, que inteiramente o absorvia.

O 2º Comandante do BART, Major Pestana, estava de licença em Portu­gal e o Major Machado, apresentou-se de licença na mesma data da minha apresentação, mas apenas por breves dias, pois logo a 06 Ago baixou ao HML sendo posteriormente evacuado para Portugal. De uma maneira geral e tirando a CCS, o estado de disciplina do Bata­lhão não me impressionou mal, observado sob uma óptica actual o comparativa com o que infelizmente se vê por todo o lado no nosso Exército.

Sob o ponto de vista operacional não tive ocasião de avaliar a sua preparação, e que agora posso dizer que não destoa do que, uma vez mais, infelizmente, é timbre da generalidade das nossas unida­des: muito fraca.

SITUAÇÃO GERAL NO LUSO

(1) MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO

No Luso em 03 de Agosto, após os confrontos anteriores entre o MPLA e a FNLA, depois dos quais este Movimento foi finalmente forçado a abandonar a cidade, a situação continuou tensa ante a previsível confrontação entre a UNITA e MPLA, ambos desejosos de dominar uma posição, de grande importância estrategica para as ambições daqueles dois movimentos, como é a da Capital do Moxico.

Previa-se que um confronto entre os dois movimentos fosse violento, prolongado e de desfecho indeciso. Durante a minha permanência no Luso, cerca de duas semanas, esses Movimentos não deixaram de aumentar os seus efectivos e o seu potencial de combate.

O ambiente tornava-se cada dia mais tenso, os boatos de uma confrontação iminente eram constantes e frequen­tes incidentes noturnos perturbavam a vida da população.

O Comando, especialmente através do Capitão Guerreiro, o Oficial que na altura melhor conhecia os problemas e as pessoas, manteve-se em contacto quase permanente com os Movimentos, procurando informar-se e, dentro do possível, evitar confrontações. Sabia-se de antemão que era uma tarefa votada ao fracasso, pois não seria a nossa intervenção que evitaria o inevitável, mas tentou-se sempre exaustivamente, pelo menos procurava-se ganhar tempo.

Resta acrescentar que durante a minha estadia no Luso, as relações entre as NT e os Movimentos se mantiveram sempre num ambiente de compreensão e respeito mutuos. O que mais nos surpreendeu pela atitude tomada dias depois.

O PROBLEMA POPULAÇÃO

A 03 de Agosto de 1975, num domingo, desembarquei no Luso. Nesse mesmo dia estabeleci os primeiros contactos com os Oficiais do Batalhão e logo, pela primeira vez, me apercebi da existência de um problema de extrema acuidade, que nem sequer fora aflorado em Luanda e que durante os restantes 14 dias que permaneci no Luso, não mais deixou de estar na primeira linha das minhas preocupações e que decisivamente condicionou a actuação do Batalhão durante todo o processo: trata­va-se do problema da população do Luso que certamente não deixaria de querer ser retirada logo que se anunciasse a saída do Batalhão.

Logo na terça-feira, dia 5, contactei o encarregado do Governo do Distrito a quem, na presença do respectivo secretário e do Major Machado, expus a intenção das Autoridades Mili­tares de retirarem o Batalhão do Luso no mais curto prazo e da necessidade de fazer constar entre a população essa decisão e aconselhar ao mesmo tempo as Autoridades Administrativas, a tomarem providências imediatas, para fazer face à retirada das pessoas interessadas, que certamente não deixa­riam de aparecer em número elevado.

No dia seguinte contactou comigo uma comissão de moradores que, intitulando-se representativa da população do Luso, dizia pretender organizar uma coluna auto que tentaria atingir Nova Lisboa, para o que dispunha de 2 máquinas nivela­doras da Empresa Tecnil e pessoal empecializado na re­paração das estradas e apenas pedindo escolta militar. Obtida nesse dia autorização do CTLIS, foi de imediato comunicado à referida comissão a decisão de dar escolta à coluna e que a mesma, dada a urgência da saída do Batalhão e da premência provocada pela tensão entre os Movimentos, deveria estar pronta a sair na sexta-feira dia 8.

Entretanto, na quinta-feira, dia 7, fui contactado por uma outra comissão à frente da qual se encontrava o secretá­rio do Governo do Distrito a qual, negando representatividade à anterior, veio manifestar a estranheza da população do Luso, pela súbita (para eles) decisão da retirada dos militares, não dando tempo às populações da região para eva­cuar os seus haveres ou, no minimo, se concentrarem.

Foi-lhes explicado o imperativo da ordem recebida, motivada por razões de ordem politico-militar prementes, ordem entretanto confirmada por rádio do CTLIS considerando “imperiosa e urgentíssima a retirada do Batalhão”. Deste encontro ficou combinada uma reunião da população no Palácio do Comércio, para essa mesma noite, a fim de discutir a organização da coluna e marcar uma data para a sua saída.

Nessa reunião, que foi um triste espectáculo de ataques pessoais, ao Governo e ao Exército, numa perfeita demonstração dos mais baixos instintos humanos, de interesses pessoais mesquinhos a sobreporem-se ao colectivo e de declaradas opções partidárias, chegou-se ao despudor de acusar o Comandante do Batalhão de alarmista, pois, no dizer des­ses senhores, nada justificava a saída precipitada da população já que o clima de vivência entre os movimentos instalados na cidade, não tornava a situação alarmante.

Como tudo se discutia e tudo se atacava, sem deixar margem para dis­cutir o que ali nos levara, os militares presentes retiraram-se, garantindo estar prontos a continuar a discussão mas apenas com uma comissão eleita pelos moradores e para o fim que ali nos levara: a organização duma coluna auto da população civil interessada em deixar a cidade com escolta militar.

Essa comissão que foi eleita nessa mesma reunião, contactou o Coman­dante do Batalhão no dia seguinte, tendo ficado assente a organização da coluna e a sua saída do Luso na madrugada do dia 12, numa terça-feira.

Essa coluna, que por intrigas, pressões e certamente promessas de vária ordem não chegou a ter a dimensão que se esperava, saiu efe­ctivamente do Luso às 05H30 desse dia 12, integrando cerca de 200 viaturas e 300 pessoas, números que foram aumentando durante a viagem, sob escolta da 2ª CART/BART6221/74.

PROBLEMA ARMAMENTO

Entretanto e simultaneamente o Comando do Batalhão ia organizando a saída via CF dos restantes elementos do Batalhão.

Só então dei conta de outro problema gravissimo para a retirada em paz do Batalhão e que era a existência, à sua guarda, de alguns milhares de armas e de toneladas de munições pertencentes à OPVDC [Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil], à Polícia e aos Caminhos de Ferro de Benguela, material cobiçado pelos Movimento de Liber­tação, em especial pela UNITA que já anteriormente à minha chegada, assaltara uma arrecadação da CCS de onde levara uma centena de armas (Mauser, na sua maioria).

Para além deste material, fora deixado à responsabilidade do Batalhão algumas dezenas de sacos de fardamento que era destinado às Companhias Integradas que não se chegaram a formar, material de Aquartelamento da Força Aérea em estado impecável, caixotes de militares de outras uni­dades que passaram pelo Luso e que deixaram ao Batalhão o encargo e a responsabilidade do seu transporte, enfim, uma terrível sobrecarga para uma Unidade que era obrigada a retirar urgentemente sob a pressão de ordens superiores e de acontecimentos gravíssimos que de um dia para o outro poderiam pôr em causa a sua saída do Luso, a não ser recorrendo a grandes recursos.

Este problema das armas e munições e a cobiça que elas despertavam à UNITA, foi exposto ao CTLIS e pedida protecção adequada ao comboio, inclusive de meios aéreos. O Comando do Batalhão nunca chegou a ter resposta a esta proposta. Pedi um avião para me deslocar a Nova Lisboa, onde pretendia de viva voz expor todos os problemas que nos afligiam, pois os considerávamos de extrema gravidade, mas essa oportunidade foi-me negada.

Sem pretender atingir pessoas, seja-me permitido manifestar o meu profundo desgosto pelo abandono a que me senti votado como Coman­dante do Batalhão na breve estadia no Luso.

Não estou aqui a fazer a minha defesa, relato cronologicamente os acontecimentos, mas é-me impossível deixar de pôr uma nota de amar­gura pela forma, tão de ânimo leve, como foram encaradas superior­mente os problemas do Batalhão

2. DESCRIÇÃO GERAL DOS ACONTECIMENTOS

a) A LUTA ENTRE O MPLA E A UNITA NO LUSO


No dia 15, às 19H20, quando faltava carregar a última viatura no comboio, o MPLA e a UNITA desencandearam o que há várias dias vinha sendo esperado, uma confrontação directa entre si, com forte tiroteio de armas ligeiras e pesadas. A zona prin­cipal dos combates localizou-se precisamente nas imediações da Estação dos Caminhos de Ferro, onde se encontravam as principais organizações [aquartelamentos] dos M.L.. Para o Batalhão, já todo embarcado, foram momentos particularmente difíceis, pois a qualquer momento poderia ser vítima dos disparos menos precisos e por outro lado não podia tomar qualquer iniciativa ou movimentar-se, pois não podia abandonar o material.

Os combates entre a UNITA e o MPLA continuaram pela noite dentro, intensificaram-se na manhã de sábado (dia l6) e prolongaram-se mais ou menos intensamente até domingo de manhã, quando o MPLA começou a dominar a situação.

Conseguiu-se então, com muito esforço, reunir o pessoal do C.F. necessário à marcha do comboio.

Tivemos de pedir, dar ordens, ameaçar, vencer mil obstáculos e enfrentar uma autêntica resistência passiva por parte de alguns ele­mentos do C.F. interessados em sair do Luso, sim, mas só quan­do tivessem as suas coisas prontas e os seus carros embarcados, em manifestações do mais puro egoismo e falta de caracter.

Entretanto, grande número de pessoas apavoradas, assediavam-nos com pedidos de transporte. Os casos mais urgentes eram aten­didos, à maior parte não se podia valer, pois as duas carruagens postas à nossa disposição já há muito tinham a lotação excedida.

Poucas horas antes da saída do comboio, o Presidente da Câmara do Luso, dirigiu-se-me, dizendo que queria falar com o Comandante do Batalhão em nome da população do Luso e que o comboio não devia partir antes de serem evacuados todos os civis que dese­jassem sair da cidade. Energicamente foi-lhe respondido que já fora organizada uma coluna auto com protecção militar, que durante a semana tinham circulado comboios, que, enfim, a essa população foram dadas oportunidades, precárias embora, para sair do Luso. Tinham preferido ficar na expectativa à espera do melhor, e só o terror e pavor provocado pela Guerra [Civil] os instara a querer sair precipitadamente, fazendo exigências que estavam para além da capacidade da resolução do Batalhão, até pela própria situa­ção de insegurança e inoperacionalidade em que este se encontra­va.

Pois o Sr. Presidente da Câmara chegou ao ponto de ameaçar colo­car as crianças e a população à frente do comboio para impedir a sua saída.

Finalmente, cerca das 19h00 do dia l7, o comboio saiu do Luso, no meio de boatos de que a UNITA recomposta e reforçados os seus efectivos marchava novamente sobre o Luso. O comboio era uma composição enorme, com cerca de 50 vagons puxado por 2 máquinas locomotivas, carregado de material de guerra e outro, transpor­tado em duas carruagens e espalhadas pelos outros vagons, para cima de 300 civis, na sua grande maioria mulheres e crianças.

b) A VIAGEM, O DESARMAMENTO DO PESSOAL E O SAQUE DO COMBOIO

Até à Chicala, a cerca de 2 horas de marcha, a viagem decorreu sem incidentes. Na Chicala o comboio interrompeu a marcha.

Passados momentos foi pedida a comparência de alguém do Comando do Batalhão para resolver qualquer problema que surgira. Pedi ao Capitão Guerreiro, oficial operacional, já muito habituado a contactar com os M.L., que fosse ver o que se passava. Momentos depois o Cap. Guerreiro pedia a minha comparência. Fui encontrá-lo junto do Comandante Chewale, da UNITA, o qual depois de me cumprimentar solicitou que o Batalhão lhe cedesse algumas munições. Respon­di-lhe negativamente e justifiquei com a posição de neutralidade que o Governo Português optara e o Exército devia escrupulosa­mente cumprir. Chewale replicou que a tropa portuguesa tinha ajudado o MPLA no Luso, o que veementemente neguei. Depois de mais alguns momentos de discussão sempre amena e de conversa, em que inclusivamente informámos o Comandante Chewale que dé­ramos abrigo ao Delegado da UNITA no Luso, o qual viajava connosco no comboio sob disfarce e bem assim como a dois militares da UNITA que também tinham pedido a nossa protecção, pareceu-nos que o Chewale (e ele assim o declarou) tinha compreendido e aceite a nossa posição.

Nessa condição nos despedimos dele e embarcámos no comboio aguardando o recomeço da marcha.

Passados talvez uns 5 minutos, um dos Comandantes de Com­panhia veio avisar-nos que o comboio estava impedido de reco­meçar a marcha porque a tal se opunha um Major da UNITA junto à primeira máquina, mandei o Cap. Guerreiro esclarecer o assunto, que considerei um mal entendido de somenos importância. Entretanto fui-me apercebendo da proximidade de vários elementos armados da UNITA, dum e doutro lado do comboio, os quais podiam provocar uma confrontação com os nossos soldados, já que alguns desses elementos, dando indícios de estarem fortemente drogados, tomaram atitudes provocatórias.

Resolvi tomar a iniciativa de eu próprio ir falar novamente com o Comandante Chewale. Junto ao edificio da estação encontrei o Cap. Guerreiro que falava com o tal Major da UNITA, que impedira a marcha do comboio. Quando perguntei o que se passava disse-me que queria ver as munições. Perguntei-lhe para que queria ele ver as munições "quero ver as munições" foi a resposta invariá­vel desse elemento até que o Cap. Guerreiro lhe pôs a pergunta: "você quer ver as munições ou quer as munições?".

Ele então confessou que queria as munições. Respondi-lhe que o assunto já fora discutido com o superior dele, Comandante Chewale ficando encerrado com a concordância desse seu superior hierár­quico e pedi para o contactor novamente. Respondeu que o Coman­dante Chewale já ali não estava e que agora era ele quem dava as ordens. E afastou-se abruptamente.

Procurando chegar a uma plataforma de entendimento, decidimos propor a entrega de algumas munições quando, subitamente, sem nos dar tempo a apresentar essa proposta, nos vimos rodeados de algumas dezenas de individuos completamente drogados, que apontando-nos as suas armas e em atitudes alucinadas, exi­giam as entregas das nossas. Perante o dilema e ainda na ex­pectativa de entendimento, ordenei ao pouco pessoal que me rodeava que entregasse as suas armas, pois qualquer atitude mais irreflectida poderia provocar um massacre daquele pessoal.

Entretanto procurava chamá-los à razão, mas já não me deixaram qualquer oportunidade.

Enquanto aqueles elementos, sob a ameaça das armas que a qual­quer momento podiam disparar, porque, repete-se, estavam com­pletamente drogados ou embriagados, nos obrigaram a recolher ao edificio da estação, os outros elementos que rodeavam o comboio e que, cada vez em maior número saíam da escuridão, ante a perplexidade dos nossos militares, os assaltavam e exigindo-lhes as armas. Foi então que se houviu um tiro, não se sabe dispara­do por quem, o que imediatamente provocou forte fuzilaria.

Nas carruagens e nos vagons onde haviam mulheres e crianças imediatamente se estabeleceu o pânico. Um massacre poderia estar iminente não só entre a população civil como entre os nossos militares muitos dos quais já estavam desarmados e, se não quisermos agora, neste momento e mais friamente, ser tão pessimistas, teremos de admitir no minimo um número elevado de mortes, já que a nossa posição, dentro do comboio, era absolutamente vulnerável.

Decidi então debaixo do tiroteio tentar falar novamente com o já referido Major da UNITA. Saí do edificio e auxiliado por um militante da UNITA que encontrei, por ele me deixei conduzir. Encontrei o tal Major junto dumas edificações rodeadas pelos seus homens que, enquanto falava com ele, dizendo-lhe que era preciso acabar com o fogo, nunca deixaram de me apontar as suas armas e de me ameaçar de morte.

Conseguiu-se parar o fogo, mas não mais dialogar. O restante pessoal foi rapidamente desarmado e imediatamente uma multi­dão começou a saquear os vagons. Primeiro só as armas e munições, depois tudo o que apanhavam à mão e despertava a sua cobiça.

Procurei novamente falar com o Comandante Chewale e um militante da UNITA ainda me acompanhou até junto de uma cerca onde, ao fundo, havia sinais de estar gente. Mandou-me esperar e não mais apareceu, até que, empurrado e ameaçado, tive que voltar para junto do comboio.

A meio da madrugada o comboio reiniciou a marcha, para ser detido novamente na estação seguinte: CANGUMBE. O que restava de armas e munições foi descarregado, caixotes foram abertos, diziam que à procura de armas sob o mesmo pretexto, nem as bagagens pessoais escapavam. Os vagons com as viaturas foram desatrelados e desviados para um ramal. Sob o pretexto de que um Furriel, proprietário de uma viatura civil que vinha em cima de uma Berliet, andara aos tiros no Luso contra a UNITA, foi este indivíduo sovado selvaticamente e arrastado para longe do comboio. Receando o pior fui no encalço do grupo e quando me aproximei e verberei o seu procedimento, fui também agredido a soco e pontapé, não tendo conseguido arrancar o Furriel das mãos dos seus agressores. Só pouco antes do comboio partir, o referido Furriel foi liberto em lastimoso estado fisico. Novamente procurámos contactar responsáveis de UNlTA para fazer-lhes sentir a responsabilidade que sobre eles pesava, pelo acto que esta­vam a praticar contra uma Unidade do Exército Português, mas esses dirigentes não se revelaram nunca. Só a turba, cega pela cobiça da pilhagem e pela droga, nos enfrentara e ameaçava a qualquer protesto mais enérgico.

E foi assim no resto do percurso, com paragem em todas estações e apeadeiros, com mais buscas e ameaças, uma viagem alucinante que a todos traumatizou e marcou.

Pelas 9H00 de 19AGO75 o comboio chegou finalmente a Nova Lisboa, tendo imediatamente sido apresentado relato verbal mas forçosamen­te incompleto ao Comandante Interino do CTLIS do pesadelo porque acabava de passar o BART 6221/74.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A retirada do BART 6221/74 do Luso foi pensada (?) e decidida sem ter em conta dois factores que considero determinantes na acção desenvolvida pela UNITA contra o Batalhão e na (não) actuação deste.

O carregamento de armas e munições [milhares de armas e toneladas de munições pertencentes à OPVDC [Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil], à Polícia e aos Caminhos de Ferro de Benguela, que transportávamos era um isco demasiado precioso e aliciante para que o pudéssemos passear impunemente através de 600 Km, de Território controlado pela UNITA e onde este Movimento localiza as suas principais bases, sabendo-se como se devia saber, pelo menos aqueles que, pelas suas funções e tempo de serviço em Angola, melhor deviam conhecer o problema a necessidade que este Movimento tinha de armas e munições e a cobiça que as mesmas lhes despertavam.

Por outro lado a população civil transportada, as condições em que esse transporte se processava, com carruagens apinhadas e pessoas espa­lhadas pelas vagons juntamente com os militares, conjuntamente com a dispersão dos militares por dezenas de vagons e ainda o facto dos acontecimentos se terem desenrolado de noite, o ter-se acreditado na palavra do Comandante Chewale, um individuo que pelas suas funções na UNITA nos merecia um mínimo de crédito e principalmente ter-se acreditado, que o Exército Português ainda merecia por parte dos Movimentes um mínimo de respeito e consideração (e este foi, no meu julgamento auto-crítico o meu grande erro) que de antemão tornaria inviável uma acção do género da desenvolvida.

Todos estes factores explicam a (não) actuação do Batalhão na emergência. Se a UNITA estava, como os factos confirmaram, disposta a apoderar-se das armas e munições, qualquer tentativa violenta para o evitarmos ter-se-ia saldado, não temos dúvidas, com muitos mortos e feridos, sem hipóteses de qualquer auxilio, que não foi previsto em tempo útil, e de consequências mais que duvidosas quanto ao destino final da carga. Nas condições em que foi decidida, sem ter em consideração factores determinantes e que em absoluto exigiam o planeamento de uma operação à escala superior (nunca a nível Batalhão), com os condicionalismos de toda a ordem e que procurei evidenciar ao longo deste relatório, era uma operação condenada ao fracasso, a partir do momento em que o inimigo (que se julgava não existir) a contrariasse decididamente. E foi isso que sucedeu: um “inimigo" de fraco valor militar, indisciplinado, drogado e inconsciente, mas por tudo isso altamente perigoso, decidiu apoderar-se dos materiais transportados. O Batalhão, mal preparado sobre o ponto de vista operacional, com o pessoal desmotivado para qualquer género de acção violenta, em situação critica dentro de um comboio em que viajavam muitos civis, poderia mesmo assim, ter reagido, com os riscos que tal atitude envolveria. Não o fez. Ficará de pé para quem não esteve presente, a duvida se não seria essa a decisão acertada. Para nos, não era.

ANEXOS

1. MAT. GUERRA
2. MAT. AQUARTELAMENTO
3. ARTIGOS DE CANTINA RANCHO
a. Víveres normais
b. Víveres especiais (R/C)

Quartel em N. Lisboa, 19 de Agosto de 1975

O COMANDANTE

JOÃO MANUEL DE FARIA M. AMARO
TEN.COR.DE ARTa.
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REGIÃO MILITAR DE ANGOLA 

BATALHÃO DE ARTILHARIA N 6221/74 2ª COMPANHIA

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COLUNA AUTO PARA ESCOLTA DE REFUGIADOS DO LUSO PARA NOVA LISBOA


Em 12AGO75 saiu do Luso uma coluna com cerca de 200 veículos civis escoltada pela 2ª CART/BART 6221/74, transportada em 3 Berliets e 3 carros pesados civis. Se­guiam também na coluna 2 auto-niveladoras.

As 11h00 a coluna chegou a CANGUMBE, um dos quartéis da UNITA, onde a coluna foi interceptada e cercada por alguns milhares de militares armados daquele Movimento. Após algumas horas de conversações com os responsáveis, permitiram que a coluna partisse, mas antes fizeram uma revista aos carros civis. Depois da revista a coluna seguiu.

Depois daquela povoação, devido ao piso muito arenoso, a coluna começou a deslo­car-se lentamente sendo necessário que as auto-niveladoras abrissem novas picadas e a maio­ria dos carros tiveram que ser rebocados um a um, havendo a louvar o esforço dos nossos milita­res incansáveis a empurrar as viaturas civis. Pernoitamos entre CANGUMBE e CANGONGA,

No dia 14 ao anoitecer a coluna chegou a CANGONCA onde foi interceptada por militares da UNITA que após uma troca de impressões com os responsáveis não levantaram problemas. Pernoitamos fora da povoação.

No dia 15 à tarde atingimos MUNHANGO onde não houve problemas de passagem. Como faltassem alimentos à coluna e como não conseguíamos comunicar com LUSO nem com NOVA LISBOA, foram pedidos alimentos a NOVA LISBOA via rádio dos CPB. O nosso apelo não foi atendido. Pernoitámos fora da localidade.

No dia 16 pernoitámos entre MUNHANGO e CUEMBA.

No dia 17 a coluna atingiu CUEMBA onde não parou, indo formar-se a cerca de 30 Km depois da povoação. Ao entardecer, com a coluna parada, fomos interceptados por um Capitão da UNITA que começou a levantar problemas. Entretanto surgiu o Major Se­verino da UNITA que se insurgiu contra aquele Capitão e nos mandou seguir. Com o problema resolvido e como a estrada já era boa e havendo grande número de crianças na co­luna sem leite nem alimentos procurou-se atingir GENERAL MACHADO [actual Camacupa] onde havia hipótese de adquirir estes alimentos. Junto à ponte sobre o QUANZA, perto dum quartel da UNITA aí existente, a coluna caiu numa emboscada preparada pelos militares da UNITA. Era ao anoitecer. Assaltaram o Land Rover das transmissóes que seguia â frente junto aos car­ros ligeiros, não tendo estes possibilidades de alertar o resto da coluna. Dado o elevado número de militares armados da UNITA que surgiram de todos os lados não foi possível resistir. Por outro lado dada a dispersão de militares em pequenos grupos espalhados ao longo da coluna foi impossível reagir. Além disso, também dado o número eleva­do de crianças e mulheres que seguiam na coluna qualquer resistencia nossa provocaria um morticínio total dado que estávamos emboscados dos dois lados da via, por grande número de militares da UNITA.

AI fomos desarmados, revistados e alguns de nós barbaramente espancados, sendo roubado todo o material rádio, material de guerra, equipamento, fardamento, artigos pessoais, géneros, etc. Os homens de transmissões que seguiam no Land Rover foram barbaramente espancados tendo de ser socorridos no Hospital de GENERAL MACHADO em es­tado de choque. Alguns graduados foram enxovalhados e desumanamente agredidos. A se­guir ao desarmamento, a coluna sofreu as piores sevícias, pois foi obrigada a parar em cada local onde existiam elementos da UNITA ou FNLA e os carros revistados sistematicamente, assim como foram roubados poucos haveres pessoais que ainda restavam.

No dia 18, pelas 18H00, a coluna chegou a NOVA LISBOA.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

– Numa coluna com cerca de 200 viaturas civis, escoltada por cerca de 100 homens sem apoio de qualquer ordem, num território totalmente dominado pela UNITA, onde en­contrámos algumas dezenas de milhares de militares armados deste Movimento, tudo seria de esperar.

– Há a acentuar o facto de termos sido atacados de imprevisto ao anoitecer, só dando conta do facto depois de estarmos totalmente cercados por militares daquele Movimen­to.

– Qualquer tentativa de reacção do nosso lado seria um suicídio, dado o elevado número de mulheres e crianças que vinham na coluna, na grande dispersão dos nossos militares ao longo da mesma, em pequenos grupos e dado o elevado número de milita­res armados da UNITA.

– Há a acentuar a ausência de efectivos militares Portugueses entre LUSO e NOVA LISBOA, numa extenção de cerca de seiscentos KMs, havendo a acrescentar que as tro­pas que estavam em SILVA PORTO [actual Kuito] tinham sido evacuadas antes da nossa saída do LUSO e não nos sendo proporcionado qualquer auxilio em efectivos militares entre LUSO e NO­VA LISBOA.

– Dada a grande distância entre os quartéis mais próximos e dado aos acidentes do terreno não foi possível o contacto, via rádio, com qualquer Unidade Militar.

– O único auxílio pedido através de rádio dos C.F.B. a NOVA LISBOA nao foi atendido, sabendo-se que estávamos sem géneros e havia muitas crianças e mulheres na coluna, o que em parte nos obrigou a andar até ao anoitecer, porque havia crianças sem leite e sem qualquer outro alimento.

MATERIAL FURTADO

................... segue-se a descrição exaustiva do material roubado pela UNITA....................

Quartel em Nova Lisboa,    de Agosto de 1975

(Sem assinatura)

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

O “MISTÉRIO” DO GUIÃO-BRASÃO DO BART 6221/74


O “MISTÉRIO” DO GUIÃO-BRASÃO 
DO BART 6221/74

Sempre me interroguei porque é que nunca vi em lado algum o “símbolo”/”bandeira”/”brasão” ou “guião” do BART 6221/74 enquanto estivemos em Angola (ou mesmo antes). Depois de ter encontrado a comunicação/convocatória de Alpoim Inácio e Eduardo Maia – no blogue Guerra do Ultramar – para o 20º Encontro Anual do Batalhão, deste ano em Peraboa, em que se exibe um Guião como sendo o do BART 6221/74, fiquei a perceber que tal Guião existia – embora seja o mesmo também atribuido a outros Batalhões, mudando apenas as designações. Isto depois de ter desenhado alguns brasões/guiões que não têm muito a ver com o simbolismo militar oficial.

Após algumas pesquisas e chatear “meio mundo” do Regimento de Artilharia do Porto (RAP2), actual Regimento de Artilharia 5 (RA5), consegui uma resposta por email, que me esclareceu por completo:

Caro Sr. Jorge Machado Dias,

Sou Sargento Chefe de Artilharia, de nome Floriano Neto, prestando serviço no Museu Militar do Porto, tendo após algumas deambulações chegado até mim a incumbência de saber se existe ou não o Guião do referido BArt.

O referido BArt existiu realmente tendo embarcado para Angola a 9 de Maio de 1975
[penso que foi a 16 e não a 9] tendo estado no Luso e em Nova Lisboa, sendo constituído pelas 1ª, 2ª e 3ª Companhias e penso que também por uma CCS.

O referido Guião não existe no RA5 (nome atual do RAP2), onde prestei serviço durante muitos anos tendo sido o responsável pela Coleção Visitável da Unidade durante vários anos, sendo por isso conhecedor de todo o espólio lá existente. Também não existe no Museu Militar do Porto (existem outros mas não esse). Existe sim no RA5 o Guião do BArt 6221/72, pelo que por analogia deste e de outros similares lá existentes julgo que o Guião que procura deve ser semelhante àquele apenas mudando o ultimo algarismo.

Sem mais,
Floriano Neto
SCH ART RES


O Guião do BART 6221/72, referido pelo Sargento Chefe Floriano Neto

Portanto, o Guião que se exibe na comunicação/convocatória de Alpoim Inácio e Eduardo Maia acima referida, é mesmo o Guião oficial do BART 6221/74. Contudo o péssimo desenho do mesmo e algumas configurações contrárias aos pressupostos da heráldica, levaram-me a redesenhar todo o “brasão”, desenho esse que apresento abaixo. Acabei mesmo por substituir o “leão” armorial do topo – com uma granada nas “mãos” –, porque o que se vê na imagem original (penso que de 1974), mais parece um cão rafeiro que um leão. O “leão” que utilizo é o mais comum nos emblemas heráldicos – não sei onde foram buscar aquele estranho animalejo para o “nosso” Guião...

O Guião que se exibe na comunicação/convocatória de Alpoim Inácio e Eduardo Maia acima referida.

O mesmo Guião redesenhado por mim...

 Dois brasões idealizados e desenhados por mim antes de saber que existia um Guião oficial...
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Entretanto criei uma página no Facebook denominada:
BART 6221/74 - OS ÚLTIMOS NO LESTE DE ANGOLA 1975
A que se pode aceder clicando no link abaixo:

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sexta-feira, 23 de maio de 2014

PROCURA DE EDIFÍCIOS NA CIDADE DO LUSO



PROCURA DE EDIFÍCIOS 
NA CIDADE DO LUSO

Fotografia aérea (obtida no Google Maps) da cidade do Luso (agora Luena), na actualidade. Marquei com um círculo a branco o edifício do Hotel Luso. À esquerda, com dois círculos a vermelho: na parte superior aquilo que penso ser o edifício do antigo quartel onde esteve a 2ª CART do BART 6221/74 e na parte inferior – também com círculo a vermelho – o que penso serem os antigos edifícios da Messe de Sargentos. O que penso ser o "quartel" tem agora um edifício moderno ao lado, no terreno que me parece ter sido um descampado em 1975.

Alguém me conseguirá confirmar estas minhas suposições?

Pormenor da zona com os círculos avermelho.

Alguém se lembra como se chamava este "monumento"?

Foto do mesmo monumento, em 1975, com três camaradas nossos em primeiro plano - não sei se a foto foi tirada pelo Mário Lopes....

Digam qualquer coisa nos "Comentários", aqui em baixo, OK?

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quarta-feira, 21 de maio de 2014

MAIS ALGUNS DISPARATES SOBRE O “BATALHÃO PÉ DESCALÇO” AGORA NA VOZ DOS “NOSSOS” GENERAIS.


Caminho de Ferro de Benguela (a vermelho) - Luso-Huambo: 536 Km

MAIS ALGUNS DISPARATES SOBRE O “BATALHÃO PÉ DESCALÇO” 
AGORA NA VOZ 
DOS “NOSSOS” GENERAIS

Trata-se de um PDF de depoimentos dos participantes nos chamados Estudos Gerais da Arrábida, que pode ser lido aqui: http://www.ahs-descolonizacao.ics.ul.pt/docs/angola_1997_07_31.pdf

Estudos Gerais da Arrábida A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA 
Painel dedicado a Angola (28 de Agosto de 1996) 

Depoimentos dos brigadeiros Fernando Passos Ramos (1), Pedro Pezarat Correia (2), almirante Rosa Coutinho (3) e comandante Jorge Correia Jesuíno (4).
“(...)
Almirante Rosa Coutinho: A FNLA avançou até ao Ambriz e depois até ao Caxito.

Brigadeiro Passos Ramos: Sim, mas não era um perigo maior.

Almirante Rosa Coutinho: Expulsou o MPLA…

Brigadeiro Passos Ramos: O FNLA não, o Zaire.

Almirante Rosa Coutinho: O Leão Correia continuava a comandar lá aquela zona. Acabou por ter de regressar a Luanda sob o acosso da FNLA (...)”.

“(...)

Brigadeiro Passos Ramos: Sim, mas [a FNLA] levou castanha das nossas tropas que não foi brinquedo, não é? Porque a saída de Carmona e do Uíge foi protegida pelas tropas, por helicópteros e com emboscadas descontínuas. Infelizmente, já não aconteceu o mesmo no Luso. Infelizmente, no Luso foi uma inconsciência total o que fizeram. Mandar por caminho-de-ferro, oferecer às mandíbulas daquele tipo, daquele tipo da UNITA, que foi morto mais tarde… como é que ele se chamava? Oferecem-lhe um comboio com um batalhão e com oitocentos civis, mulheres e crianças. Depois deu origem ao «batalhão pé descalço»: o comandante de batalhão, entre perder as pessoas… Porque a vontade da tropa era disparar, era ripostar contra indivíduos emboscados dentro da mata [ao longo] do caminho de ferro. E ouve-se a história de um administrativo que vinha lá dentro: «Todos os dias eu rezo pela saúde daquele tenente-coronel.» Ele sujeitou-se a tudo para ir buscar um furriel que mandou uma galheta num tipo da UNITA. Levavam-no já para o matar. E ele veio em cuecas. Chegaram em cuecas, sem fardas – um batalhão! […]. Chegaram a Nova Lisboa e aqueles tipos de cavalaria começaram a chamar à artilharia o «batalhão pé descalço». Só que, mais tarde, quando chegaram…

Almirante Rosa Coutinho: Isso da UNITA foi em Nova Lisboa ou no Luso?

Brigadeiro Passos Ramos: Isto foi em Cangumbe.

Brigadeiro Pezarat Correia: Foi na saída do comboio… Era o Amaro que vinha a comandar o batalhão.

Brigadeiro Passos Ramos: Era o Amaro. O Amaro estava há quinze dias lá. O segundo comandante, inteligentemente, entrou de licença. Em vez de o mandarem vir por Henrique Carvalho, como seria normal, mandam-no sair pela área da UNITA. Acho que o Mário Soares, na partilha daquele armamento que era da OPVDCA [Organização Provincial de Voluntários de Defesa Civil de Angola] e que estava dito que seria distribuído pelos movimentos, terá beneficiado o MPLA (ali não havia FNLA) em vez da UNITA. De maneira que a UNITA foi buscar o armamento de um batalhão inteiro: fardamento; as bagagens de todos os civis…

Brigadeiro Pezarat Correia: Mas ó dr. Lucena, eu penso que comemos aqui algumas etapas e foi pena. Ficaram algumas coisas…

Manuel de Lucena: Não, eu acho que a conversa já vai…(...)”


Como se pode ler, nem os senhores Generais sabiam muito bem do que estavam a falar. Eu próprio presenciei a cena do furriel que foi levado pelos tipos da UNITA e sei que não foi por ele ter “mandado uma galheta” a quem quer que fosse. Foi de facto na estação de Cangumbe, (aquela frase de estarem “emboscados na mata”, não é verdade – foi mesmo nas estações, primeiro em Chicala e depois em Cangumbe) mas por terem descoberto o carro dele (um volkswagen vermelho) em cima de uma berliet, tapado com uma lona. O comandante das FALA perguntou de quem era aquele carro e, quando o furriel disse que era dele, foi imediatamente levado para fora da estação – o comandante das FALA gritava: “andou a disparar contra nós no Luso!!!”. Foi aí que o nosso comandante foi atrás deles, para resgatar o homem e foi agredido pela turba que rodeava o caminho e que, inclusivamente lhe arrancou os galões da farda. Não me recordo se o dito furriel foi “devolvido” “em cuecas” (não me parece que tenha sido assim, senão eu recordava-me disso), mas sei que estava bastante mal tratado quando regressou ao comboio. Portanto... meus amigos, estas coisas – a verdade – têm mesmo que ficar escritas por quem as viveu: nós próprios!

Obviamente o comboio não era este (penso que nem há fotos dele), mas seria qualquer coisa no género.

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sexta-feira, 16 de maio de 2014

AMANHÃ (17 DE MAIO) O 20º ENCONTRO ANUAL DE 2014 DO BART 6221/74 - EM PERABOA


Peraboa - Concelho da Covilhã

AMANHÃ (17 DE MAIO) 
O 20º ENCONTRO ANUAL DE 2014 
DO BART 6221/74
EM PERABOA

Página de divulgação do Encontro anual do BART 6221/74 de 17 de Maio de 2014
no blogue Dos Veteranos da Guerra do Ultramar
Como se pode verificar há um erro no título do texto: o BART6221/74 não serviu o Estado Português em Angola em 1974, mas em 1975. É preciso atenção a estes pormenores...
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Comunicação do ex-Furriel Alpoim Inácio, da 3ª CART do BART 6221/74
para este encontro
ALGUMAS FOTOS DE PERABOA



NA IMPOSSIBILIDADE DE ESTARMOS PRESENTES 
O BLOGUE "ÚLTIMOS NO LESTE" DESEJA A TODOS UM EXCELENTE ENCONTRO

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quarta-feira, 7 de maio de 2014

O “BATALHÃO PÉ DESCALÇO”



O “BATALHÃO PÉ DESCALÇO”

Descobri, numa comunicação do nosso camarada Eduardo Maia, a publicitar o Encontro anual do BART 6221/74 no próximo dia 17, em Pera Boa, que afinal o nosso Batalhão tinha Brasão e Guião, apesar de sempre me ter parecido que não tinha. Aqui fica.

Esta questão do “Batalhão Pé Descalço” tem-me partido a cabeça ao longo destes quase 40 anos. A minha ex-mulher, na altura escreveu-me a contar que havia saido na imprensa (penso que n’O Jornal) uma notícia sobre o “Batalhão Pé Descalço” e logo aí fiquei furioso. Mas pensei que a peça poderia resultar de alguma “boca” de um dos nossos camaradas: “chegou tudo descalço” ou “chegou tudo em cuecas”, enfim... Tenho também pensado se o “descalço” não seria uma alusão ao “desarmado”... Mas depois do que me escreveu o tal meu amigo (cujo depoimento publiquei no post anterior) e de qualquer modo, já que estamos historicamente conectados com essa designação, vou deixando aqui as comunicações que se referem a ela. Mais tarde poderemos questionar ou reflectir nisto tudo, se é que alguém estará interessado em fazê-lo. Mas penso que tem alguma importância.

Deixo aqui um excerto do texto (uma Comunicação lida na célebre Assembleia de Tancos do MFA) publicado no blogue “Fora Nada e vão Três – Luís Graça & Camaradas da Guiné” – que podem ver AQUI!
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Mensagem de José Belo (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref), com data de 17 de Janeiro de 2010:

Caros Camaradas e Amigos.

Em comentário, quanto a mim, pertinente, Carlos Vinhal salienta o facto de poucas "histórias e Histórias" haver publicadas pelos que... fecharam a porta... das guerras de África.

Em complemento ao meu poste sobre a descolonização, e a propósito do referido, aqui segue a intervenção do delegado do M.F.A de Angola (Capitão Azevedo Martins) à Assembleia dos Delegados do Exército que ficou conhecida como a Assembleia de Tancos (2 de Setembro de 1975).

"(...) Estão presentemente sediados em Nova Lisboa um Comando de Agrupamento, um Batalhão de Cavalaria e um Batalhão de Infantaria. Não existe sequer uma arma pesada, e dos dois Batalhões, o de Cavalaria ainda poderá dispor de pouco mais de 100 homens para o combate, enquanto o de Infantaria não poderá dispor de NINGUÉM, pois é o Batalhão que veio do Luso e que os próprios soldados do Comando do Agrupamento e do Batalhão de Cavalaria apelidam do "Batalhão do pé descalço.

Este Batalhão, no seu deslocamento do Luso para Nova Lisboa, foi desarmado, e espancados alguns dos seus elementos, incluindo o próprio Comandante. Perderam-se cerca de 4000 armas, rádios, munições, material cripto, tudo em posse da Unita. Foi o próprio Chiwale, 2.º Comandante Militar da Unita, que ordenou esta acção contra o Batalhão, como represália por acções menos correctas das nossas tropas em Sá da Bandeira, das quais trataremos mais à frente. Deste Batalhão, soldados houve que chegaram a Nova Lisboa em cuecas, facto que terá traumatizado esses elementos, mas é agora trauma explorado para forçar a sua retirada imediata para Portugal, embora só tenha... 3 meses de comissão!


Ciganos, que fazem parte dos elementos do Batalhão, logo após a entrada no quartel que lhes foi distribuído, começaram com arrombamentos e roubos. Impossível é, e porque tudo já se tentou, convencer a maioria a pegar em armas, mesmo que seja para desempenhar a também nobre missão de sentinela. Os factos passados com este Batalhão, e com uma "espécie de Companhia" que apareceu em Nova Lisboa, muito contribuíram para uma quebra no entusiasmo com que os poucos mais de 100 homens do BCav vinham desempenhando árduas missões, mesmo fora da zona de acção, como foi a evacuação da população de Malange.

A "espécie rara de Companhia" que atrás referi é um bando, não digo armado, por à semelhanca do Batalhão, ter sido também desarmada pela Unita, quando do regresso de uma missão de Henrique de Carvalho para Luanda. O Comandante desta Companhia apareceu em Nova Lisboa escoltado por elementos da FNLA, brancos, armados, pedindo cerca de 2.000 mil rações de combate e alguns milhares de litros de gasolina. Refere-se que o dito Comandante da Companhia não estava sob qualquer coacção!

Peço aqui licença ao meu General para usar linguagem "vicentina"... mas estamos a averiguar casos de soldados que trocaram a sua ração de combate pela... "co.." de algumas desalojadas! É um tal Capitão França e Silva e a sua Companhia que recebe na ordem de dezenas largas de contos dos desalojados, aos quais já muito pouco resta na vida, e mesmo esta em risco de perder-se se nós não lhes valermos. São as acções deste mesmo Capitão ao entregar o quartel de Pereira de Eça em condições muito mais que cobardes como consta do auto de notícia, por mim escrito, em que fez entrar no Quartel elementos do MPLA e os dispôs em posições camufladas. Seguidamente foi comunicar à UNITA para ir receber o mesmo Quartel. O resultado não precisa de ser aqui descrito.

Mas não são só os Militares. É-o também um tal Encarregado do Governo que mesmo sabendo das carências dos refugiados se permitiu arrecadar seis ou sete toneladas de arroz, pois tinha no seu palácio albergados os Srs. Ministros da UNITA. Tive mesmo oportunidade de perguntar numa reunião, a este Encarregado do Governo, porque não estaria já hasteada no seu palácio a bandeira da UNITA, tal o estado, sujo e esfarrapado, em que lá tinha hasteada a bandeira Portuguesa! (...)”


À parte a inexactidão do “Batalhão de Infantaria”, da imbecilidade dos “ciganos” com “arrombamentos e roubos“ e outras “miudezas”, isto terá alguma coisa de real? Foi isto que se passou? Não me parece, não acredito nisto, mas aguardo outras opiniões...

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sexta-feira, 2 de maio de 2014

ONDE FICOU O BART 6221/74 EM NOVA LISBOA


Quando comecei esta saga de tentar contar a História do BART 6221/74, consegui identificar o quartel onde ficou o Batalhão em Nova Lisboa (mais tarde falaremos na estadia no Luso), no Google Maps, por causa do inconfundível lago artificial que lhe ficava ao lado e onde por vezes iamos “ao banho”. A minha dificuldade foi em saber a designação do referido quartel. Escrevi então a um amigo da adolescência, que por coincidência havia encontrado em Nova Lisboa na altura.

Eis a resposta desse meu amigo:

Ok Jorge aqui vai o que sei, o que recordo e o que ouvi dizer.

O aquartelamento em Nova Lisboa situava-se a 3/4 km a norte
[é a sul, mas ele enganou-se] da cidade e era composto pelo RI salvo erro 10 portanto RI10 e contiguo a este outro que apenas conhecia pela Escola, devia ser qualquer escola militar destinada a formar especialidades dos militares angolanos mas que estava praticamente desativada por recrutamentos internos.

Esta escola serviu aliás para um acontecimento caricato no processo de independência. Quando da tentativa de formar as Forças armadas angolanas fundindo os 3 movimentos, Nova Lisboa foi o palco do juramento de bandeira do 1º batalhão destas ditas forças, compostas por oficiais e praças dos 3 movimentos e ficaram aquarteladas na dita Escola. No dia seguinte a Escola estava vazia de homens e armas pois tinham todos desertado para os seus movimentos originais.

Quanto a mim não estava integrado em nenhum batalhão pois era de rendição individual e pertencia a uma oficina avançada de Transmissões cuja sede era em Luanda o ATMA (Agrupamento de Transmissões Militares de Angola).

O teu batalhão não foi render o que se encontrava no RI10, vocês vieram do Luso inseridos no processo de retirada gradual das FA Portuguesas e ficaram em Nova Lisboa para depois virem para Portugal.

Quanto a nós encontramo-nos também em Nova Lisboa e estivemos no apartamento em que eu vivia 1 ou duas vezes porque eu estava de saída para Luanda e posteriormente para Portugal.

Isto é o que vivi e me lembro. Agora o que ouvi dizer e o que não tenho bem a certeza.

Segundo soava nos meios militares, e tu podes confirmar ou não, é que o comboio que transportava o teu batalhão do Luso tinha sofrido uma emboscada pela Unita e que vocês tinham sido feito reféns sem ter tido tempo de se defenderem. Os vossos pertences e armamento tinha sido confiscado e até deram uma alcunha ao batalhão que era o batalhão do pé descalço. Inclusivamente tenho uma vaga lembrança de quando estivemos no meu apartamento te ter cedido alguma roupa dada a situação acima descrita. Se não foi a ti foi a outro tipo do teu batalhão que eu conheci que era aqui da Piedade e cujo nome não me recordo pois não era da minha malta e só conhecia de vista mas que nessas alturas todos nos conhecemos. Mas isto tu poderás tirar as certezas pois se foi verdade passou-se contigo. Chegou aliás a haver um processo de despromoção do Coronel comandante do teu batalhão numa punição pública na parada do Regimento.

O RI10, isto é um facto, não tinha nenhum batalhão aquartelado. Com a retirada gradual das Forças Portuguesas era um posto de passagem para Portugal e na altura em que eu lá estive tinha apenas uma CCAÇ (companhia de caçadores) que regressaram depois de mim e que era o pessoal com quem eu me dava. No entretanto todos os militares recrutados em Angola (nativos brancos e negros) tinham sido desmobilizados.

Bom por agora é o que me lembro mas se tiveres alguma pergunta concreta apita ok?

Um abraço


E a minha contra-resposta:

Caríssimo,

Fixe! Esta tua resposta às minhas questões ajuda muito na minha rememoriação dos acontecimentos. Embora com algumas coisas que não corresponderam à verdade e que foram transformadas em “lenda”. Mas mesmo essa informação também me é preciosa.

O meu Batalhão foi de facto assaltado pela UNITA, mas não houve reféns nenhuns – pelo menos no tal comboio, onde eu estava. Isto porque houve também uma coluna auto que saíu do Luso com escolta de uma companhia (por acaso a minha, mas onde eu não segui) que também foi atacada pela UNITA em “General Machado”. No comboio fomos assaltados e desarmados, unicamente. Cheguei a Nova Lisboa com todos os meus haveres (que nem eram muitos), apenas sem a G3. Enfim, essa do “pé-descalço” correu pela informação e transformou-se no tal mito, que não correspondeu à verdade – ninguém chegou descalço a N.L.. Sei de alguns soldados, que em pânico entregaram as malas onde traziam as roupas e outros pertences, etc... daí haverem alguns que só chegaram a N.L. com os fardamentos que traziam vestidos. Mas ninguém, que eu saiba, chegou descalço ou em cuecas!!!

Devo dizer e isto é uma coisa que não saiu na imprensa da altura, que aquele comboio tinha 50 vagons, puxados por duas locomotivas. Era uma coisa monstruosa. E nós vinhamos dispersos por toda aquela composição, que englobava dois vagons cheios até cima de armas da polícia do Caminho de Ferro de Benguela e que foi o motivo do ataque da UNITA.

Não houve possibilidades de defesa num comboio com aquela extensão, para mais com cerca de 500 civis em fuga do Luso pelo meio, aquilo foi tudo mal programado – a UNITA tinha sido expulsa do Luso pelo MPLA na véspera da nossa saída e estava desesperada, quase sem armas e munições.

Mas tudo isto vai, evidentemente, constar da minha narrativa, como é óbvio.

Depois, eu não estive no teu apartamento (encontrámo-nos no portão do R.I.21 – descobri anteontem fotos desse portão e recordei-me da situação), mas essa informação que me dás – acerca de forneceres roupas a um tipo do meu Batalhão –, serve-me para complementar algumas coisas de que não tive conhecimento – mais aquilo que me dizes sobre as F.I. – as tais “forças armadas angolanas” que nunca chegaram a existir. E, já agora, não houve nenhum processo de tentativa de despromoção do Tenente-Coronel João Faria Amado. Houve outras coisas, mas não essa. 


Por outro lado correu o boato de que eu tinha morrido durante a viagem de Luanda para o Luso e tu sabias desse boato, não sei como o sabias, mas recordo-me de que falámos disso. Este boato aconteceu porque o camião onde eu devia vir, na viagem de Luanda para o Luso, que trazia, como todos os outros, um bidon de gasóleo de reserva, para cima do qual um soldado atirou uma beata, o bidon explodiu e morreram seis tipos, incluindo o que vinha ao lado do condutor e que deveria ser eu, como furriel do pelotão. Só que, a dada altura, tinha trocado o camião pelo jeep Willis que ia à frente da coluna, com o furriel enfermeiro (que era fotógrafo profissional) para irmos fazendo fotografias “turísticas” pelo caminho... Daí que tenha escapado. 

Já agora, só por piada, também fui dado como morto em 1997 (depois do divórcio), numa situação imbecil de um “amigo” que resolveu espalhar um boato cretino e muitos amigos meus acreditaram nisso, até eu lhes aparecer (passaram a chamar-me "o ressuscitado"). Portanto, fui dado como morto duas vezes já. Penso que à terceira – e se for só boato – acho que devo ganhar a eternidade, eh, eh...

Bem, falando sério, já consegui encontrar referências aos quartéis de Nova Lisboa – o RI 10 de que falas era o R.I.21 – Regimento de Infantaria 21! Em frente do 
R.I.21 ficava o I.I.V.A. – Instituto de Investigação Veterinária de Angola. Depois o quartel da tal “escola”, era a Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA), que foi onde nós ficámos e tinha o lago artificial ao lado a que chamavam "lago dos Recrutas".

Portanto isto está a compor-se. Estou à espera que o Arquivo Geral do Exército me envie a lista do pessoal do meu batalhão (lista que já paguei) para tentar entrar em contacto com alguém via internet.

Se me lembrar de mais alguma coisa, podes crer que te escrevo.

Obrigado pela tua resposta e um grande abraço,


OS MAPAS
ONDE FICAVAM OS QUARTÉIS DE NOVA LISBOA



Vista aérea parcial actual da Escola de Aplicação Militar de Angola (Google Maps ampliado), onde ficou o BART 6221/74

FOTOS

Vista aérea actual da E.A.M.A.

Vista aérea actual do R.I.21 (Já semi-restaurado) e da E.A.M.A.

Vistas da E.A.M.A. nos anos sessenta...

Vistas actuais do edifício principal da E.A.M.A

Vistas do portão do R.I.21 nos anos sessenta...

Vista actual do mesmo portão, depois de ser restaurado nos anos noventa.

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A SEGUIR
DE ONDE VEIO O BOATO 
DO "BATALHÃO PÉ-DESCALÇO"?

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