BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 7) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (2) – A ENTRADA DOS PORTUGUESES NO NDONGO – O INÍCIO DO “NEGÓCIO” DOS ESCRAVOS



OS “REINOS” PRIMITIVOS (2)
A ENTRADA DOS PORTUGUESES 
NO NDONGO
O INÍCIO DO “NEGÓCIO” DOS ESCRAVOS

Se o “Reino” do Kôngo foi criado por populações Kikongo, os potentados a Sul do Kôngo e vassalos deste – entre os Rios Dande e Kuanza – eram de etnia Mbundo (Kimbundo, ou Ambundo). Ocupavam um território entre os dois Rios atrás mencionados e estendiam-se do Atlântico até ao Rio Kuango, divididos entre os “Reinos” do Ndongo, Kissama e Matamba. O “Rei” do potentado de Ndongo era designado pelo título de Ngola (que daria origem à palavra “Angola”).

Avanço do Ngola do Ndongo na guerra contra o Kôngo (c. 1560) e entrada na Matamba...

Em 1518 o Ngola do Ndongo enviou uma embaixada a Portugal pedindo missionários e, indirectamente, o reconhecimento da sua independência face ao Kôngo. Uma missão portuguesa chegou ao Ndongo em 1520 mas disputas locais e talvez a pressão do Kôngo forçou os missionários a abandonar o Ndongo. Afonso I (Mvemba-a-Nzinga) do Kôngo levou os missionários para Mbanza Kôngo e deixou o seu próprio padre no Ndongo.

Por volta de 1556, o Ngola do Ndongo enviou outra missão a Portugal procurando ajuda militar e oferecendo-se para ser cristianizado, mesmo apesar dos oficiais portugueses da altura terem duvidado da sua sinceridade religiosa. Em 1901, E. G. Ravenstein afirmou que esta missão foi o resultado de uma guerra entre o Kôngo e o Ndongo, na qual o Ndongo saiu vencedor e afirmou a sua independência. O mesmo disse Jan Vansina em 1966 (e a partir daqui vários outros escritores), porém isto parece ter sido uma incompreensão das fontes originais. O Ndongo poderá ter realmente visto a missão como uma espécie de declaração de independência, já que a resposta do Kôngo à missão de 1518 sugere que ainda mantinha poder suficiente para prevenir movimentos independentistas.

De qualquer forma, a segunda missão portuguesa, liderada por Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias, atracou na foz do rio Kwanza em 1560, juntamente com vários padres jesuítas, incluindo o notável Francisco de Gouveia. A missão de Dias de Novais falhou igualmente, tendo ele voltado a Portugal em 1564, deixando o padre jesuíta Francisco Gouveia no território.

Contudo, antes de falarmos de Paulo Dias de Novais, que mais tarde, voltaria ao Ndongo para fundar a primeira feitoria portuguesa no território (a cidade de Luanda), será necessário – para percebermos o contexto – evocar os acontecimentos no outro lado do Atlântico, no Brasil, e a questão da escravatura e do comércio da mesma, que os portugueses já praticavam nas sua feitorias da Guiné (Arguim) e no Golfo da Guiné (São Jorge da Mina).

Apesar da escravatura ser tão antiga como a espécie humana – desde que grupos humanos entraram em guerras uns com os outros e fazendo dos vencidos seus escravos –, não vamos recuar tanto na sua análise, senão nunca mais sairíamos daqui. Falemos apenas do que ocorreu no Brasil e o que deu origem ao tráfico “negreiro” com Angola.

No que viria a ser o Brasil, a escravatura já era praticada pelos índios, na sua forma mais primitiva, muito antes da chegada dos europeus. Entre os tupinambás, que eram antropófagos, a maioria dos escravos eram capturados nas tribos inimigas e acabavam por ser devorados. Porém, entre a captura e a execução, eles poderiam viver como escravos durante anos. Entre os tupinambás a escravidão não tinha nenhum valor económico. Os cativos apenas serviam para serem exibidos como troféus de valor militar e honra ou como carne a ser devorada em rituais canibalescos que poderiam acontecer até mesmo ao fim de quinze anos após a captura. Os escravos eram incorporados na comunidade, sendo que algumas escravas se casavam com os homens da tribo. Porém, os cativos reconheciam-se como escravos e como homens derrotados e o sentimento de degradação entre eles era muito forte.

A instituição da escravatura europeia no Brasil toma forma com a grande propriedade da monocultura, na década de 1530. Portugal contava com pouco mais de 2 milhões de habitantes na época e mal podia arcar com a perda de mão de obra para as expedições para o Oriente, que viviam o seu auge. E, assim como para qualquer outro colono europeu, não era interessante para o português migrar para os trópicos para ser um simples trabalhador do campo. "A escravidão tornou-se, assim, uma necessidade: o problema e a solução foram idênticos em todas as colónias tropicais e mesmo subtropicais no continente americano.” 


A primeira forma de escravidão no Brasil foi dos gentios da terra ou negros da terra, os índios, especialmente na Capitania de São Paulo onde os seus moradores pobres não tinham condições de adquirir escravos africanos, nos primeiros dois séculos de colonização. A escravização de índios foi mais tarde proibida pelo Marquês de Pombal. Eram considerados pouco aptos para o trabalho.

É interessante verificar que os portugueses tratavam os africanos abaixo do Sahara por “pretos”, mas quando os transformavam em escravos passavam a ser “negros”, tal como os escravos índios, aliás, que eram os “negros da terra” – portanto a palavra “negro” era sinónimo de “escravo”.

No Brasil, a escravatura africana teve início com a produção canavieira (cana do açucar) na primeira metade do século XVI como tentativa de solução à "falta de braços para a lavoura", como se dizia então. Os portos principais de desembarque de escravos eram no Rio de Janeiro, na Bahia Negros da Guiné, no Recife e em São Luís do Maranhão.


Os portugueses, brasileiros e mais tarde os holandeses traziam os negros africanos das suas feitorias em África para os utilizar como mão-de-obra escrava nos engenhos de rapadura do Nordeste. Os comerciantes de escravos vendiam os africanos como se fossem mercadorias, as quais adquiriam de tribos africanas que haviam feito prisioneiros de guerra. Os mais saudáveis chegavam a valer o dobro dos mais fracos ou velhos. Eram mais valorizados, para os trabalhos na agricultura, os negros Bantu (ou Benguela ou do Kôngo), provenientes especialmente de Angola e Moçambique, e tinham menos valor do que os que vinham do centro oeste da África, os negros Mina ou da Guiné, que receberam este nome por serem embarcados no porto de São Jorge de Mina, na atual cidade de Elmina, e eram mais aptos para a mineração, trabalho no qual já se dedicavam na África Ocidental. Por ser a Bahia mais próxima da Costa da Guiné (África Ocidental) do que de Angola, a maioria dos negros baianos são designados “Minas”...

Fortaleza da feitoria de São Jorge da Mina na actualidade (Elmina)

Rotas do tráfico negreiro de África para o Brasil...

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 6) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (2) – GRUPOS ÉTNICOS EM ANGOLA

OS GRUPOS ÉTNICOS EM ANGOLA 

Como já dissemos anteriormente, os povos Bantu deslocaram-se para o Sul de África em três fases, sendo que não o fizeram em massa. Formaram-se vários grupos que se deslocavam, durante séculos – ao longo dos primeiros mil anos da era de Cristo – e deambularam por vastas regiões da África sub-shariana até se fixarem. Desse modo entraram no território que é hoje Angola em várias fases e não todos pelas mesmas regiões: uns pelo Norte, outros pelo Leste e outros pelo Sudeste. Claro que os grupos dos bantu que se foram formando ao longo destas viagens, foram modificando as suas formas de falar (separados como estavam uns dos outros), até ficarem com diversos dialectos diferentes entre si. Daí que os grupos que entraram no actual território angolano se diversificaram em basicamente nove grupos diferentes, como se pode ver no mapa abaixo:

Mapa da distribuição das etnias de Angola. O grupo Khoisan, disperso pelo Sul é o único não bantu e representa os anteriores ocupantes do território antes da chegada dos bantu.

Assim, o “Reino” do Kongo era composto por Bakongos – que falavam a língua Kikongo – sendo que os outros “reinos” primitivos eram originários de diferentes etnias (apesar de todas com o mesmo substrato comum banto). Os “reinos” de que falaremos a seguir, Ngongo e Matamba, são de etnia Mbundu e cujo território veio a ser a origem da colónia portuguesa de Angola.

Interessante mapa (encontrado na internet) que mostra os territórios de Angola livres do domínio português até ao século XIX:


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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 5) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (1) – O “REINO” DO KÔNGO



PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 5)
OS “REINOS” PRIMITIVOS (1)
O “REINO” DO KÔNGO

Como vimos no texto anterior aqui publicado, quando Diogo Cão atingiu a foz do rio Zaire, encontrou o potentado de que o rei D.João II já tinha notícia: o senhorio do Kôngo, a que chamou “Reino”, à falta de melhor designação. Contudo o senhor do Kôngo não era, como também já vimos atrás, um “Rei” – na tradição das línguas indoeuropeias – mas apenas uma espécie de “monarca feudal” arcaico, se quisermos fazer uma ténue comparação com a civilização europeia.

O território do senhorio do Mâni Kôngo (como era designado o Senhor do Kôngo localmente) teria sido ocupado durante o primeiro milénio D.C. pelos Bantu, na sua longa marcha pela África subsahariana, desde a foz do Níger – pressionados pela pressão dos povos saharaui, devido à desertificação do Sahara. Devemos referir que os bantu, apesar de serem portadores das técnicas do ferro e da cerâmica, nunca desenvolveram nada parecido com a escrita, pelo que, aquilo que se deduz da sua história, seja baseado nas tradições orais e na arqueologia. Na bacia do Zaire encontraram territórios muito propícios à agricultura e parte deles fixaram-se aí, desde o Séc. XIII, dando origem aos potentados/senhorios conhecidos na História daquela zona.

Mapa do Séc. XVIII ou início do XIX (?) de origem francesa, que assinala os diversos "reinos"

O Kôngo tinha a sua capital em Mbanza Kôngo (na época da colonização rebatizada como São Salvador do Congo) e irradiava o seu poder desde o Cabo Lopez – antigo Cabo de Sta. Catarina (no actual Gabão) –, a Norte, até ao Rio Kuanza, a Sul e desde o Atlântico ao Rio Kwenge a leste. O Senhorio do Kôngo dominava vários outros Senhorios subsidiários (que na óptica europeia, prestavam vassalagem ao Mâni Kôngo): o Nsi Ya Luangu, o Kakongo, e o N’Goyo (o território actual de Cabinda engloba partes destes antigos três senhorios), a Norte do Zaire e N´Soyo, Ndongo, Matamba, Kassange e Kissama, mais ou menos até às margens do Rio Kuanza – como se pode ver no mapa abaixo:


Como vimos também nos textos anteriores, Diogo Cão levou quatro nativos para Portugal, aquando do regresso da sua primeira viagem em 1483. Estes nativos retornaram ao Kôngo nas caravelas de Gonçalo de Sousa em 1490 – já falavam português – e eram acompanhados de sacerdotes católicos para a evangelização do Mâni Kôngo e seus subditos.

Entre aspas, citamos excertos de “O Reino do Congo” de Arlindo Correia:

“(...) Chegado Gonçalo de Sousa a Mpinda [capital do N’Soyo], baptizou-se em 3 de Abril de 1491 o Mâni-Soyo, que tomou o nome de Manuel e o seu filho que se chamou António. Tal só foi possível porque o Mâni-Soyo era tio e mais velho que o Mâni-Congo. Partiram então para a capital, mais tarde chamada S. Salvador e ali foi baptizado em 3 de Maio de 1491 o Mâni-Congo, que tomou o nome de João e sua esposa, que tomou o nome de Leonor, tal como o Rei e Rainha de Portugal. Pouco tempo depois, foi baptizado com o nome de Afonso o Mâni-Nsundi, filho do rei que tinha o nome gentílico Mvemba-a-Nzinga (...)”

Depois do baptismo, o Mâni Kôngo (Nzinga-a-Nkuwu, como João I) adoptou mesmo o título de Rei, à maneira europeia.

Representação do Mâni Kôngo Nzinga-a-Nkuwu (D. João I depois do baptismo)

Brasão de armas atribuído ao Mâni Kôngo


“(...) O rei possuía a ilha de Luanda e cabia-lhe o monopólio da recolha dos búzios do mar, chamados nzimbos ou cauris, que serviam de moeda no reino. É difícil calcular a população desta área, mas alguns estudiosos estimam-na em cerca de dois milhões, deixando de lado o cálculo por baixo de 532.000, avançado por John Thornton.

O solo do Congo é fértil devido às chuvas abundantes. O clima era doentio, e mortífero para os europeus que lá residissem. As condições de habitabilidade eram muito rudimentares, a água estava contaminada e proliferavam as mais diversas doenças, com destaque para o paludismo.

As principais riquezas exportáveis eram na altura o marfim e o cobre. As armadilhas para os elefantes eram enormes buracos, disfarçados com ramos de árvores, onde eles caíam e já não conseguiam sair. A exploração do cobre era feita à superfície.

Na monarquia congolesa, o herdeiro do trono não era determinado pela linha directa, mas sim pela colateral. O sucessor seria o filho mais velho da irmã do falecido rei. Mas esta regra era afastada tantas vezes que se pode considerar que o novo rei era eleito entre os membros do kanda, isto é, do clã real.

Entre os conselheiros do rei, sobressaía o Mani Vunda, com funções específicas de conselheiro político (...)”

“(...) Uma outra consequência da chegada dos portugueses, foi que os chefes das províncias passaram a designar-se por duques, condes e marqueses, tal como em Portugal e todos os fidalgos baptizados passaram a ter o tratamento de Dom. Os nobres adoptaram brasões. Foi criada uma Ordem de Cristo do Congo e a coroação do Rei passou a ter de ser presidida por um sacerdote.

Ruínas da antiga catedral de Mbanza Congo - arqueólogos portugueses estão a participar nas escavações actualmente levadas a cabo nesta cidade para recuperação do património histórico...

Reza a história que o rei do Congo, D. João I, passados uns anos, se aborreceu da religião católica e começou a favorecer o seu filho Mpanza-a-Kitima, que não se quisera baptizar. O Rei faleceu por volta de 1509 e este filho apresentou-se como sucessor. Mas a rainha D. Leonor mandou chamar o seu filho Afonso de Nsundi. Este reuniu um pequeno exército, afrontou e derrotou o seu irmão, invocando o nome de Jesus e do Apóstolo São Tiago, tornando-se rei (...)”

Mais tarde, a partir de 1576, com a fundação da cidade de São Paulo da Assunção de Loanda, a actual cidade de Luanda, por Paulo Dias de Novais, inicia-se o comércio de escravos com destino ao Brasil e, a partir daí, as coisas começam a descambar entre a monarquia portuguesa e o “reino” do Kôngo” e mesmo em lutas entre clãs no interior deste...

Para não tornar este post demasiado longo, os interessados podem consultar “O Reino do Congo” de Arlindo Correia, que pode ser lido na integra aqui: http://arlindo-correia.com/100807.html

Deixo aqui a listagem dos “Reis” do Kôngo, segundo uma lista mais ou menos oficial:

Rei Nzinga-a-Nkuwu, João I (1509)
Rei Mvemba-a-Nzinga, Afonso I (1509-1540)
Rei Nkanga-a-Mvemba, Pedro I (1540-1544)
Rei Mpudi-a-Nzinga Mvemba, Francisco I, (1544-1546)
Rei Nkumbi Mpudi a Nzinga, Diogo I (1546-1561)
Rei Mvemba-a-Nzinga, Afonso II (1561)
Rei Mvemba- a-Nzinga, Bernardo I (1561-1567)
Rei Mpudi-a-Mvemba Nzinga, Henrique I (1567-1568)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro I (1568-1574)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro II (1574-1614)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Bernardo II (+1615)
Rei Mbika-a-Mpangu Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro III (1615-1622)
Rei Nkanga-a-Mvika lua Ntumba-a-Mvemba, Pedro II Afonso (1622-1624)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Garcia I (1624-1626)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Ambrósio I (1626-1631)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro IV (1631-1636)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro V (1636-1638)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro VI (1638-1641)
Rei Nkanga-a-Lukeni, Garcia II (1641-1661)

Durante o período das lutas pelo poder

Em M'Banza Kongo (São Salvador do Congo)

Rei Vita-a-Nkanga, António I (1661-1665)
Rei Mpangu-a-Nsundi, Álvaro VII, (1666-1667)
Rei Álvaro VIII (1667-1669)
Rei Rafael I (1669-1675)
Rei Mpangu-a-Miyala, Daniel I (1678-1680)
Rei Nsaku-a-Mvemba, Pedro IV (1694-1710)
Rei Mpangu, Pedro Constantino (+1710)

Em Ki-Mpangu

Rei Afonso III (1667-1669)
Rei Nkanga-a-Mvemba, Garcia III (1669-1678)
Rei Nlaza, André I (+1679)
Rei Nimi-a-Mvemba, Álvaro IX (+1680)
Rei Nzinga, Manuel I (+1680)
Rei Nsaku-a-Mvemba, Pedro IV (1694-1710)

Em Mbula

Rei Nsuku-a-Ntamba, Pedro III (1667-1679)
Rei Nsuku-a-Ntamba, João II (1679-1710)

Depois de 1718, o reino do Kôngo desmoronou-se por completo, devido sobretudo à série de guerras fraticidas (e contra os portugueses por causa do comércio esclavagista), acabando por se dividir em diversos pequenos senhorios, embora ainda tivessem existido “Reis” do Kôngo nominais (sem qualquer poder) até 1957.

Foto – o Rei do Congo D. António III (falecido em 1957) e família.

Fontes consultadas:

O Reino do Congo (on line: http://arlindo-correia.com/100807.html), de Arlindo Correia
As Origens do Reino do Kôngo, de Patrício Batsîkama
O Reino do Congo, de Chantal Luis Silva
Angola, Trilhos para o Desenvolvimento, de Filipe Zau

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

BOAS FESTAS PARA TODOS OS ANITGOS CAMARADAS

BOAS FESTAS !!!!

Símbolo romano do Sol Invictus

Na boa e antiquíssima tradição mediterrânica (diria mesmo que europeia), celebro o solstício de inverno, antecedente da celebração do Natal Cristão.

O Dies Natalis Solis Invicti (dia de aniversário do sol invicto – e o dia mais pequeno do ano) ocorre por volta de 21 de Dezembro – o solstício de inverno – a partir do qual os dias recomeçam a ficar maiores. Celebrava-se então a vitória da luz contra as trevas!!

Daí a tal antiquíssima tradição do "renascimento do Sol", que os cristãos adoptaram como "aniversário do nascimento de Cristo" (Dies Christi Natalis ou Natalis Domini) estabelecendo-o a 25 de Dezembro – para não parecer muito "colado" ao culto do Sol latino-mediterrânico.

Como sou ateu, prefiro celebrar o Sol Invictus – sem margem para dúvidas! E sem "bolas", nem pinheiros, nem presépios, etc... Mas para todos os meus antigos camaradas de tropa – eventualmente católicos – deixo aqui um desejo de que tenham umas BOAS FESTAS e um GRANDE ANO DE 2015!!!

 UM BOM
DIES NATALIS SOLIS INVICTI 
PARA TODOS OS MEUS ANTIGOS CAMARADAS 

E LEITORES DESTE BLOGUE!!!


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domingo, 23 de novembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 4) – AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (2) – O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

Caravelas
Quando falamos de caravelas, estamos a falar de um pequeno barco com duas velas latinas (de difícil manobra) com cerca de 20 metros de comprimento e 6 metros de largo – para comparar digamos que os pequenos cacilheiros que actualmente fazem a ligação Cacilhas/Lisboa têm quase 30 metros de comprimento e 7 metros de largo – e não se aventuram em mar alto.
A vida a bordo das caravelas era de uma dureza atroz. Os homens viviam num ambiente constantemente molhado. A alimentação era à base de biscoitos, peixe seco ou salgado, toucinho salgado, azeite, vinagre, vinho e água.
O leme era de difícil manejo e exigia muita concentração. Os homens dormiam onde podiam. 
Eram homens duros e determinados – e o mar não era (não é) coisa com que se brincasse.

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 4)
 AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (2)
O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

A segunda viagem de Diogo Cão na descoberta da costa de África, que se previa “até encontrar passagem para o Índico” – o que não aconteceu, como sabemos – é muito mais difícil de datar, devido aos ainda mais escassos elementos que sobreviveram. Vejamos então uma síntese do que é possível apurar:

Não há dúvida de que D. João II esperava que Diogo Cão alcançasse pelo menos os reinos periféricos do Prestes João (o mítico rei da Etiópia) ou mesmo o oceano Índico, pois um tal percurso tornava desnecessárias mais expedições ao longo da costa. D.João II enviou também, nesta segunda viagem, para o “rei” do Kongo (que na altura era Nzinga-a-Kuvu), uma embaixada com ricas prendas, ofertas de amizade, acompanhando também de recomendações para renegar aos ídolos, feitiçarias e abraçar a religião cristã.

Encarregado de empreender uma segunda expedição, Diogo Cão partiu na segunda metade de 1485 (eventualmente em Agosto).

Chegando ao estuário do Zaire, as caravelas aportaram a M’Pinda, a 10 Km da ponta do Padrão, residência do Manisoyo – o senhor do Soyo (nos relatos da viagem anterior refere-se uma “rainha”) – devolvendo os reféns embarcados na primeira viagem. Tendo-se apercebido que os emissários enviados ao “rei” do Kongo na viagem anterior, ainda não se encontravam em M’Pinda, e também de suspeitar que pelo rio Zaire poderia ter acesso mais rápido ao Índico, já que na exploração anterior não fora além das imediações de Nóqui, Diogo Cão decide zarpar rio acima. Procurou explorar o Rio Zaire, na esperança que pudesse vir a ser a extremidade meridional do canal que, segundo a mapa de Fra Mauro, separava a África Austral da massa do continente e desembocava no Índico perto de Quilóa.

Mapa de Fra Mauro (1459)

A expedição progrediu até às cataratas de Yellala (que impediam a progressão das caravelas), situadas a 170 Km do mar, onde os marinheiros gravaram várias inscrições nas rochas – incluindo os nomes –, deixando assim para a posteridade um precioso registo.

As famosas inscrições de Yellala

Vendo que não era possível progredir através do rio Zaire, Diogo Cão resolveu que a exploração teria de continuar por via marítima. Avançou então para a latitude (cerca de 15º Sul) da Baía de Moçâmedes – onde havia terminado a viagem anterior, navegando depois para além desta e verificando, com desilusão, que o continente se estendia para Sul, aparentemente sem fim.

Atingindo o Cabo Negro, na latitude 15º 42’ S, Diogo Cão ergueu outro padrão. E logo a seguir ancorou numa baía, hoje Porto Alexandre, a que deu o nome de “Angra das Aldeias”, devido à existência de duas povoações. Também entrou depois na “manga das areias”, hoje Baía dos Tigres.


Já depois da foz do rio Cunene (actual fronteira Sul de Angola – 17º de Latitude Sul) e navegando ao longo de uma costa desértica (Actual Namíbia), alcançou a latitude 21º 47’ S, onde ergueu outro padrão, o mais meridional de todos, num lugar a que hoje se chama Cape Cross (Cabo da Cruz, ou do Padrão da Serra) na actual Costa dos Esqueletos. Depois, ainda percorreram mais 50Km de costa para Sul do Cabo do Padrão da Serra, até à ponta dos Farilhões, a Hentiestbaai de hoje e foi aí que a expedição terminou.

Réplica do Padrão de Cape Cross (cujo original se encontra em Berlim) e inscrição em inglês, de 1986, assinalando os 500 anos da viagem de Diogo Cão...

O termo exacto da viagem, deve-se a uma legenda de um mapa de 1489 de Martellus, cujo texto sugere que Diogo Cão aí terá morrido. Se assim aconteceu, poderá ter sido essa a razão porque os navios não avançaram mais para sul ?

Não se sabe nada do que se passou naquela Ponta dos Farilhões que determinasse o fim da expedição. Rui de Pina, cronista-mor do Reino acrescentou na sua Crónica de D.João II, que o “rei” do Congo, pediu que D.João II lhes mandasse padres para instruir o seu povo, desejava ter pedreiros que construíssem igrejas e casas, de modo que, neste e noutros aspectos, o seu “reino” fosse semelhante ao de Portugal, todos eles foram recebidos pelo rei de Portugal D. João II, em Janeiro de 1489.

É importante sublinhar a data [Janeiro de 1489] da embaixada congolesa, que não podia ter vindo nos navios da expedição de Diogo Cão. Como foi possível ser recebida por D.João II dois anos depois, se os sobreviventes da 2ª viagem de Diogo Cão regressaram ao reino, antes de Agosto de 1487? Uma vez que foi nesta data que se deu a partida de Bartolomeu Dias para a expedição que, finalmente dobraria o Sul da África atingindo o Índico. Acontece que João de Santiago foi o piloto escolhido por Bartolomeu Dias para pilotar a naveta de mantimentos da sua frota constituída por mais duas caravelas. O nome de "João Santiago" está gravado nas Pedras de Yellala para a posteridade. Portanto este marinheiro fez parte da 2ª viagem de exploração de Diogo Cão.

O que acaba por parecer mais correcto é que, depois de regressar da descoberta do Cabo de Boa Esperança e aberto o caminho marítimo para a Índia, Bartolomeu Dias terá feito escala na foz do rio Zaire, em M’Pinda, onde embarcou em Outubro de 1488 os tais embaixadores do “reino” do Congo para Portugal.

E nunca mais se soube nada sobre Diogo Cão!

A trapalhada documental que se seguiu, depois desta 2ª expedição, sobre o que aconteceu ao seu comandante, resultou, em parte, das afirmações do cronista João de Barros nas “Décadas da Ásia”. Decorridos 30 anos após os acontecimentos em que o cronista afirma:

“O navegador, Diogo Cão regressou ao reino e dele nunca mais houve notícia”.

Mas, se voltou ao reino, onde se encontra o seu túmulo? Ou D. João II, fez desaparecer todas as menções do navegador, por causa da hipotética errada informação sobre a proximidade do “fim do continente africano”? Mas não existem quaisquer provas que corroborem esse procedimento, por parte do monarca português.

A historiadora Therese Schedel – autora do livro “O Mosteiro e a Coroa“, sobre o mistério que rodeia o desaparecimento de Diogo Cão, refere numa entrevista:

«..a não existência de um roteiro da segunda viagem de Diogo Cão tem sido um mistério apaixonante... O navegador desapareceu durante a sua segunda viagem ou não?».

«...Os tripulantes que regressaram a Portugal [João de Santiago?] contaram que Diogo Cão se tinha embrenhado terra adentro e nunca mais aparecera... Muito possivelmente, talvez tivesse sido devorado por um tigre, quem sabe [mas sabemos hoje que nunca existiram tigres em África...] “. Contudo sobre esta Costa diz-se que “Também por ali aparecem leões, vêm do semi-árido, caminhando lentamente pelo leito dos rios até chegar à costa. E, como a vida animal não é tão abundante como a da savana, adaptaram-se ao cardápio disponível. Acabaram por descobrir uma nova fonte de alimento nas focas e nas baleias encalhadas, ocupando as praias da costa dos Esqueletos. Refeições que compartilham com hienas e chacais, ali em Cape Cross os leões vão à praia. Defendida por um mar turbulento que atira qualquer barco contra a costa, tem sido ao longo dos séculos cenário de vários naufrágios, que hoje são recordados pelos muitos restos de navios que surgem presos nas armadilhas da areia da praia. É a presença destes destroços que dá origem ao nome desta longa linha de areia que se estende até Angola, a Costa dos Esqueletos”.

Será que Diogo Cão se suicidou por lhe parecer que não conseguiria encontrar a passagem para o Oceano Índico? Ou regressou e foi ostracizado pelo rei, embora esta hipótese, muito divulgada pelos historiadores, nos pareça inverosímil, dado que não havia nenhum obstáculo (a não ser talvez os ventos contrários) para que a expedição avançasse para além daquela latitude...
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Terminada esta fase do Descobrimento da costa marítima de “Angola”, vamos, nos “próximos Capítulos” falar sobre o interland do território, sobre aquilo a que se chamam OS “REINOS” PRIMITIVOS DE "ANGOLA", que os portugueses encontraram quando lá chegaram.

Mapa do século XVIII com os "reinos" de "Angola"

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 3) – AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (1) – O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

Réplica do padrão de S.Jorge na Ponta do Padrão - Rio Zaire

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 3)
 AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (1)
O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

No título deste texto, escrevemos “Angola” – assim mesmo, entre aspas. Isto porque quando o navegador português Diogo Cão chegou ao território, Angola não existia. Nem sequer havia ainda o “senhorio” (Ngola Ndongo) que daria o nome actual ao país que agora conhecemos por essa designação.

Mas vamos por partes.

Evidentemente que, quando falamos em descobrimentos, estamos a adoptar o ponto de vista europeu: os europeus (portugueses neste caso) descobriram a “costa sul da África”, por exemplo. Mas o inverso não será falacioso, uma vez que os africanos também foram levados a “descobrir” os europeus – evidentemente por iniciativa dos primeiros... Contudo as coisas podem sempre ser colocadas sob os dois pontos de vista: se os europeus descobriram os africanos, estes foram levados a descobrir os europeus. Existe pois, um descobrimento reciproco, que terá sido eventualmente de perplexidade para ambas as partes: quem são estes tipos?

Como dissemos atrás, o navegador Diogo Cão foi enviado pelo rei D.João II (em 1482) a descobrir a costa ocidental africana. O problema é que não se conhecem nem as datas precisas das viagens nem quantas viagens este navegador realizou. Tudo isto devido à política secretista (confidencial, dir-se-ia actualmente) do rei, para ocultar os progressos da navegação portuguesa, dos vizinhos castelhano-aragoneses, italianos e mesmo franceses. Por causa dessa política não existem referências escritas ao que se passou neste reinado sobre essa matéria, senão por meia dúzia de apontamentos, em crónicas que nada têm a ver com essas viagens. E só por meio destes apontamentos cronísticos (ou mesmo outros) consegue entender-se alguma cronologia sobre o tema, ainda que não muito precisa. Digamos até que a própria viagem de Bartolomeu Dias na viragem do Cabo da Boa Esperança, só ficou a conhecer-se por um apontamento manuscrito de Cristovão Colón nas margens de um dos seus livros de leitura.

É de realçar que no estado actual das investigações, se presuma mesmo que, no final da primeira viagem do “descobrimento de Angola”, em 1483, Diogo Cão tivesse regressado ao reino, mas viajando para oeste propositadamente, descobrindo nessa rota a ilha da Ascensão e atingindo até o Cabo de S. Jorge na costa do Brasil !!! Este cabo, actual Cabo de Sto Agostinho, foi onde a armada de Pedro Álvares Cabral chegou quando “descobriu” o Brasil. E porque chegaria precisamente a este Cabo?

Isto tudo leva-nos a pensar muito a sério no porquê da insistência de D.João II na delimitação do meridiano “de Tordesilhas” a 380 léguas de Cabo Verde – nem 300 nem 400, mas exactamente 380. Porquê um número tão preciso?

O mestre de uma das naus de Cabral, aquando do “descobrimento” oficial do Brasil, conhecido por mestre João, refere ao rei D. Manuel que, quanto “ao sítio desta terra (o Brasil), mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pêro Vaz Bizagudo de Lisboa, e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada, sendo um mapa antigo onde está escrita também a Mina.” Duarte Pacheco Pereira escreveria igualmente no seu Esmeraldo de Situ Orbis, dedicado a D. Manuel I, que em 1486 explorou a costa do Brasil...

Mas, perguntarão os meus amigos: o que tem o Brasil a ver com Angola? Tem! E muito. É que está estimado em cerca de 4.000.000 (sim 4 milhões), o número de escravos levados de Angola para o Brasil entre o século XVI e o XIX... Chega para relacionar as duas regiões?

Mas passemos então à Cronologia das Viagens de Diogo Cão na costa de Angola:

Em 1 de Janeiro de 1841, Diogo Cão (ou Caão) depois de viajar de S.Jorge da Mina pelo litoral do Golfo da Guiné, até ao Cabo de Sta. Catarina (actual Gabão), viaja a partir deste Cabo, de regresso a Portugal, mas em “volta de largo” pelo Golfo e descobre a ilha de Ano Bom (1 de Janeiro de 1481) a sudoeste da ilha do Príncipe.

Em nova viagem, Diogo Cão, saindo de Lisboa em 1482, provavelmente no mês de Agosto, e depois de reconhecer toda a costa desde o Cabo de Sta. Catarina, atinge o Rio Zaire (23 de Abril de 1483, dia de São Jorge) e implanta um Padrão de pedra, a que deu o nome de “S.Jorge”, na margem esquerda da foz desse rio – a que chamou Rio Poderoso –, que ficou conhecida como “Ponta do Padrão”. Foi o início do uso destes padrões em pedra calcária, para assinalar as terras a que chegavam os navegadores – anteriormente eram usadas cruzes de madeira.

Do Cabo de Sta. Catarina à foz do Rio Zaire...

Revelando que o rei D. João II já tinha informações sobre o que os navegadores poderiam encontrar no interior aficano, depois do Cabo de Sta. Catarina, Diogo Cão tinha instruções para enviar presentes ao “rei” de um potentado que existiria naquelas paragens, percebeu-se depois que seria o “reino” do Congo (ou mais correctamente Kôngo). Na verdade não se podem referir como “reis” os senhores destes “estados”, eles não tinham as prerrogativas que o termo – nas línguas e conceitos indoeuropeus – atribuem aos reis. Eram os chefes supremos de uma comunidade meio-feudal (no sentido arcaico do termo) de diversos outros chefes com menor poder. Mas foi assim que os portugueses os trataram sempre: “reis” e “reinos” os seus senhorios.

Segundo consta, Diogo Cão, em “conversa” com pescadores do rio, da qual não conseguimos descortinar como se entenderam (mas essa é a versão oficial) – para sermos claros nesta questão, não se consegue perceber como é que os portugueses chegaram à fala com pescadores kikongo, fazerem-se entender e conseguirem eles próprios entendê-los. Mas enfim... Conseguiu até contactar a “rainha” do Soyo (estado/senhorio da zona Sul da foz do Zaire, dependente do Kongo) e, de seguida enviou os tais presentes, por dois emissários ao “rei” do Kongo e largou para Sul, talvez no início de Julho de 1483. 

Foz do Rio Zaire

A "Ponta do Padrão"


Em 22 de Julho chegou à foz do rio Loge, a que chamou “Rio da Madalena”.

– 10 de Agosto, atingiu Benguela a Velha, actual Porto Amboim.

– A 28 de Agosto de 1483 atingiu o Cabo de Sta. Maria (actual Cabo do Lobo) onde mandou erguer o padrão de Stº. Agostinho, seguida de celebração de missa.

– Avançando mais quase 100 Km para Sul, a expedição terminou devido ao espesso nevoeiro, que não permitia a navegação de reconhecimento.


Padrão de Sto. Agostinho, na Sociedade Geográfica de Lisboa

Regressou à foz do Zaire, onde esperou encontrar os emissários enviados ao “rei” do Kongo. Não os encontrando, aprisionaram alguns nativos e iniciaram a viagem de regresso, em Novembro de 1483. Viagem para Portugal ou... para oeste até descobrir o Brasil?

Acrescentemos só que a chegada a Portugal se deu em Março/Abril de 1484.

NOTA: As fotos de satélite com os percursos desenhados e os mapas constantes neste post, foram colhidos do site:

A SEGUIR – A 2ª VIAGEM DE DIOGO CÃO

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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 2)

PREÂMBULO
PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA 
(PARTE 2)


Quando o rei D.João II de Portugal tomou conta das viagens de descoberta oceânica, em 1474, retornando assim essas viagens à responsabilidade do Estado, depois da “gerência” de um comerciante “privado”, Fernão Gomes – a seguir à morte do Infante D. Henrique, em 1460 –, já a costa do Golfo da Guiné tinha sido explorada até ao Cabo Lopo Gonçalves (nome do descobridor e actual Cabo Lopez, no Gabão), a sul do Equador, no ano anterior. D.João II adoptou uma filosofia diferente na política de gestão dos descobrimentos, dando alguma precedência aos contactos com as populações dos territórios abordados/descobertos pelos navegadores portugueses, que até aí não conheciam quase nada do que se passava no “interland” das costas marítimas que abordavam. Claro que esses contactos tinham em vista encontrar a proveniência do ouro que chegava às cidades do Mediterrâneo, por meio dos berbéres e que, desde o Infante D. Henrique era o mote daquelas viagens – misturado com o interesse em encontrar produtos e parceiros para trocas comerciais e também, uma genuina curiosidade em “descobrir novas terras”.


A proveniência do ouro que o Infante procurava, pareceu ter sido encontrada após a descoberta do Cabo Branco, na ponta Norte do Golfo de Arguim (actual Mauritânia) onde, na ilha que dá o nome ao Golfo, foi construída uma feitoria-fortaleza entre 1445 e 1464. Esta era uma zona costeira semi-desértica mas onde, no limite sul do deserto do Saara (o denominado “Sahel”), confinando com as margens do Rio Níger, reinava o “Senhor do Ouro”, num senhorio originado em volta da cidade de Koumbi Saleh. O nome deste senhorio, em língua fula, seria ”Gine”, ou “Gana”, a que os portugueses chamariam Guinea, ou Guiné. A partir daí, toda a costa africana até ao actual Gabão, teria este nome – Golfo da Guiné. Mas o “senhorio” ou “império” do Gana – cerca de 300 a 1240 –, quando os portugueses chegaram a Arguim, já tinha mudado de donos (embora mantendo tradicionalmente o mesmo nome), substituidos por novos Senhores, agora do Mali (os Malinqués de Timbuktu), já muçulmanizados – este “império” durou desde cerca de 1240 a 1600 – atingindo a costa do Atlântico e expandindo-se pelo curso superior do Níger. (Ver mapa abaixo).

Clicar em cima do mapa para ampliar.

O Golfo da Guiné seria, mais tarde, designado por Costa dos Escravos (do início do século XVII, ao século XIX), já sob custódia britânica, devido ao comércio esclavagista, para alimentar a “mão de obra” das grandes plantações do Sul da colónia americana da coroa inglesa. Claro que os portugueses também se dedicaram a este “comércio” no dito Golfo, mas mais especialmente depois, a partir de Angola, para alimentarem as suas plantações nas terras do Brasil. Dedicaremos um capítulo específico deste Preâmbulo ao “comércio” esclavagista em África, dada a importância que teve, especialmente no apresamento e transferências forçadas (sempre em condições infra-humanas) de populações entre as duas margens do Oceano Atlântico, no sentido África-Américas – e não só. Acontece que o Golfo da Guiné era uma região densamente povoada, ao contrário da costa até aí alcançada pelos portugueses.

Existiam várias “cidades estado” e estados mais complexos, como o “reino” do Daomé e mais tarde do Benim. Evidentemente, os escravos que os senhores desses “reinos” vendiam aos portugueses, eram produto das guerras locais (que não vale a pena estarmos aqui a descrever), que os comerciantes europeus incentivariam, comprando escravos pagos em armas europeias... Enfim, nada que não conhecessemos já da História da própria Europa em tempos mais recuados.

Mas voltemos a D.João II. O rei começou por mandar construir uma fortaleza, designada por Castelo da Mina, depois S. Jorge da Mina, no actual Gana (que apesar do nome não tem nada a ver com o “Gana” de que falámos acima) – onde actualmente é conhecida por Elmina, na cidade que se desenvolveu a partir daquela fortaleza e que adoptou o mesmo nome. Aí era transaccionado o almejado ouro e... evidentemente, os escravos – mas também a pimenta, o marfim, goma, cera, azeite de palmeira e ovos de avestruz, etc... Mais tarde os ingleses chamariam ao Golfo da Guiné, Costa do Ouro (depois Costa dos Escravos, como dissemos anteriormente), quando se apoderaram do território, a partir do Séc. XVII. Os portugueses construiriam mais tarde algumas outras fortalezas no Golfo da Guiné – Sto. António em Axim, S. João Baptista d'Ajudá em Uidá, no actual Benim, etc...

Fotos acima: vistas da fortaleza de S. Jorge da Mina - na actualidade.

Contudo quando Diogo Cão, enviado por D.João II, chegou, em 23 de Abril 1483 [?], à foz do Rio Zaire (na má pronúncia portuguesa do termo em kikongo nzere ou nzadi – "o rio que traga todos os rios"), começou a escrever-se o que nos interessa: a Historia de Angola.

No entanto, dada a controvérsia que persiste [ainda] entre os historiadores portugueses sobre as viagens de Diogo Cão (ou Caão, ou Caam) – nomeadamente quanto a datas, ou a quantidade de viagens que realizou, admitindo mesmo alguns pesquisadores, que descobriu a ilha de Ascenção (no meio do Atlântico) e alcançou até o cabo de São Jorge no Brasil... Estas viagens têm que ser motivo do próximo capítulo deste Preâmbulo.

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