BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

terça-feira, 17 de março de 2015

OCUPAÇÃO EFECTIVA DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS EM ÁFRICA – APÊNDICE AO PREÂMBULO “PARA UM HISTÓRIA DE ANGOLA” (Parte 1)

Um curioso cartaz, de que não sei a origem, encontrado na internet, que mostra as datas, até às quais, os territórios sublinhados a vermelho não faziam parte de "Angola"

OCUPAÇÃO EFECTIVA DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS EM ÁFRICA
APÊNDICE AO PREÂMBULO 
“PARA UM HISTÓRIA DE ANGOLA (Parte 1)"

Tal como afirmei na primeira parte deste Preâmbulo – Para uma História de Angola, sobre várias afirmações de angolanos que, actualmente, vêem no território da Angola actual a sua “querida pátria” (embora eu compreenda este sentimento), afirmando-o sem qualquer perspectiva histórica, como se aquele território se tivesse formado por resultado de uma conjuntura de vontades das nove etnias constituintes das populações de Angola, contudo as coisas foram completamente diferentes. Nem mesmo as afirmações propagandisticas do Estado Novo português, sobre os 500 anos de presença portuguesa no território corresponderam sequer à verdade. Publicaremos aqui, em breve, matéria sobre a Conferência de Berlim, que reuniu entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, a pedido de Portugal (que ali apresentou o projecto conhecido por mapa cor-de-rosa) e onde foi desenhado o novo mapa político de toda a Àfrica, dominada pelos colonizadores...

Evolução da ocupação de Angola e Moçambique depois da Conferência de Berlim, em 1884/85 e confronto com os interesses ingleses (em cor-de-laranja), que queriam (e obtiveram) "um corredor de possessões britânicas, desde Cape Tow até ao Cairo...

Deixo aqui um excerto do texto de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, do livro Histórias Coloniais, esclarecedor daquilo que digo acima:

A OCUPAÇÃO EFECTIVA DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS 

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus 

Os primeiros escravos negros surgiram em Portugal no ano de 1441. E em meados do século XVI, a cidade de Lisboa, numa população total de 100.000 habitantes tinha 10.000 escravos, quase todos negros. Nesse século terão saído de Angola muitos milhares de escravos angolanos, com destino ao Brasil, à América espanhola e ao continente português. A Coroa e as classes dominantes de Portugal, tiveram certamente a sua parcela de responsabilidade. Tal como a tiveram reis e chefes africanos que os caçavam e vendiam. De resto, ainda hoje existem em Portugal aldeias em que vivem gentes com a tez mais escura, descendentes de escravos negros.


A isto chamamos tráfico de escravos. Mas o colonialismo, ensina-o a ciência política, é coisa distinta. No plano jurídico, é a dominação imposta por uma minoria estrangeira a uma maioria «indígena», cultural e civilizacionalmente diferenciada. E esta dominação não é apenas política, mas também e sobretudo económica, com a exploração dos meios de produção e da força de trabalho. Por isso, insistimos em dizer que o colonialismo pressupõe domínio político, exploração económica e, portanto, ocupação efectiva. E continuamos a afirmar ser errado falar dos «500 anos de colonialismo» ou de «colonização portuguesa», na medida em que «colonização» é, em regra, definida como a fundação de colónias com povoadores próprios, num território ou país que não é o seu. Mais consideramos caricato ouvir antigos colonizados a utilizar um argumento da propaganda com que o Estado Novo tentava justificar o direito histórico de permanecer nas colónias e legitimar a guerra em sua defesa.

Com efeito, a ocupação efectiva de Angola (e de Moçambique) foi, durante séculos, muito limitada.

Numa conferência proferida na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, em 1932, o coronel Vicente Ferreira, engenheiro e professor no Instituto Superior Técnico, antigo ministro das Colónias e Alto-Comissário em Angola, recordava que, até meados do século XIX, «os europeus, portugueses ou estrangeiros, pouco conheciam do interior da África Tropical. Os estabelecimentos portugueses, em Angola e Moçambique, quase se limitavam a alguns pontos da orla marítima, onde existiam feitorias, postos de aguada e fortalezas ou presídios, que os seguravam contra os ataques dos indígenas e, sobretudo, contra as empresas dos corsários ingleses e holandeses».

Com efeito, como assinala o historiador Oliveira Marques, «por volta de 1830 ou 1840, a ocupação efectiva de Angola reduzia-se a uma estreita faixa costeira de 80 a 130 quilómetros de largura média, sem limites definidos para o interior. No Norte, o território ocupado alargava-se um tanto, abrangendo as duas margens do Zaire, até à actual Matadi, 171 quilómetros distante da foz, onde a nevegabilidade do rio se detém nas Quedas de Água de Livingstone. No Sul, a sueste da Benguela de hoje, a soberania portuguesa alcançava Caconda uns 240 quilómetros a oriente do mar. A própria linha costeira só se conhecia com pormenor até Benguela, antes da expedição naval das décadas de 1830 e 1840 que a traçou de forma científica até à Baía dos Tigres, 17º de latitude Sul».

A expansão para o interior desenrolou-se com avanços e recuos.

O primeiro período da ocupação terá começado em 1838, «com a conquista militar de um novo presídio, denominado Duque de Bragança, cerca de 80 quilómetros a Leste de Ambaca». Durante este período, «o interior de Luanda, num raio de 240 quilómetros, era a região mais desenvolvida». E é por volta de 1840 que a ocupação se expande para Sul de Benguela.

Ocupação portuguesa de Angola, por volta de 1830

No segundo período, de 1861 a 1877, a expansão para o Sul de Angola foi reduzida. E «apesar de Moçâmedes (Namibe) ter sobrevivido (com muito pouca ajuda de Luanda) a actividade colonizadora no planalto foi diminuta». Nessa altura, «as viagens por terra entre Luanda e Benguela e entre Benguela e Moçâmedes eram perigosas, por vezes suicidárias».

No terceiro período, de 1877 a 1891, verifica-se «um interesse renovado pela expansão para o interior, acompanhado do tradicional interesse costeiro». Os mapas que aqui inserimos ilustram o povoamento de Angola.

Em 1861, o povoamento no Norte alargara-se até Malange. E no Sul, até à Baía de Moçamedes e à Huila. Silva Porto, referindo-se ao tipo de povoadores do interior de Angola, escreveu: «Desertores, foragidos à justiça ou simples aventureiros, todos, de uma maneira geral, procuravam, na extensão das terras do interior a imunidade em relação às regras da sociedade europeia ou apenas uma melhoria de situação económica».

Ocupação portuguesa de Angola, por volta de 1861

Em 1876, quando «os últimos escravos angolanos terminaram o período de serviço que a Lei de 25 de Fevereiro de 1869 os obrigara a prestar aos seus antigos senhores, Angola era constituída por quatro distritos (Zaire, Luanda, Benguela e Moçâmedes), abrangendo uma área de cerca de 100.000 km2 na planície litoral e um vago controlo sobre entrepostos comerciais no interior. Cerca de 3.000 pessoas de origem europeia e quase meio milhão de indígenas habitavam esse território, cuja situação económica não era invejável, restringidas as exportações a bens resultantes de actividades de predação, tais como o tradicional marfim ou a cera, e à produção de algumas escassas plantações, principalmente de café».

Três mil pessoas quase em finais do século XIX, ou seja, um português por 415 quilómetros quadrados da Angola que hoje conhecemos.

Não tem, pois, qualquer sentido falar de «500 anos de colonialismo». É facto, que Portugal foi pioneiro no contacto com as populações das costas africanas, contactos que remontam ao século XV. E que os portugueses foram criando feitorias na costa, vocacionadas para o tráfico de ouro, de marfim e de escravos (actividade de responsabilidade partilhada entre comerciantes negreiros, chefes africanos escravistas e uma elite crioula de intermediários). Segundo Silva Porto, «até meados do século XIX, a África integrava-se no comércio internacional, através dos escravos que enviava para a América. Recebia manufacturas europeias, mas não dispunha de um produto de troca que pudesse interessar directamente a Europa». Nessa altura, como bem assinalou o historiador norte-americano Douglas Wheeler, «a colónia de Angola era pouco mais que uma “feitoria militar-comercial”».

Em meados do século XIX, «o médico alemão George Tams descreve pormenorizadamente a vida económica e social de cidades como Benguela, Luanda e Novo Redondo». De acordo com as suas observações, as movimentações dos núcleos litorâneos animavam-se a cada dia com a chegada de caravanas vindas do interior, carregadas de marfim, de cera e de urzela, mas também de escravos que entravam à noite em surdina, em razão das interdições que já se faziam sentir. Ao longo dos trajectos pela costa, entre Moçamedes e Ambriz, deparava-se com situações características de um comércio considerado ilegal, marcado por uma dinâmica imposta pela presença do esquadrão britânico e pelas leis europeias antitráfico. Tams «localiza agentes, feitorias de várias nacionalidades e barracões improvisados que se espalhavam por praias ermas e pequenos ancoradouros em zonas quase despovoadas, “essas belas solidões” que, só eram atravessadas quando os apanhadores de escravos as atingiam ».

Os grandes negreiros (Arsénio Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana e, ainda, as negras Ana Francisca Ferreira Ubertaly e Ana Joaquina dos Santos Silva) aparecem frequentemente nos textos de Tams, que escreve: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transação criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Ana Francisca Ferreira Ubertaly, viúva de um médico natural da Sardenha, um degredado que se estabelecera em Luanda, «tinha nascido no interior da África e havia sido trazida como escrava para Luanda, onde vivia então com pompa, manejando um próspero negócio de escravatura». Seria uma das pessoas que maior negócio faria com escravos. Quanto a Ana Joaquina dos Santos Silva, a «Rainha do Bengo» como era chamada pelos oficiais franceses que se hospedavam junto da sua casa, a sua riqueza teria resultado «não apenas dos benefícios alcançados através do tráfico, como da prática de comércio lícito e da exploração de terras que lhes pertenciam por herança ou por doação, recorrendo ao trabalho escravo». Ambas «possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao Norte de Luanda e em Moçamedes, e tanto uma como a outra subscreviam novos projectos. Ambas haviam participado da fundação da colónia de Moçamedes, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para tocarem propriedades, mas também para gerenciarem a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar». As Anas negreiras seriam, também, senhoras de roças em S. Tomé. De modo que a ocupação efectiva só começou depois da Conferência de Berlim (1884-1885), cujo Acto Geral, ao substituir os direitos históricos, forçou a um esforço rápido e praticamente impossível de envio de tropas e de funcionários civis para todas as áreas que Portugal pretendia suas. Envolvendo o país, nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, nas chamadas guerras de «pacificação». «Impunham-nos de fora, uma nova forma de acção, que se traduzia pela necessidade de avançarmos pelo sertão e de ocuparmos “em força” os territórios cujos domínios supúnhamos assegurado por solenes tratados», dizia o já referido coronel Vicente Ferreira. E assim, «só nas décadas de 40 e 50 do século XX é que a África “portuguesa” adquiriu os contornos que muitos ainda conhecemos». A presença efectiva de Portugal nas colónias africanas não terá, pois, excedido umas décadas.

Excertos dos livros Histórias Coloniais e O Trabalho Forçado – nas colónias portuguesas.

Os Mapas incluídos foram redesenhados por mim, a partir dos originais publicados no texto original (dos mapas de Douglas Wheeler, simplificados por Oliveira Marques), para melhor se perceberem as considerações do texto.

O texto original pode ser consultado aqui: http://macua.blogs.com/files/a-ocupa%C3%A7%C3%A3o-efectiva-das-col%C3%B3nias-portuguesas.pdf, com as subsequentes notas de rodapé, que não transcrevi na totalidade, para não dificultar a leitura no blogue.

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quinta-feira, 12 de março de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 8) – PAULO DIAS DE NOVAIS FUNDA UMA FEITORIA PORTUGUESA NA ILHA DE LOANDA EM 1575


PREÂMBULO 
PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 8)
PAULO DIAS DE NOVAIS 
FUNDA UMA FEITORIA PORTUGUESA 
NA ILHA DE LOANDA EM 1575 


Como vimos anteriormente, a 20 de Dezembro de 1559 Paulo Dias de Novais (neto de Bartolomeu Dias) recebeu instruções para integrar uma Embaixada de Portugal ao “Reino” do Ngola de Ndongo em 1560, juntamente com religiosos da Companhia de Jesus, que tinha como objectivo contactar o lendário “rei” do Ndongo, o Ngola Kiluanji.

Assim, a missão portuguesa, comandada por Paulo Dias de Novais, atracou na foz do rio Kwanza no dia 3 de Maio de 1560, com vários padres jesuítas, incluindo o notável jesuita Francisco de Gouveia. A missão portuguesa foi recebida com hostilidade e desconfiança pelo novo “rei” do Ndongo, o Ngola Kiluanje kia Ndambi, que os encarou como agentes do "rei" do Kôngo, mandando-os aprisionar. Mais tarde, com a promessa de conseguir apoio diplomático e militar português, Paulo Dias de Novais teve permissão para regressar a Portugal. Regressou em 1564, deixando o padre jesuíta Francisco Gouveia no território do Ngola.

Em 1571 o Rei D. Sebastião, providenciou a Dias de Novais carta para construir uma feitoria nas terras do Ngola, autorizando-o a fazer conquistas na região, levar para lá colonos e construir fortalezas. Dias de Novais partiu de Lisboa no dia 23 de Setembro de1574, acompanhado por mais dois padres da Companhia de Jesus, tendo chegado à Ilha de Loanda em Fevereiro de 1575 (exactamente há 440 anos), aportando com dois galeões, duas caravelas, dois patachos e uma galeota. Aí estabeleceu a primeira Feitoria portuguesa, com cerca de 700 pessoas, onde se encontravam religiosos, mercadores e funcionários, bem como 350 homens de armas.

A região já estava então fora da vassalagem ao “rei” do Kôngo, após a guerra deste com o Ngola de Ndongo, que havia afirmado a independência do seu “reino” em relação ao Kôngo. Contudo o “rei” Álvaro I do Kôngo (Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba – 1568-1574) concordou com a fundação da feitoria portuguesa em Loanda, em recompensa pelo apoio de Portugal contra o reino dos Jagas (reino este talvez situado no Kassange – formado por grupos étnicos diversos, predominantemente nómadas, que se caracterizavam por não trabalhar, dedicando-se à rapina e à violência sobre as populações e de que falaremos mais tarde).

FUNDAÇÃO DE LUANDA


A nova cidade ganhou o nome através da sua ilha (de Loanda), a que os portugueses chamaram inicialmente “ilha das Cabras”, local onde os primeiros colonos se radicaram, como dissemos atrás. O topónimo Luanda provém do étimo lu-ndandu. O prefixo lu, primitivamente uma das formas do plural nas línguas bantu, é comum nos nomes de zonas do litoral, de bacias de rios ou de regiões alagadas (exemplos: Luena, Lucala, Lobito) e, neste caso, refere-se à restinga rodeada pelo mar. Ndandu significa valor ou objecto de comércio e alude à exploração dos pequenos búzios colhidos na ilha de Luanda e que constituíam a moeda corrente no Reino do Kôngo e em grande parte da costa ocidental africana, conhecidos por zimbo ou njimbo.

Como os povos ambundos moldavam a pronúncia da toponímia das várias regiões ao seu modo de falar, eliminando alguns sons quando estes não alteravam o significado do vocábulo, de Lu-ndandu passou-se a Lu-andu. O vocábulo, no processo de aportuguesamento, passou a ser feminino, uma vez que se referia a uma ilha, e resultou em Loanda e mais tarde, Luanda.

Outra versão para a origem do nome refere que o mesmo deriva de "Axiluandas" (homens do mar), nome dado pelos portugueses aos habitantes da Ilha, porque quando ai chegaram e lhes perguntavam o que estavam a fazer, estes responderam "uwanda", um vocábulo que em kikongo, designava trabalhar com redes de pesca.

Ao Ngola Kiluanje kia Ndambi tinha entretanto sucedido Njinga Ngola Kilombo kia Kasenda, discípulo do padre Francisco de Gouveia que, na sua estadia forçada de dezena e meia de anos (desde 1560) na região, tinha aproveitado para fazer a sua acção evangelizadora entre os povos do Ndongo. No dia 29 de Junho de 1575, Paulo Dias de Novais recebeu uma comitiva enviada pelo Ngola para o saudar.

Reconhecendo não ser a ilha de Luanda o lugar mais adequado para construir a Feitoria, avançou para terra firme e fundou a vila de São Paulo de Loanda em 25 de Janeiro de 1576, tendo lançado a primeira pedra para a edificação da igreja dedicada a São Sebastião – santo de grande devoção dos portugueses e patrono onomástico do rei de Portugal –, no lugar onde é hoje o Museu das Forças Armadas.

Gravuras com aspectos da Luanda antiga

Foto de Luanda (vista a partir da Ilha - em primeiro plano), nos anos 1960.

A escolha do novo local para a vila foi influenciada sobremaneira pela existência de um magnífico porto natural, situado numa baía protegida pela ilha; de uma fonte de água potável, as águas do poço da Maianga na (então) lagoa dos Elefantes; e das excelentes condições de defesa oferecidas pelo morro de São Paulo.

A sua população constituída pela comitiva de Paulo Dias de Novais, composta por sapateiros, alfaiates, pedreiros, cabouqueiros, taipeiros, um físico e um barbeiro, tiveram dificuldades de adaptação à inclemência do clima e à carência de condições para a fixação. No entanto, a vila expandiu-se para a "Cidade Alta", na continuação do morro de São Paulo, onde se construíram as instalações para a administração civil e religiosa. Os soldados e os mercadores de escravos viviam na "Cidade Baixa", na área actual dos Coqueiros.

Em 1605, com o aumento da população europeia e do número de edificações, que se estendiam já de São Miguel ao largo fronteiro do actual Hospital Josina Machel, a vila de São Paulo de Luanda recebeu foral de cidade, sendo constituída a primeira vereação municipal.

Luanda tornou-se a partir de 1627 o centro administrativo da região – que se começou a chamar Angola (derivação do título Ngola, como já dissemos), mas cuja dimensão era muito limitada. Para a defender foi construída a Fortaleza de São Pedro da Barra, em 1618, e a Fortaleza de São Miguel de Luanda, em1634. Isto, no entanto, não evitou a sua conquista pelos holandeses e o domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, entre 1641 e 1648, quando o Rei português passou a ser Filipe II de Habsburgo, titular da “Monarquia de Madrid” (União dos reinos ibéricos de Castela, Aragão, Valência, Granada, Galiza e Navarra, a que se juntou Portugal – Monarquia que, mais tarde, se designaria por Espanha, derivativo da antiga Hispânia romana).

Incapaz de conquistar qualquer território por si mesmo, devido à escassez de forças de que dispunha, Dias de Novais fez alianças com ambos os reinos, do Kôngo e do Ndongo, servindo as suas escassas tropas como exército mercenário – apreciado pela eficácia, especialmente devido à cavalaria e às armas de fogo –, sobretudo na guerra contra os Jagas.

No entanto logrou alguns sucessos em termos de “conquistas” (sempre precárias), ocupando território entre o rio Bango e a confluência dos rios Kuanza e Lucala:

Pelos termos da Carta de Doação recebida, Novais deveria expandir o território para Norte até às margens do rio Dande (Bengo), para o Sul, e para o interior ao longo do curso do rio Kwanza. Tinha ainda a obrigação de construir uma igreja, fortalezas e de doar sesmarias, para assentamento dos colonos. Partiu em direção às terras do Ndongo, em busca das lendárias minas de prata de Cambambe, avançando pelo vale do Kwanza até à sua confluência com o rio Lucala, onde fundou a vila de Nossa Senhora da Vitória de Massangano, em 1583 (Fortaleza de Massangano).

Paulo Dias de Novais faleceu a 9 de Maio de 1589 em Massangano e lá foi sepultado, defronte da Igreja de Nossa Senhora da Vitória, em túmulo de pedra. As suas cinzas foram mais tarde transladadas para a Igreja dos Jesuítas em Luanda, pelo Governador Bento Banha Cardoso, em 1609.

Aspectos da Fortaleza de Massangano - estado actual

Mapa da zona em análise...

OS NGOLAS DO NDONGO

Ngola-a-Nzinga (c.1358) - Potentado legendário de que não se conhecem senão lendas...

Ngola Kiluanji Inene (c. 1515 - 1556)
Ndambi a Ngola (1556 - c.1562)
Ngola Kiluanji kia Ndambi (c. 1562 - c. 1575)
Njinga Ngola Kilombo kia Kasenda (c. 1575 -1592)
Mbandi Ngola Kiluanji (1592-1617)
Ngola Nzinga Mbandi (1617-1624)
Ngola Nzinga (a célebre rainha Jinga) Mbande (1624-1626) – depois Ngola da Matamba e da parte oriental de Ndongo (1626 -1663)

Em 1626 os Portugueses conquistaram a parte ocidental do Ndongo, o “reino” dos Ngola, passando este a ser vassalo de Portugal. Durante este período foram "reis" do Ndongo Dom Hari A Kiluanje que governou em 1626, e o Ngola Hari, que governou de 1627 a 1657.

Hari a Kiluanje (1626)
Ngola Hari (1626-1657)
Mukambu Mbandi (1663 - 1671) – na parte oriental do Ndongo, que incluia a Matamba, depois da morte de Nzinga (Jinga) Mbande

O Ngola A Kiluanje (1515-56) foi o lider do potentado mais destacado do “Reino” do Ndongo, sendo conhecido por Ngola A Kiluanje Inene (o Grande Ngola). O Ngola A Kiluanje Inene fundou uma dinastia do que mais tarde havia de ser conhecida como o Reino de Angola, que então compreendia, entre outros, os terrtórios da Ilamba, do Lumbo, do Hari, da Quissama, do Haku e do Musseke.

Inicialmente o Ndongo era um potentado vassalo do Reino do Côngo até o Ngola A Kiluange Inene se ter declarado independente.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 7) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (2) – A ENTRADA DOS PORTUGUESES NO NDONGO – O INÍCIO DO “NEGÓCIO” DOS ESCRAVOS



OS “REINOS” PRIMITIVOS (2)
A ENTRADA DOS PORTUGUESES 
NO NDONGO
O INÍCIO DO “NEGÓCIO” DOS ESCRAVOS

Se o “Reino” do Kôngo foi criado por populações Kikongo, os potentados a Sul do Kôngo e vassalos deste – entre os Rios Dande e Kuanza – eram de etnia Mbundo (Kimbundo, ou Ambundo). Ocupavam um território entre os dois Rios atrás mencionados e estendiam-se do Atlântico até ao Rio Kuango, divididos entre os “Reinos” do Ndongo, Kissama e Matamba. O “Rei” do potentado de Ndongo era designado pelo título de Ngola (que daria origem à palavra “Angola”).

Avanço do Ngola do Ndongo na guerra contra o Kôngo (c. 1560) e entrada na Matamba...

Em 1518 o Ngola do Ndongo enviou uma embaixada a Portugal pedindo missionários e, indirectamente, o reconhecimento da sua independência face ao Kôngo. Uma missão portuguesa chegou ao Ndongo em 1520 mas disputas locais e talvez a pressão do Kôngo forçou os missionários a abandonar o Ndongo. Afonso I (Mvemba-a-Nzinga) do Kôngo levou os missionários para Mbanza Kôngo e deixou o seu próprio padre no Ndongo.

Por volta de 1556, o Ngola do Ndongo enviou outra missão a Portugal procurando ajuda militar e oferecendo-se para ser cristianizado, mesmo apesar dos oficiais portugueses da altura terem duvidado da sua sinceridade religiosa. Em 1901, E. G. Ravenstein afirmou que esta missão foi o resultado de uma guerra entre o Kôngo e o Ndongo, na qual o Ndongo saiu vencedor e afirmou a sua independência. O mesmo disse Jan Vansina em 1966 (e a partir daqui vários outros escritores), porém isto parece ter sido uma incompreensão das fontes originais. O Ndongo poderá ter realmente visto a missão como uma espécie de declaração de independência, já que a resposta do Kôngo à missão de 1518 sugere que ainda mantinha poder suficiente para prevenir movimentos independentistas.

De qualquer forma, a segunda missão portuguesa, liderada por Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias, atracou na foz do rio Kwanza em 1560, juntamente com vários padres jesuítas, incluindo o notável Francisco de Gouveia. A missão de Dias de Novais falhou igualmente, tendo ele voltado a Portugal em 1564, deixando o padre jesuíta Francisco Gouveia no território.

Contudo, antes de falarmos de Paulo Dias de Novais, que mais tarde, voltaria ao Ndongo para fundar a primeira feitoria portuguesa no território (a cidade de Luanda), será necessário – para percebermos o contexto – evocar os acontecimentos no outro lado do Atlântico, no Brasil, e a questão da escravatura e do comércio da mesma, que os portugueses já praticavam nas sua feitorias da Guiné (Arguim) e no Golfo da Guiné (São Jorge da Mina).

Apesar da escravatura ser tão antiga como a espécie humana – desde que grupos humanos entraram em guerras uns com os outros e fazendo dos vencidos seus escravos –, não vamos recuar tanto na sua análise, senão nunca mais sairíamos daqui. Falemos apenas do que ocorreu no Brasil e o que deu origem ao tráfico “negreiro” com Angola.

No que viria a ser o Brasil, a escravatura já era praticada pelos índios, na sua forma mais primitiva, muito antes da chegada dos europeus. Entre os tupinambás, que eram antropófagos, a maioria dos escravos eram capturados nas tribos inimigas e acabavam por ser devorados. Porém, entre a captura e a execução, eles poderiam viver como escravos durante anos. Entre os tupinambás a escravidão não tinha nenhum valor económico. Os cativos apenas serviam para serem exibidos como troféus de valor militar e honra ou como carne a ser devorada em rituais canibalescos que poderiam acontecer até mesmo ao fim de quinze anos após a captura. Os escravos eram incorporados na comunidade, sendo que algumas escravas se casavam com os homens da tribo. Porém, os cativos reconheciam-se como escravos e como homens derrotados e o sentimento de degradação entre eles era muito forte.

A instituição da escravatura europeia no Brasil toma forma com a grande propriedade da monocultura, na década de 1530. Portugal contava com pouco mais de 2 milhões de habitantes na época e mal podia arcar com a perda de mão de obra para as expedições para o Oriente, que viviam o seu auge. E, assim como para qualquer outro colono europeu, não era interessante para o português migrar para os trópicos para ser um simples trabalhador do campo. "A escravidão tornou-se, assim, uma necessidade: o problema e a solução foram idênticos em todas as colónias tropicais e mesmo subtropicais no continente americano.” 


A primeira forma de escravidão no Brasil foi dos gentios da terra ou negros da terra, os índios, especialmente na Capitania de São Paulo onde os seus moradores pobres não tinham condições de adquirir escravos africanos, nos primeiros dois séculos de colonização. A escravização de índios foi mais tarde proibida pelo Marquês de Pombal. Eram considerados pouco aptos para o trabalho.

É interessante verificar que os portugueses tratavam os africanos abaixo do Sahara por “pretos”, mas quando os transformavam em escravos passavam a ser “negros”, tal como os escravos índios, aliás, que eram os “negros da terra” – portanto a palavra “negro” era sinónimo de “escravo”.

No Brasil, a escravatura africana teve início com a produção canavieira (cana do açucar) na primeira metade do século XVI como tentativa de solução à "falta de braços para a lavoura", como se dizia então. Os portos principais de desembarque de escravos eram no Rio de Janeiro, na Bahia Negros da Guiné, no Recife e em São Luís do Maranhão.


Os portugueses, brasileiros e mais tarde os holandeses traziam os negros africanos das suas feitorias em África para os utilizar como mão-de-obra escrava nos engenhos de rapadura do Nordeste. Os comerciantes de escravos vendiam os africanos como se fossem mercadorias, as quais adquiriam de tribos africanas que haviam feito prisioneiros de guerra. Os mais saudáveis chegavam a valer o dobro dos mais fracos ou velhos. Eram mais valorizados, para os trabalhos na agricultura, os negros Bantu (ou Benguela ou do Kôngo), provenientes especialmente de Angola e Moçambique, e tinham menos valor do que os que vinham do centro oeste da África, os negros Mina ou da Guiné, que receberam este nome por serem embarcados no porto de São Jorge de Mina, na atual cidade de Elmina, e eram mais aptos para a mineração, trabalho no qual já se dedicavam na África Ocidental. Por ser a Bahia mais próxima da Costa da Guiné (África Ocidental) do que de Angola, a maioria dos negros baianos são designados “Minas”...

Fortaleza da feitoria de São Jorge da Mina na actualidade (Elmina)

Rotas do tráfico negreiro de África para o Brasil...

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 6) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (2) – GRUPOS ÉTNICOS EM ANGOLA

OS GRUPOS ÉTNICOS EM ANGOLA 

Como já dissemos anteriormente, os povos Bantu deslocaram-se para o Sul de África em três fases, sendo que não o fizeram em massa. Formaram-se vários grupos que se deslocavam, durante séculos – ao longo dos primeiros mil anos da era de Cristo – e deambularam por vastas regiões da África sub-shariana até se fixarem. Desse modo entraram no território que é hoje Angola em várias fases e não todos pelas mesmas regiões: uns pelo Norte, outros pelo Leste e outros pelo Sudeste. Claro que os grupos dos bantu que se foram formando ao longo destas viagens, foram modificando as suas formas de falar (separados como estavam uns dos outros), até ficarem com diversos dialectos diferentes entre si. Daí que os grupos que entraram no actual território angolano se diversificaram em basicamente nove grupos diferentes, como se pode ver no mapa abaixo:

Mapa da distribuição das etnias de Angola. O grupo Khoisan, disperso pelo Sul é o único não bantu e representa os anteriores ocupantes do território antes da chegada dos bantu.

Assim, o “Reino” do Kongo era composto por Bakongos – que falavam a língua Kikongo – sendo que os outros “reinos” primitivos eram originários de diferentes etnias (apesar de todas com o mesmo substrato comum banto). Os “reinos” de que falaremos a seguir, Ngongo e Matamba, são de etnia Mbundu e cujo território veio a ser a origem da colónia portuguesa de Angola.

Interessante mapa (encontrado na internet) que mostra os territórios de Angola livres do domínio português até ao século XIX:


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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 5) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (1) – O “REINO” DO KÔNGO



PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 5)
OS “REINOS” PRIMITIVOS (1)
O “REINO” DO KÔNGO

Como vimos no texto anterior aqui publicado, quando Diogo Cão atingiu a foz do rio Zaire, encontrou o potentado de que o rei D.João II já tinha notícia: o senhorio do Kôngo, a que chamou “Reino”, à falta de melhor designação. Contudo o senhor do Kôngo não era, como também já vimos atrás, um “Rei” – na tradição das línguas indoeuropeias – mas apenas uma espécie de “monarca feudal” arcaico, se quisermos fazer uma ténue comparação com a civilização europeia.

O território do senhorio do Mâni Kôngo (como era designado o Senhor do Kôngo localmente) teria sido ocupado durante o primeiro milénio D.C. pelos Bantu, na sua longa marcha pela África subsahariana, desde a foz do Níger – pressionados pela pressão dos povos saharaui, devido à desertificação do Sahara. Devemos referir que os bantu, apesar de serem portadores das técnicas do ferro e da cerâmica, nunca desenvolveram nada parecido com a escrita, pelo que, aquilo que se deduz da sua história, seja baseado nas tradições orais e na arqueologia. Na bacia do Zaire encontraram territórios muito propícios à agricultura e parte deles fixaram-se aí, desde o Séc. XIII, dando origem aos potentados/senhorios conhecidos na História daquela zona.

Mapa do Séc. XVIII ou início do XIX (?) de origem francesa, que assinala os diversos "reinos"

O Kôngo tinha a sua capital em Mbanza Kôngo (na época da colonização rebatizada como São Salvador do Congo) e irradiava o seu poder desde o Cabo Lopez – antigo Cabo de Sta. Catarina (no actual Gabão) –, a Norte, até ao Rio Kuanza, a Sul e desde o Atlântico ao Rio Kwenge a leste. O Senhorio do Kôngo dominava vários outros Senhorios subsidiários (que na óptica europeia, prestavam vassalagem ao Mâni Kôngo): o Nsi Ya Luangu, o Kakongo, e o N’Goyo (o território actual de Cabinda engloba partes destes antigos três senhorios), a Norte do Zaire e N´Soyo, Ndongo, Matamba, Kassange e Kissama, mais ou menos até às margens do Rio Kuanza – como se pode ver no mapa abaixo:


Como vimos também nos textos anteriores, Diogo Cão levou quatro nativos para Portugal, aquando do regresso da sua primeira viagem em 1483. Estes nativos retornaram ao Kôngo nas caravelas de Gonçalo de Sousa em 1490 – já falavam português – e eram acompanhados de sacerdotes católicos para a evangelização do Mâni Kôngo e seus subditos.

Entre aspas, citamos excertos de “O Reino do Congo” de Arlindo Correia:

“(...) Chegado Gonçalo de Sousa a Mpinda [capital do N’Soyo], baptizou-se em 3 de Abril de 1491 o Mâni-Soyo, que tomou o nome de Manuel e o seu filho que se chamou António. Tal só foi possível porque o Mâni-Soyo era tio e mais velho que o Mâni-Congo. Partiram então para a capital, mais tarde chamada S. Salvador e ali foi baptizado em 3 de Maio de 1491 o Mâni-Congo, que tomou o nome de João e sua esposa, que tomou o nome de Leonor, tal como o Rei e Rainha de Portugal. Pouco tempo depois, foi baptizado com o nome de Afonso o Mâni-Nsundi, filho do rei que tinha o nome gentílico Mvemba-a-Nzinga (...)”

Depois do baptismo, o Mâni Kôngo (Nzinga-a-Nkuwu, como João I) adoptou mesmo o título de Rei, à maneira europeia.

Representação do Mâni Kôngo Nzinga-a-Nkuwu (D. João I depois do baptismo)

Brasão de armas atribuído ao Mâni Kôngo


“(...) O rei possuía a ilha de Luanda e cabia-lhe o monopólio da recolha dos búzios do mar, chamados nzimbos ou cauris, que serviam de moeda no reino. É difícil calcular a população desta área, mas alguns estudiosos estimam-na em cerca de dois milhões, deixando de lado o cálculo por baixo de 532.000, avançado por John Thornton.

O solo do Congo é fértil devido às chuvas abundantes. O clima era doentio, e mortífero para os europeus que lá residissem. As condições de habitabilidade eram muito rudimentares, a água estava contaminada e proliferavam as mais diversas doenças, com destaque para o paludismo.

As principais riquezas exportáveis eram na altura o marfim e o cobre. As armadilhas para os elefantes eram enormes buracos, disfarçados com ramos de árvores, onde eles caíam e já não conseguiam sair. A exploração do cobre era feita à superfície.

Na monarquia congolesa, o herdeiro do trono não era determinado pela linha directa, mas sim pela colateral. O sucessor seria o filho mais velho da irmã do falecido rei. Mas esta regra era afastada tantas vezes que se pode considerar que o novo rei era eleito entre os membros do kanda, isto é, do clã real.

Entre os conselheiros do rei, sobressaía o Mani Vunda, com funções específicas de conselheiro político (...)”

“(...) Uma outra consequência da chegada dos portugueses, foi que os chefes das províncias passaram a designar-se por duques, condes e marqueses, tal como em Portugal e todos os fidalgos baptizados passaram a ter o tratamento de Dom. Os nobres adoptaram brasões. Foi criada uma Ordem de Cristo do Congo e a coroação do Rei passou a ter de ser presidida por um sacerdote.

Ruínas da antiga catedral de Mbanza Congo - arqueólogos portugueses estão a participar nas escavações actualmente levadas a cabo nesta cidade para recuperação do património histórico...

Reza a história que o rei do Congo, D. João I, passados uns anos, se aborreceu da religião católica e começou a favorecer o seu filho Mpanza-a-Kitima, que não se quisera baptizar. O Rei faleceu por volta de 1509 e este filho apresentou-se como sucessor. Mas a rainha D. Leonor mandou chamar o seu filho Afonso de Nsundi. Este reuniu um pequeno exército, afrontou e derrotou o seu irmão, invocando o nome de Jesus e do Apóstolo São Tiago, tornando-se rei (...)”

Mais tarde, a partir de 1576, com a fundação da cidade de São Paulo da Assunção de Loanda, a actual cidade de Luanda, por Paulo Dias de Novais, inicia-se o comércio de escravos com destino ao Brasil e, a partir daí, as coisas começam a descambar entre a monarquia portuguesa e o “reino” do Kôngo” e mesmo em lutas entre clãs no interior deste...

Para não tornar este post demasiado longo, os interessados podem consultar “O Reino do Congo” de Arlindo Correia, que pode ser lido na integra aqui: http://arlindo-correia.com/100807.html

Deixo aqui a listagem dos “Reis” do Kôngo, segundo uma lista mais ou menos oficial:

Rei Nzinga-a-Nkuwu, João I (1509)
Rei Mvemba-a-Nzinga, Afonso I (1509-1540)
Rei Nkanga-a-Mvemba, Pedro I (1540-1544)
Rei Mpudi-a-Nzinga Mvemba, Francisco I, (1544-1546)
Rei Nkumbi Mpudi a Nzinga, Diogo I (1546-1561)
Rei Mvemba-a-Nzinga, Afonso II (1561)
Rei Mvemba- a-Nzinga, Bernardo I (1561-1567)
Rei Mpudi-a-Mvemba Nzinga, Henrique I (1567-1568)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro I (1568-1574)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro II (1574-1614)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Bernardo II (+1615)
Rei Mbika-a-Mpangu Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro III (1615-1622)
Rei Nkanga-a-Mvika lua Ntumba-a-Mvemba, Pedro II Afonso (1622-1624)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Garcia I (1624-1626)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Ambrósio I (1626-1631)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro IV (1631-1636)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro V (1636-1638)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro VI (1638-1641)
Rei Nkanga-a-Lukeni, Garcia II (1641-1661)

Durante o período das lutas pelo poder

Em M'Banza Kongo (São Salvador do Congo)

Rei Vita-a-Nkanga, António I (1661-1665)
Rei Mpangu-a-Nsundi, Álvaro VII, (1666-1667)
Rei Álvaro VIII (1667-1669)
Rei Rafael I (1669-1675)
Rei Mpangu-a-Miyala, Daniel I (1678-1680)
Rei Nsaku-a-Mvemba, Pedro IV (1694-1710)
Rei Mpangu, Pedro Constantino (+1710)

Em Ki-Mpangu

Rei Afonso III (1667-1669)
Rei Nkanga-a-Mvemba, Garcia III (1669-1678)
Rei Nlaza, André I (+1679)
Rei Nimi-a-Mvemba, Álvaro IX (+1680)
Rei Nzinga, Manuel I (+1680)
Rei Nsaku-a-Mvemba, Pedro IV (1694-1710)

Em Mbula

Rei Nsuku-a-Ntamba, Pedro III (1667-1679)
Rei Nsuku-a-Ntamba, João II (1679-1710)

Depois de 1718, o reino do Kôngo desmoronou-se por completo, devido sobretudo à série de guerras fraticidas (e contra os portugueses por causa do comércio esclavagista), acabando por se dividir em diversos pequenos senhorios, embora ainda tivessem existido “Reis” do Kôngo nominais (sem qualquer poder) até 1957.

Foto – o Rei do Congo D. António III (falecido em 1957) e família.

Fontes consultadas:

O Reino do Congo (on line: http://arlindo-correia.com/100807.html), de Arlindo Correia
As Origens do Reino do Kôngo, de Patrício Batsîkama
O Reino do Congo, de Chantal Luis Silva
Angola, Trilhos para o Desenvolvimento, de Filipe Zau

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

BOAS FESTAS PARA TODOS OS ANITGOS CAMARADAS

BOAS FESTAS !!!!

Símbolo romano do Sol Invictus

Na boa e antiquíssima tradição mediterrânica (diria mesmo que europeia), celebro o solstício de inverno, antecedente da celebração do Natal Cristão.

O Dies Natalis Solis Invicti (dia de aniversário do sol invicto – e o dia mais pequeno do ano) ocorre por volta de 21 de Dezembro – o solstício de inverno – a partir do qual os dias recomeçam a ficar maiores. Celebrava-se então a vitória da luz contra as trevas!!

Daí a tal antiquíssima tradição do "renascimento do Sol", que os cristãos adoptaram como "aniversário do nascimento de Cristo" (Dies Christi Natalis ou Natalis Domini) estabelecendo-o a 25 de Dezembro – para não parecer muito "colado" ao culto do Sol latino-mediterrânico.

Como sou ateu, prefiro celebrar o Sol Invictus – sem margem para dúvidas! E sem "bolas", nem pinheiros, nem presépios, etc... Mas para todos os meus antigos camaradas de tropa – eventualmente católicos – deixo aqui um desejo de que tenham umas BOAS FESTAS e um GRANDE ANO DE 2015!!!

 UM BOM
DIES NATALIS SOLIS INVICTI 
PARA TODOS OS MEUS ANTIGOS CAMARADAS 

E LEITORES DESTE BLOGUE!!!


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domingo, 23 de novembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 4) – AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (2) – O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

Caravelas
Quando falamos de caravelas, estamos a falar de um pequeno barco com duas velas latinas (de difícil manobra) com cerca de 20 metros de comprimento e 6 metros de largo – para comparar digamos que os pequenos cacilheiros que actualmente fazem a ligação Cacilhas/Lisboa têm quase 30 metros de comprimento e 7 metros de largo – e não se aventuram em mar alto.
A vida a bordo das caravelas era de uma dureza atroz. Os homens viviam num ambiente constantemente molhado. A alimentação era à base de biscoitos, peixe seco ou salgado, toucinho salgado, azeite, vinagre, vinho e água.
O leme era de difícil manejo e exigia muita concentração. Os homens dormiam onde podiam. 
Eram homens duros e determinados – e o mar não era (não é) coisa com que se brincasse.

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 4)
 AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (2)
O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

A segunda viagem de Diogo Cão na descoberta da costa de África, que se previa “até encontrar passagem para o Índico” – o que não aconteceu, como sabemos – é muito mais difícil de datar, devido aos ainda mais escassos elementos que sobreviveram. Vejamos então uma síntese do que é possível apurar:

Não há dúvida de que D. João II esperava que Diogo Cão alcançasse pelo menos os reinos periféricos do Prestes João (o mítico rei da Etiópia) ou mesmo o oceano Índico, pois um tal percurso tornava desnecessárias mais expedições ao longo da costa. D.João II enviou também, nesta segunda viagem, para o “rei” do Kongo (que na altura era Nzinga-a-Kuvu), uma embaixada com ricas prendas, ofertas de amizade, acompanhando também de recomendações para renegar aos ídolos, feitiçarias e abraçar a religião cristã.

Encarregado de empreender uma segunda expedição, Diogo Cão partiu na segunda metade de 1485 (eventualmente em Agosto).

Chegando ao estuário do Zaire, as caravelas aportaram a M’Pinda, a 10 Km da ponta do Padrão, residência do Manisoyo – o senhor do Soyo (nos relatos da viagem anterior refere-se uma “rainha”) – devolvendo os reféns embarcados na primeira viagem. Tendo-se apercebido que os emissários enviados ao “rei” do Kongo na viagem anterior, ainda não se encontravam em M’Pinda, e também de suspeitar que pelo rio Zaire poderia ter acesso mais rápido ao Índico, já que na exploração anterior não fora além das imediações de Nóqui, Diogo Cão decide zarpar rio acima. Procurou explorar o Rio Zaire, na esperança que pudesse vir a ser a extremidade meridional do canal que, segundo a mapa de Fra Mauro, separava a África Austral da massa do continente e desembocava no Índico perto de Quilóa.

Mapa de Fra Mauro (1459)

A expedição progrediu até às cataratas de Yellala (que impediam a progressão das caravelas), situadas a 170 Km do mar, onde os marinheiros gravaram várias inscrições nas rochas – incluindo os nomes –, deixando assim para a posteridade um precioso registo.

As famosas inscrições de Yellala

Vendo que não era possível progredir através do rio Zaire, Diogo Cão resolveu que a exploração teria de continuar por via marítima. Avançou então para a latitude (cerca de 15º Sul) da Baía de Moçâmedes – onde havia terminado a viagem anterior, navegando depois para além desta e verificando, com desilusão, que o continente se estendia para Sul, aparentemente sem fim.

Atingindo o Cabo Negro, na latitude 15º 42’ S, Diogo Cão ergueu outro padrão. E logo a seguir ancorou numa baía, hoje Porto Alexandre, a que deu o nome de “Angra das Aldeias”, devido à existência de duas povoações. Também entrou depois na “manga das areias”, hoje Baía dos Tigres.


Já depois da foz do rio Cunene (actual fronteira Sul de Angola – 17º de Latitude Sul) e navegando ao longo de uma costa desértica (Actual Namíbia), alcançou a latitude 21º 47’ S, onde ergueu outro padrão, o mais meridional de todos, num lugar a que hoje se chama Cape Cross (Cabo da Cruz, ou do Padrão da Serra) na actual Costa dos Esqueletos. Depois, ainda percorreram mais 50Km de costa para Sul do Cabo do Padrão da Serra, até à ponta dos Farilhões, a Hentiestbaai de hoje e foi aí que a expedição terminou.

Réplica do Padrão de Cape Cross (cujo original se encontra em Berlim) e inscrição em inglês, de 1986, assinalando os 500 anos da viagem de Diogo Cão...

O termo exacto da viagem, deve-se a uma legenda de um mapa de 1489 de Martellus, cujo texto sugere que Diogo Cão aí terá morrido. Se assim aconteceu, poderá ter sido essa a razão porque os navios não avançaram mais para sul ?

Não se sabe nada do que se passou naquela Ponta dos Farilhões que determinasse o fim da expedição. Rui de Pina, cronista-mor do Reino acrescentou na sua Crónica de D.João II, que o “rei” do Congo, pediu que D.João II lhes mandasse padres para instruir o seu povo, desejava ter pedreiros que construíssem igrejas e casas, de modo que, neste e noutros aspectos, o seu “reino” fosse semelhante ao de Portugal, todos eles foram recebidos pelo rei de Portugal D. João II, em Janeiro de 1489.

É importante sublinhar a data [Janeiro de 1489] da embaixada congolesa, que não podia ter vindo nos navios da expedição de Diogo Cão. Como foi possível ser recebida por D.João II dois anos depois, se os sobreviventes da 2ª viagem de Diogo Cão regressaram ao reino, antes de Agosto de 1487? Uma vez que foi nesta data que se deu a partida de Bartolomeu Dias para a expedição que, finalmente dobraria o Sul da África atingindo o Índico. Acontece que João de Santiago foi o piloto escolhido por Bartolomeu Dias para pilotar a naveta de mantimentos da sua frota constituída por mais duas caravelas. O nome de "João Santiago" está gravado nas Pedras de Yellala para a posteridade. Portanto este marinheiro fez parte da 2ª viagem de exploração de Diogo Cão.

O que acaba por parecer mais correcto é que, depois de regressar da descoberta do Cabo de Boa Esperança e aberto o caminho marítimo para a Índia, Bartolomeu Dias terá feito escala na foz do rio Zaire, em M’Pinda, onde embarcou em Outubro de 1488 os tais embaixadores do “reino” do Congo para Portugal.

E nunca mais se soube nada sobre Diogo Cão!

A trapalhada documental que se seguiu, depois desta 2ª expedição, sobre o que aconteceu ao seu comandante, resultou, em parte, das afirmações do cronista João de Barros nas “Décadas da Ásia”. Decorridos 30 anos após os acontecimentos em que o cronista afirma:

“O navegador, Diogo Cão regressou ao reino e dele nunca mais houve notícia”.

Mas, se voltou ao reino, onde se encontra o seu túmulo? Ou D. João II, fez desaparecer todas as menções do navegador, por causa da hipotética errada informação sobre a proximidade do “fim do continente africano”? Mas não existem quaisquer provas que corroborem esse procedimento, por parte do monarca português.

A historiadora Therese Schedel – autora do livro “O Mosteiro e a Coroa“, sobre o mistério que rodeia o desaparecimento de Diogo Cão, refere numa entrevista:

«..a não existência de um roteiro da segunda viagem de Diogo Cão tem sido um mistério apaixonante... O navegador desapareceu durante a sua segunda viagem ou não?».

«...Os tripulantes que regressaram a Portugal [João de Santiago?] contaram que Diogo Cão se tinha embrenhado terra adentro e nunca mais aparecera... Muito possivelmente, talvez tivesse sido devorado por um tigre, quem sabe [mas sabemos hoje que nunca existiram tigres em África...] “. Contudo sobre esta Costa diz-se que “Também por ali aparecem leões, vêm do semi-árido, caminhando lentamente pelo leito dos rios até chegar à costa. E, como a vida animal não é tão abundante como a da savana, adaptaram-se ao cardápio disponível. Acabaram por descobrir uma nova fonte de alimento nas focas e nas baleias encalhadas, ocupando as praias da costa dos Esqueletos. Refeições que compartilham com hienas e chacais, ali em Cape Cross os leões vão à praia. Defendida por um mar turbulento que atira qualquer barco contra a costa, tem sido ao longo dos séculos cenário de vários naufrágios, que hoje são recordados pelos muitos restos de navios que surgem presos nas armadilhas da areia da praia. É a presença destes destroços que dá origem ao nome desta longa linha de areia que se estende até Angola, a Costa dos Esqueletos”.

Será que Diogo Cão se suicidou por lhe parecer que não conseguiria encontrar a passagem para o Oceano Índico? Ou regressou e foi ostracizado pelo rei, embora esta hipótese, muito divulgada pelos historiadores, nos pareça inverosímil, dado que não havia nenhum obstáculo (a não ser talvez os ventos contrários) para que a expedição avançasse para além daquela latitude...
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Terminada esta fase do Descobrimento da costa marítima de “Angola”, vamos, nos “próximos Capítulos” falar sobre o interland do território, sobre aquilo a que se chamam OS “REINOS” PRIMITIVOS DE "ANGOLA", que os portugueses encontraram quando lá chegaram.

Mapa do século XVIII com os "reinos" de "Angola"

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