BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

sexta-feira, 3 de abril de 2015

NZINGA MBANDE (A “RAINHA” JINGA) – PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 10)

NZINGA MBANDE 
(A “RAINHA” JINGA)
1583 - 1663

A Ngola Nzinga Mbande ou “Rainha Jinga” (nascida c. 1583 — Matamba, 17 de dezembro de 1663) foi “rainha” (Ngola) do Ndongo (apenas da parte oriental, não ocupada pelos portugueses) e de Matamba no século XVII. A sua titulatura de chefia na língua quimbundu, Ngola foi, como já temos aqui escrito, o nome utilizado pelos portugueses para denominar aquela região (Angola).

Nzinga viveu durante um período em que o tráfico de escravos africanos e a consolidação do poder dos portugueses na região estavam a crescer rapidamente. Era filha do Ngola Nzinga a Mbande Kiluanje e de Guenguela Cakombe, e irmã do Ngola Ngoli Bbondi (o soberano de Matamba) que, tendo-se revoltado contra o domínio português em 1618, foi derrotado pelas forças sob o comando de Luís Mendes de Vasconcelos (12º Governador e Capitão-General de Luanda). O nome de Nzinga surge nos registos históricos três anos mais tarde, como enviada de seu irmão, a uma conferência de paz com o governador português de Luanda. Após anos de incursões portuguesas para capturar escravos, e entre batalhas intermitentes, Nzinga negociou um tratado de termos iguais, converteu-se ao cristianismo para fortalecer o tratado e adoptou o nome português de Ana de Sousa.

No ano subsequente, entretanto, reiniciaram-se as hostilidades. Dois motivos alternativos costumam ser apontados:

Ngoli Bbondi revoltou-se novamente, fazendo grandes ofensas aos portugueses e derrotando as tropas do 13º Governador e Capitão-General português João Correia de Sousa em 1621. Nzinga Mbande, entretanto, teria permanecido fiel aos portugueses, a quem teria auxiliado por vingança do assassinato, pelo irmão, de um filho seu. Tendo mais tarde envenenado o irmão, sucedeu-lhe no poder.

Nzinga formou uma aliança com o povo Jaga, desposando o seu chefe e, subsequentemente, conquistando o “reino” de Matamba. Ganhou notoriedade durante a guerra por liderar pessoalmente as suas tropas, proibindo-as de a tratarem como "Rainha", exigindo que se dirigissem a ela como "Rei". Em 1635, encontrava-se disponível para formar uma coligação com os reinos do Congo, Kassanje, Dembos e Kissama.

Como soberana, rompeu os compromissos com Portugal, abandonando a religião católica e praticando uma série de violências não só contra os portugueses, mas também contra as populações tributárias de Portugal na região. O 16º Governador e Capitão-General de Angola, Fernão de Sousa (de 1624 a 1630), moveu-lhe guerra exemplar, derrotando-a em batalha em que lhe matou muita gente e aprisionando-lhe duas irmãs, Cambe e Funge. Estas foram trazidas para Luanda e batizadas, respectivamente com os nomes de Bárbara e Engrácia, tendo retornado, em 1623, para Matamba.

O território controlado pelos portugueses e o "reino" de Nzinga.
Algumas datas mostram o leeeento avanço português, do séc. XVI ao séc. XIX

A “rainha” manteve-se em paz por quase duas décadas até que, diante do plano de conquista de Angola por forças da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, percebeu uma nova oportunidade de resistir. Traída eventualmente pelos Jagas, formou uma aliança com os holandeses que à época ocupavam parte da Região Nordeste do Brasil. Com o auxílio das forças de Nzinga, os holandeses conseguiram ocupar Luanda, de 1641 a 1648.

Em Janeiro de 1647, Gaspar Borges de Madureira derrotou as forças de Nzinga, aprisionando sua irmã, Bárbara. Com a reconquista definitiva de Angola pelas forças portuguesas de Salvador Correia de Sá e Benevides, que viria a ser o 23º Governador e Capitão-General de Angola, Nzinga retirou-se para Matamba, onde continuou a resistir.

Em 1657, um grupo de missionários capuchinhos italianos convenceram-na a retornar à fé católica, e então, o 27º Governador de Angola, Luís Martins de Sousa Chichorro, restituiu-lhe a irmã Bárbara, que ainda era mantida cativa.

Em 1659, Nzinga assinou um novo tratado de paz com Portugal. Ajudou a reinserir antigos escravos e formou uma economia que ao contrário de outras no continente, não dependia do tráfico de escravos.

Nzinga Mbande faleceu de forma pacífica aos oitenta anos de idade, como uma figura admirada e respeitada por Portugal. Na Angola actual é considerada a grande heroina do país e a “Mãe da Liberdade”.

Após a sua morte, 7 000 soldados de Nzinga Mbande foram levados para o Brasil e vendidos como escravos. Os portugueses passaram a controlar a área em 1671. Em certas zonas, Portugal não obteve controle total até ao século XX, principalmente devido ao seu tipo de colonização, centrado nas feitorias do litoral.

O nome de Nzinga Mbande tem muitas variações que, em alguns casos, são completamente distintos. Entre eles registam-se: rainha Nzinga, Nzinga I, rainha Nzinga Mdongo, Nzinga Mbandi, Nzinga Mbande, Jinga, Njinga, Singa, Zhinga, Ginga, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, rainha Nzingha de Ndongo, Ann Nzingha, Nxingha e Mbande Ana Nzingha.

ALGUMAS OBRAS SOBRE NZINGA MBANDE

JINGA, RAINHA DE MATAMBA
João Maria Cerqueira d’Azevedo
Edição do Autor
1949

GINGA RAINHA DE ANGOLA
Manuel Ricardo Miranda
Edição Oficina do Livro
2008

NJINGA - RAINHA DE ANGOLA
Filme
Realização: Sérgio Graciano (Portugal)
Com a actriz Lesliana Pereira
2014

A RAINHA GINGA
José Eduardo Agualusa
Edição Quetzal, Junho 2014

RAINHA JINGA – AS GUERRAS DE KWATA-KWATA
Argumento e desenho de Fernando Relvas
INÉDITO - TENTANDO ENCONTRAR EDITOR QUE PUBLIQUE A HISTÓRIA

Sentada sobre as costas de uma dama de companhia, a Rainha Jinga negoceia com os portugueses – numa gravura de 1687 

Pintura actual, baseada em gravura do século XIX 

No antigo largo do Kinaxixe (actualmente Praça Rainha Jinga) em Luanda onde já esteve a estátua da Maria da Fonte – monumento aos Combatentes da Grande Guerra –, está agora a estátua da rainha Jinga. Ao que parece, também já lá esteve um tanque soviético. 

Pormenor do monumento

O antigo largo do Kinaxixe e a Avenida dos Combatentes – foto de 1970 

Escultura da rainha Ginga, na Baía de Luanda, feita de ferro velho e pneus usados, da autoria de Ruthia d'O Berço do Mundo
Link do post onde aparece a imagem: http://bercodomundo.blogspot.pt/2015/01/uma-cidade-rebentar-pelas-costuras.html
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IMAGENS DO FILME NJINGA - RAINHA DE ANGOLA - de Sérgio Graciano






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domingo, 29 de março de 2015

1617 – A FUNDAÇÃO DA CIDADE DE BENGUELA + OS 400 ANOS DE TODOS OS GOVERNADORES PORTUGUESES DE ANGOLA: PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 9)


Manuel Cerveira Pereira 

O INÍCIO DA EXPLORAÇÃO 
DO SUL DE ANGOLA 
COM A FUNDAÇÃO 
DA CIDADE DE BENGUELA EM 1617

E A LISTAGEM DOS 400 ANOS DE TODOS OS GOVERNADORES PORTUGUESES DE ANGOLA
DE 1 DE FEVEREIRO DE 1575, 
A 10 DE NOVEMBRO DE 1975.

Manuel Cerveira Pereira foi o 8º Governador e Capitão-General da Feitoria portuguesa de Luanda e Angola (como já dissemos esta designação deriva do título Ngola, usado pelos soberanos do “Reino” de Ndongo) e foi nesse mandato que comandou a expedição que veio a resultar na criação do presídio e forte de Cambambe, nas margens do Rio Cuanza, perto da actual barragem hidroeléctrica – a Leste de Dondo.

 
Ruinas do Forte de Cambambe

Parece ter caído nas boas graças do rei Filipe II (de Castela, Portugal, Aragão, etc...), que o nomeou, a 10 de Dezembro de 1614, capitão-mor e conquistador do Reino de Benguela. O facto de ser considerado um dos mais experimentados oficiais portugueses nas campanhas militares no Ndongo pesou na sua nomeação de novo como Governador e Capitão-General, tornando-se agora, com o segundo mandato, o 11º no cargo, incumbido de “conquistar o reino de Benguela”, que marcaria o início da exploração portuguesa do Sul do território.


Cerveira Pereira fundeou na Baía de Santo António (anteriormente conhecida por Baía das Vacas), no dia 17 de Maio de 1617, sendo esta data considerada como a da fundação da Cidade de S. Filipe de Benguela, em homenagem ao rei, que se tornou então a sede do “Reino de Benguela”. Benguela é pois, a segunda cidade mais antiga de Angola, depois de Luanda. 


Segundo o historiador, escritor e editor Armindo Jaime Gomes, a origem da palavra Benguela provém “Do étimo mbenga, Benguela é a corruptela do verbo “okuvenga” da língua umbundu; okuvengela (sujar) / okumbengela ovava (sujar-me a água), relativamente às águas estagnadas e em língua portuguesa é entendido como turvar, turvar-se, perturbar, alterar, transtornar, escurecer, embaciar, nublar, enuvear (Pe. Alves, A., 1951). Evoluído de “mbengela”, a toponímia passou a significar perda de transparência, de limpidez, de clareza, perturbação, fazer perder a razão, cobrir o céu de nuvens, situação confusa, indefinição (op. cit.). Apesar de fazer parte da onomástica planáltica, a exemplo de Katombela, Mbaka, Kakonda, Civangulula, etc., a versão popular admite que o topónimo tenha resultado da distorção linguística nos primeiros contactos entre os portugueses e ambwi. Em vez do nome da região que se pretendia saber, os intrusos receberam a justificação da turvês das águas lacustres e fluviais.”

Contudo, já tinha existido uma povoação com o nome de Benguela, perto de uma aldeia chamada Kissonde, no limite Sul do “Reino” de Kissama – perto da foz do Rio Calala –, já em territórios umbundu. Os portugueses tentaram colonizar essa região em 1587, fundando uma povoação com o nome de Benguela. O povoado foi abandonado pouco depois mas em 1771 os portugueses voltaram ao local original e ergueram a povoação de Benguela Velha, actual Porto Amboim. O primeiro contacto entre os povos dessa região e os portugueses realizou-se no ano de 1587, por António Lopes Peixoto, a mando do seu tio Paulo Dias de Novaes, com o objectivo de erguer um fortim no local – com forma de baía – onde Diogo Cão havia passado sem atracar, para nele construir o povoado com a designação de Benguela, que acabou por ser abandonado, face à resistência das populações da região. Dos documentos conhecidos, sabe-se que António Peixoto terá mesmo erguido uma fortificação no morro do Kissonde, onde existe hoje um farol, erguido sobre os restos da antiga fortificação.

O morro de Kissonde, com o actual farol lá no alto...

Mas o “Reino de Benguela” de Cerveira Pereira, não durou muito. As fabulosas riquezas de cobre, supostamente em Sumbe-Ambela – um pouco a sul de Benguela – com que Manuel Cerveira Pereira sonhava, e tinha levado o rei a separar os dois “reinos", revelou-se um total fracasso. Um ano e meio após a sua chegada, o optimismo começou a desvanecer-se dos horizontes do conquistador. Depois de muitas guerras, a primeira "conquista" de Benguela acabou tragicamente na noite de 15 de Janeiro de 1619, terça-feira: Cerveira Pereira foi expulso de Benguela e posto à deriva em um batel ... com um mastro quebrado e uma vela rota, ... sem mantimento, ... sem cama e sem vestidos mais do que tinha quando ... o prenderam. Doente, praticamente cego de uma vista e na miséria, Cerveira Pereira chegou a Luanda, arrastado pela corrente, no dia 20 de Janeiro de 1619.
A seguir à sua morte ficou como governador interino Lopo Soares Lasso que, já depois de abandonar aqulea função governativa, em 1633, numa tentativa de dar guerra ao Ngola Njimbu, de Caconda (já o “reino” do Ndongo se encontrava fragmentado em vários potentados, sendo a Ngola Nzinga (Ginga) Mbande senhora da sua parte oriental e da Matamba), que tinha mandado avisar o governador que não havia razão para este lhe fazer guerra, que ele, soba, não queria; mas Lopo Lasso foi penetrando nas suas terras e sofreu uma derrota total. Salvou-se um único homem, angolano, que levou a triste nova ao 17º Governador e Capitão-General de Angola, Manuel Pereira Coutinho.

A pequena guarnição que ficou em Benguela, morria de fome. Sem comida, nem armas para se defenderem.

O cobre apareceu, séculos depois, mas não em Sumbe-Ambela!

Em 1641 a cidade foi tomada pelos holandeses e a população teve de se refugiar no interior, a cerca de 200 km do litoral. Sete anos depois, em 1648, Benguela foi libertada. Desde então passou a ser porta de passagem para o interior e a região desenvolveu-se muito. Em 1705 uma esquadra francesa destruiu a cidade quase completamente, mas entre 1710 e 1755 os benguelenses reconstruíram-na. As construções eram rudimentares, sendo a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, a primeira construção de pedra e cal.

LISTAGEM DOS 400 ANOS DE TODOS OS GOVERNADORES PORTUGUESES DE ANGOLA
DE 1 DE FEVEREIRO DE 1575, 
A 10 DE NOVEMBRO DE 1975:





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terça-feira, 17 de março de 2015

OCUPAÇÃO EFECTIVA DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS EM ÁFRICA – APÊNDICE AO PREÂMBULO “PARA UM HISTÓRIA DE ANGOLA” (Parte 1)

Um curioso cartaz, de que não sei a origem, encontrado na internet, que mostra as datas, até às quais, os territórios sublinhados a vermelho não faziam parte de "Angola"

OCUPAÇÃO EFECTIVA DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS EM ÁFRICA
APÊNDICE AO PREÂMBULO 
“PARA UM HISTÓRIA DE ANGOLA (Parte 1)"

Tal como afirmei na primeira parte deste Preâmbulo – Para uma História de Angola, sobre várias afirmações de angolanos que, actualmente, vêem no território da Angola actual a sua “querida pátria” (embora eu compreenda este sentimento), afirmando-o sem qualquer perspectiva histórica, como se aquele território se tivesse formado por resultado de uma conjuntura de vontades das nove etnias constituintes das populações de Angola, contudo as coisas foram completamente diferentes. Nem mesmo as afirmações propagandisticas do Estado Novo português, sobre os 500 anos de presença portuguesa no território corresponderam sequer à verdade. Publicaremos aqui, em breve, matéria sobre a Conferência de Berlim, que reuniu entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, a pedido de Portugal (que ali apresentou o projecto conhecido por mapa cor-de-rosa) e onde foi desenhado o novo mapa político de toda a Àfrica, dominada pelos colonizadores...

Evolução da ocupação de Angola e Moçambique depois da Conferência de Berlim, em 1884/85 e confronto com os interesses ingleses (em cor-de-laranja), que queriam (e obtiveram) "um corredor de possessões britânicas, desde Cape Tow até ao Cairo...

Deixo aqui um excerto do texto de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, do livro Histórias Coloniais, esclarecedor daquilo que digo acima:

A OCUPAÇÃO EFECTIVA DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS 

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus 

Os primeiros escravos negros surgiram em Portugal no ano de 1441. E em meados do século XVI, a cidade de Lisboa, numa população total de 100.000 habitantes tinha 10.000 escravos, quase todos negros. Nesse século terão saído de Angola muitos milhares de escravos angolanos, com destino ao Brasil, à América espanhola e ao continente português. A Coroa e as classes dominantes de Portugal, tiveram certamente a sua parcela de responsabilidade. Tal como a tiveram reis e chefes africanos que os caçavam e vendiam. De resto, ainda hoje existem em Portugal aldeias em que vivem gentes com a tez mais escura, descendentes de escravos negros.


A isto chamamos tráfico de escravos. Mas o colonialismo, ensina-o a ciência política, é coisa distinta. No plano jurídico, é a dominação imposta por uma minoria estrangeira a uma maioria «indígena», cultural e civilizacionalmente diferenciada. E esta dominação não é apenas política, mas também e sobretudo económica, com a exploração dos meios de produção e da força de trabalho. Por isso, insistimos em dizer que o colonialismo pressupõe domínio político, exploração económica e, portanto, ocupação efectiva. E continuamos a afirmar ser errado falar dos «500 anos de colonialismo» ou de «colonização portuguesa», na medida em que «colonização» é, em regra, definida como a fundação de colónias com povoadores próprios, num território ou país que não é o seu. Mais consideramos caricato ouvir antigos colonizados a utilizar um argumento da propaganda com que o Estado Novo tentava justificar o direito histórico de permanecer nas colónias e legitimar a guerra em sua defesa.

Com efeito, a ocupação efectiva de Angola (e de Moçambique) foi, durante séculos, muito limitada.

Numa conferência proferida na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, em 1932, o coronel Vicente Ferreira, engenheiro e professor no Instituto Superior Técnico, antigo ministro das Colónias e Alto-Comissário em Angola, recordava que, até meados do século XIX, «os europeus, portugueses ou estrangeiros, pouco conheciam do interior da África Tropical. Os estabelecimentos portugueses, em Angola e Moçambique, quase se limitavam a alguns pontos da orla marítima, onde existiam feitorias, postos de aguada e fortalezas ou presídios, que os seguravam contra os ataques dos indígenas e, sobretudo, contra as empresas dos corsários ingleses e holandeses».

Com efeito, como assinala o historiador Oliveira Marques, «por volta de 1830 ou 1840, a ocupação efectiva de Angola reduzia-se a uma estreita faixa costeira de 80 a 130 quilómetros de largura média, sem limites definidos para o interior. No Norte, o território ocupado alargava-se um tanto, abrangendo as duas margens do Zaire, até à actual Matadi, 171 quilómetros distante da foz, onde a nevegabilidade do rio se detém nas Quedas de Água de Livingstone. No Sul, a sueste da Benguela de hoje, a soberania portuguesa alcançava Caconda uns 240 quilómetros a oriente do mar. A própria linha costeira só se conhecia com pormenor até Benguela, antes da expedição naval das décadas de 1830 e 1840 que a traçou de forma científica até à Baía dos Tigres, 17º de latitude Sul».

A expansão para o interior desenrolou-se com avanços e recuos.

O primeiro período da ocupação terá começado em 1838, «com a conquista militar de um novo presídio, denominado Duque de Bragança, cerca de 80 quilómetros a Leste de Ambaca». Durante este período, «o interior de Luanda, num raio de 240 quilómetros, era a região mais desenvolvida». E é por volta de 1840 que a ocupação se expande para Sul de Benguela.

Ocupação portuguesa de Angola, por volta de 1830

No segundo período, de 1861 a 1877, a expansão para o Sul de Angola foi reduzida. E «apesar de Moçâmedes (Namibe) ter sobrevivido (com muito pouca ajuda de Luanda) a actividade colonizadora no planalto foi diminuta». Nessa altura, «as viagens por terra entre Luanda e Benguela e entre Benguela e Moçâmedes eram perigosas, por vezes suicidárias».

No terceiro período, de 1877 a 1891, verifica-se «um interesse renovado pela expansão para o interior, acompanhado do tradicional interesse costeiro». Os mapas que aqui inserimos ilustram o povoamento de Angola.

Em 1861, o povoamento no Norte alargara-se até Malange. E no Sul, até à Baía de Moçamedes e à Huila. Silva Porto, referindo-se ao tipo de povoadores do interior de Angola, escreveu: «Desertores, foragidos à justiça ou simples aventureiros, todos, de uma maneira geral, procuravam, na extensão das terras do interior a imunidade em relação às regras da sociedade europeia ou apenas uma melhoria de situação económica».

Ocupação portuguesa de Angola, por volta de 1861

Em 1876, quando «os últimos escravos angolanos terminaram o período de serviço que a Lei de 25 de Fevereiro de 1869 os obrigara a prestar aos seus antigos senhores, Angola era constituída por quatro distritos (Zaire, Luanda, Benguela e Moçâmedes), abrangendo uma área de cerca de 100.000 km2 na planície litoral e um vago controlo sobre entrepostos comerciais no interior. Cerca de 3.000 pessoas de origem europeia e quase meio milhão de indígenas habitavam esse território, cuja situação económica não era invejável, restringidas as exportações a bens resultantes de actividades de predação, tais como o tradicional marfim ou a cera, e à produção de algumas escassas plantações, principalmente de café».

Três mil pessoas quase em finais do século XIX, ou seja, um português por 415 quilómetros quadrados da Angola que hoje conhecemos.

Não tem, pois, qualquer sentido falar de «500 anos de colonialismo». É facto, que Portugal foi pioneiro no contacto com as populações das costas africanas, contactos que remontam ao século XV. E que os portugueses foram criando feitorias na costa, vocacionadas para o tráfico de ouro, de marfim e de escravos (actividade de responsabilidade partilhada entre comerciantes negreiros, chefes africanos escravistas e uma elite crioula de intermediários). Segundo Silva Porto, «até meados do século XIX, a África integrava-se no comércio internacional, através dos escravos que enviava para a América. Recebia manufacturas europeias, mas não dispunha de um produto de troca que pudesse interessar directamente a Europa». Nessa altura, como bem assinalou o historiador norte-americano Douglas Wheeler, «a colónia de Angola era pouco mais que uma “feitoria militar-comercial”».

Em meados do século XIX, «o médico alemão George Tams descreve pormenorizadamente a vida económica e social de cidades como Benguela, Luanda e Novo Redondo». De acordo com as suas observações, as movimentações dos núcleos litorâneos animavam-se a cada dia com a chegada de caravanas vindas do interior, carregadas de marfim, de cera e de urzela, mas também de escravos que entravam à noite em surdina, em razão das interdições que já se faziam sentir. Ao longo dos trajectos pela costa, entre Moçamedes e Ambriz, deparava-se com situações características de um comércio considerado ilegal, marcado por uma dinâmica imposta pela presença do esquadrão britânico e pelas leis europeias antitráfico. Tams «localiza agentes, feitorias de várias nacionalidades e barracões improvisados que se espalhavam por praias ermas e pequenos ancoradouros em zonas quase despovoadas, “essas belas solidões” que, só eram atravessadas quando os apanhadores de escravos as atingiam ».

Os grandes negreiros (Arsénio Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana e, ainda, as negras Ana Francisca Ferreira Ubertaly e Ana Joaquina dos Santos Silva) aparecem frequentemente nos textos de Tams, que escreve: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transação criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Ana Francisca Ferreira Ubertaly, viúva de um médico natural da Sardenha, um degredado que se estabelecera em Luanda, «tinha nascido no interior da África e havia sido trazida como escrava para Luanda, onde vivia então com pompa, manejando um próspero negócio de escravatura». Seria uma das pessoas que maior negócio faria com escravos. Quanto a Ana Joaquina dos Santos Silva, a «Rainha do Bengo» como era chamada pelos oficiais franceses que se hospedavam junto da sua casa, a sua riqueza teria resultado «não apenas dos benefícios alcançados através do tráfico, como da prática de comércio lícito e da exploração de terras que lhes pertenciam por herança ou por doação, recorrendo ao trabalho escravo». Ambas «possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao Norte de Luanda e em Moçamedes, e tanto uma como a outra subscreviam novos projectos. Ambas haviam participado da fundação da colónia de Moçamedes, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para tocarem propriedades, mas também para gerenciarem a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar». As Anas negreiras seriam, também, senhoras de roças em S. Tomé. De modo que a ocupação efectiva só começou depois da Conferência de Berlim (1884-1885), cujo Acto Geral, ao substituir os direitos históricos, forçou a um esforço rápido e praticamente impossível de envio de tropas e de funcionários civis para todas as áreas que Portugal pretendia suas. Envolvendo o país, nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, nas chamadas guerras de «pacificação». «Impunham-nos de fora, uma nova forma de acção, que se traduzia pela necessidade de avançarmos pelo sertão e de ocuparmos “em força” os territórios cujos domínios supúnhamos assegurado por solenes tratados», dizia o já referido coronel Vicente Ferreira. E assim, «só nas décadas de 40 e 50 do século XX é que a África “portuguesa” adquiriu os contornos que muitos ainda conhecemos». A presença efectiva de Portugal nas colónias africanas não terá, pois, excedido umas décadas.

Excertos dos livros Histórias Coloniais e O Trabalho Forçado – nas colónias portuguesas.

Os Mapas incluídos foram redesenhados por mim, a partir dos originais publicados no texto original (dos mapas de Douglas Wheeler, simplificados por Oliveira Marques), para melhor se perceberem as considerações do texto.

O texto original pode ser consultado aqui: http://macua.blogs.com/files/a-ocupa%C3%A7%C3%A3o-efectiva-das-col%C3%B3nias-portuguesas.pdf, com as subsequentes notas de rodapé, que não transcrevi na totalidade, para não dificultar a leitura no blogue.

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quinta-feira, 12 de março de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 8) – PAULO DIAS DE NOVAIS FUNDA UMA FEITORIA PORTUGUESA NA ILHA DE LOANDA EM 1575


PREÂMBULO 
PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 8)
PAULO DIAS DE NOVAIS 
FUNDA UMA FEITORIA PORTUGUESA 
NA ILHA DE LOANDA EM 1575 


Como vimos anteriormente, a 20 de Dezembro de 1559 Paulo Dias de Novais (neto de Bartolomeu Dias) recebeu instruções para integrar uma Embaixada de Portugal ao “Reino” do Ngola de Ndongo em 1560, juntamente com religiosos da Companhia de Jesus, que tinha como objectivo contactar o lendário “rei” do Ndongo, o Ngola Kiluanji.

Assim, a missão portuguesa, comandada por Paulo Dias de Novais, atracou na foz do rio Kwanza no dia 3 de Maio de 1560, com vários padres jesuítas, incluindo o notável jesuita Francisco de Gouveia. A missão portuguesa foi recebida com hostilidade e desconfiança pelo novo “rei” do Ndongo, o Ngola Kiluanje kia Ndambi, que os encarou como agentes do "rei" do Kôngo, mandando-os aprisionar. Mais tarde, com a promessa de conseguir apoio diplomático e militar português, Paulo Dias de Novais teve permissão para regressar a Portugal. Regressou em 1564, deixando o padre jesuíta Francisco Gouveia no território do Ngola.

Em 1571 o Rei D. Sebastião, providenciou a Dias de Novais carta para construir uma feitoria nas terras do Ngola, autorizando-o a fazer conquistas na região, levar para lá colonos e construir fortalezas. Dias de Novais partiu de Lisboa no dia 23 de Setembro de1574, acompanhado por mais dois padres da Companhia de Jesus, tendo chegado à Ilha de Loanda em Fevereiro de 1575 (exactamente há 440 anos), aportando com dois galeões, duas caravelas, dois patachos e uma galeota. Aí estabeleceu a primeira Feitoria portuguesa, com cerca de 700 pessoas, onde se encontravam religiosos, mercadores e funcionários, bem como 350 homens de armas.

A região já estava então fora da vassalagem ao “rei” do Kôngo, após a guerra deste com o Ngola de Ndongo, que havia afirmado a independência do seu “reino” em relação ao Kôngo. Contudo o “rei” Álvaro I do Kôngo (Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba – 1568-1574) concordou com a fundação da feitoria portuguesa em Loanda, em recompensa pelo apoio de Portugal contra o reino dos Jagas (reino este talvez situado no Kassange – formado por grupos étnicos diversos, predominantemente nómadas, que se caracterizavam por não trabalhar, dedicando-se à rapina e à violência sobre as populações e de que falaremos mais tarde).

FUNDAÇÃO DE LUANDA


A nova cidade ganhou o nome através da sua ilha (de Loanda), a que os portugueses chamaram inicialmente “ilha das Cabras”, local onde os primeiros colonos se radicaram, como dissemos atrás. O topónimo Luanda provém do étimo lu-ndandu. O prefixo lu, primitivamente uma das formas do plural nas línguas bantu, é comum nos nomes de zonas do litoral, de bacias de rios ou de regiões alagadas (exemplos: Luena, Lucala, Lobito) e, neste caso, refere-se à restinga rodeada pelo mar. Ndandu significa valor ou objecto de comércio e alude à exploração dos pequenos búzios colhidos na ilha de Luanda e que constituíam a moeda corrente no Reino do Kôngo e em grande parte da costa ocidental africana, conhecidos por zimbo ou njimbo.

Como os povos ambundos moldavam a pronúncia da toponímia das várias regiões ao seu modo de falar, eliminando alguns sons quando estes não alteravam o significado do vocábulo, de Lu-ndandu passou-se a Lu-andu. O vocábulo, no processo de aportuguesamento, passou a ser feminino, uma vez que se referia a uma ilha, e resultou em Loanda e mais tarde, Luanda.

Outra versão para a origem do nome refere que o mesmo deriva de "Axiluandas" (homens do mar), nome dado pelos portugueses aos habitantes da Ilha, porque quando ai chegaram e lhes perguntavam o que estavam a fazer, estes responderam "uwanda", um vocábulo que em kikongo, designava trabalhar com redes de pesca.

Ao Ngola Kiluanje kia Ndambi tinha entretanto sucedido Njinga Ngola Kilombo kia Kasenda, discípulo do padre Francisco de Gouveia que, na sua estadia forçada de dezena e meia de anos (desde 1560) na região, tinha aproveitado para fazer a sua acção evangelizadora entre os povos do Ndongo. No dia 29 de Junho de 1575, Paulo Dias de Novais recebeu uma comitiva enviada pelo Ngola para o saudar.

Reconhecendo não ser a ilha de Luanda o lugar mais adequado para construir a Feitoria, avançou para terra firme e fundou a vila de São Paulo de Loanda em 25 de Janeiro de 1576, tendo lançado a primeira pedra para a edificação da igreja dedicada a São Sebastião – santo de grande devoção dos portugueses e patrono onomástico do rei de Portugal –, no lugar onde é hoje o Museu das Forças Armadas.

Gravuras com aspectos da Luanda antiga

Foto de Luanda (vista a partir da Ilha - em primeiro plano), nos anos 1960.

A escolha do novo local para a vila foi influenciada sobremaneira pela existência de um magnífico porto natural, situado numa baía protegida pela ilha; de uma fonte de água potável, as águas do poço da Maianga na (então) lagoa dos Elefantes; e das excelentes condições de defesa oferecidas pelo morro de São Paulo.

A sua população constituída pela comitiva de Paulo Dias de Novais, composta por sapateiros, alfaiates, pedreiros, cabouqueiros, taipeiros, um físico e um barbeiro, tiveram dificuldades de adaptação à inclemência do clima e à carência de condições para a fixação. No entanto, a vila expandiu-se para a "Cidade Alta", na continuação do morro de São Paulo, onde se construíram as instalações para a administração civil e religiosa. Os soldados e os mercadores de escravos viviam na "Cidade Baixa", na área actual dos Coqueiros.

Em 1605, com o aumento da população europeia e do número de edificações, que se estendiam já de São Miguel ao largo fronteiro do actual Hospital Josina Machel, a vila de São Paulo de Luanda recebeu foral de cidade, sendo constituída a primeira vereação municipal.

Luanda tornou-se a partir de 1627 o centro administrativo da região – que se começou a chamar Angola (derivação do título Ngola, como já dissemos), mas cuja dimensão era muito limitada. Para a defender foi construída a Fortaleza de São Pedro da Barra, em 1618, e a Fortaleza de São Miguel de Luanda, em1634. Isto, no entanto, não evitou a sua conquista pelos holandeses e o domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, entre 1641 e 1648, quando o Rei português passou a ser Filipe II de Habsburgo, titular da “Monarquia de Madrid” (União dos reinos ibéricos de Castela, Aragão, Valência, Granada, Galiza e Navarra, a que se juntou Portugal – Monarquia que, mais tarde, se designaria por Espanha, derivativo da antiga Hispânia romana).

Incapaz de conquistar qualquer território por si mesmo, devido à escassez de forças de que dispunha, Dias de Novais fez alianças com ambos os reinos, do Kôngo e do Ndongo, servindo as suas escassas tropas como exército mercenário – apreciado pela eficácia, especialmente devido à cavalaria e às armas de fogo –, sobretudo na guerra contra os Jagas.

No entanto logrou alguns sucessos em termos de “conquistas” (sempre precárias), ocupando território entre o rio Bango e a confluência dos rios Kuanza e Lucala:

Pelos termos da Carta de Doação recebida, Novais deveria expandir o território para Norte até às margens do rio Dande (Bengo), para o Sul, e para o interior ao longo do curso do rio Kwanza. Tinha ainda a obrigação de construir uma igreja, fortalezas e de doar sesmarias, para assentamento dos colonos. Partiu em direção às terras do Ndongo, em busca das lendárias minas de prata de Cambambe, avançando pelo vale do Kwanza até à sua confluência com o rio Lucala, onde fundou a vila de Nossa Senhora da Vitória de Massangano, em 1583 (Fortaleza de Massangano).

Paulo Dias de Novais faleceu a 9 de Maio de 1589 em Massangano e lá foi sepultado, defronte da Igreja de Nossa Senhora da Vitória, em túmulo de pedra. As suas cinzas foram mais tarde transladadas para a Igreja dos Jesuítas em Luanda, pelo Governador Bento Banha Cardoso, em 1609.

Aspectos da Fortaleza de Massangano - estado actual

Mapa da zona em análise...

OS NGOLAS DO NDONGO

Ngola-a-Nzinga (c.1358) - Potentado legendário de que não se conhecem senão lendas...

Ngola Kiluanji Inene (c. 1515 - 1556)
Ndambi a Ngola (1556 - c.1562)
Ngola Kiluanji kia Ndambi (c. 1562 - c. 1575)
Njinga Ngola Kilombo kia Kasenda (c. 1575 -1592)
Mbandi Ngola Kiluanji (1592-1617)
Ngola Nzinga Mbandi (1617-1624)
Ngola Nzinga (a célebre rainha Jinga) Mbande (1624-1626) – depois Ngola da Matamba e da parte oriental de Ndongo (1626 -1663)

Em 1626 os Portugueses conquistaram a parte ocidental do Ndongo, o “reino” dos Ngola, passando este a ser vassalo de Portugal. Durante este período foram "reis" do Ndongo Dom Hari A Kiluanje que governou em 1626, e o Ngola Hari, que governou de 1627 a 1657.

Hari a Kiluanje (1626)
Ngola Hari (1626-1657)
Mukambu Mbandi (1663 - 1671) – na parte oriental do Ndongo, que incluia a Matamba, depois da morte de Nzinga (Jinga) Mbande

O Ngola A Kiluanje (1515-56) foi o lider do potentado mais destacado do “Reino” do Ndongo, sendo conhecido por Ngola A Kiluanje Inene (o Grande Ngola). O Ngola A Kiluanje Inene fundou uma dinastia do que mais tarde havia de ser conhecida como o Reino de Angola, que então compreendia, entre outros, os terrtórios da Ilamba, do Lumbo, do Hari, da Quissama, do Haku e do Musseke.

Inicialmente o Ndongo era um potentado vassalo do Reino do Côngo até o Ngola A Kiluange Inene se ter declarado independente.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 7) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (2) – A ENTRADA DOS PORTUGUESES NO NDONGO – O INÍCIO DO “NEGÓCIO” DOS ESCRAVOS



OS “REINOS” PRIMITIVOS (2)
A ENTRADA DOS PORTUGUESES 
NO NDONGO
O INÍCIO DO “NEGÓCIO” DOS ESCRAVOS

Se o “Reino” do Kôngo foi criado por populações Kikongo, os potentados a Sul do Kôngo e vassalos deste – entre os Rios Dande e Kuanza – eram de etnia Mbundo (Kimbundo, ou Ambundo). Ocupavam um território entre os dois Rios atrás mencionados e estendiam-se do Atlântico até ao Rio Kuango, divididos entre os “Reinos” do Ndongo, Kissama e Matamba. O “Rei” do potentado de Ndongo era designado pelo título de Ngola (que daria origem à palavra “Angola”).

Avanço do Ngola do Ndongo na guerra contra o Kôngo (c. 1560) e entrada na Matamba...

Em 1518 o Ngola do Ndongo enviou uma embaixada a Portugal pedindo missionários e, indirectamente, o reconhecimento da sua independência face ao Kôngo. Uma missão portuguesa chegou ao Ndongo em 1520 mas disputas locais e talvez a pressão do Kôngo forçou os missionários a abandonar o Ndongo. Afonso I (Mvemba-a-Nzinga) do Kôngo levou os missionários para Mbanza Kôngo e deixou o seu próprio padre no Ndongo.

Por volta de 1556, o Ngola do Ndongo enviou outra missão a Portugal procurando ajuda militar e oferecendo-se para ser cristianizado, mesmo apesar dos oficiais portugueses da altura terem duvidado da sua sinceridade religiosa. Em 1901, E. G. Ravenstein afirmou que esta missão foi o resultado de uma guerra entre o Kôngo e o Ndongo, na qual o Ndongo saiu vencedor e afirmou a sua independência. O mesmo disse Jan Vansina em 1966 (e a partir daqui vários outros escritores), porém isto parece ter sido uma incompreensão das fontes originais. O Ndongo poderá ter realmente visto a missão como uma espécie de declaração de independência, já que a resposta do Kôngo à missão de 1518 sugere que ainda mantinha poder suficiente para prevenir movimentos independentistas.

De qualquer forma, a segunda missão portuguesa, liderada por Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias, atracou na foz do rio Kwanza em 1560, juntamente com vários padres jesuítas, incluindo o notável Francisco de Gouveia. A missão de Dias de Novais falhou igualmente, tendo ele voltado a Portugal em 1564, deixando o padre jesuíta Francisco Gouveia no território.

Contudo, antes de falarmos de Paulo Dias de Novais, que mais tarde, voltaria ao Ndongo para fundar a primeira feitoria portuguesa no território (a cidade de Luanda), será necessário – para percebermos o contexto – evocar os acontecimentos no outro lado do Atlântico, no Brasil, e a questão da escravatura e do comércio da mesma, que os portugueses já praticavam nas sua feitorias da Guiné (Arguim) e no Golfo da Guiné (São Jorge da Mina).

Apesar da escravatura ser tão antiga como a espécie humana – desde que grupos humanos entraram em guerras uns com os outros e fazendo dos vencidos seus escravos –, não vamos recuar tanto na sua análise, senão nunca mais sairíamos daqui. Falemos apenas do que ocorreu no Brasil e o que deu origem ao tráfico “negreiro” com Angola.

No que viria a ser o Brasil, a escravatura já era praticada pelos índios, na sua forma mais primitiva, muito antes da chegada dos europeus. Entre os tupinambás, que eram antropófagos, a maioria dos escravos eram capturados nas tribos inimigas e acabavam por ser devorados. Porém, entre a captura e a execução, eles poderiam viver como escravos durante anos. Entre os tupinambás a escravidão não tinha nenhum valor económico. Os cativos apenas serviam para serem exibidos como troféus de valor militar e honra ou como carne a ser devorada em rituais canibalescos que poderiam acontecer até mesmo ao fim de quinze anos após a captura. Os escravos eram incorporados na comunidade, sendo que algumas escravas se casavam com os homens da tribo. Porém, os cativos reconheciam-se como escravos e como homens derrotados e o sentimento de degradação entre eles era muito forte.

A instituição da escravatura europeia no Brasil toma forma com a grande propriedade da monocultura, na década de 1530. Portugal contava com pouco mais de 2 milhões de habitantes na época e mal podia arcar com a perda de mão de obra para as expedições para o Oriente, que viviam o seu auge. E, assim como para qualquer outro colono europeu, não era interessante para o português migrar para os trópicos para ser um simples trabalhador do campo. "A escravidão tornou-se, assim, uma necessidade: o problema e a solução foram idênticos em todas as colónias tropicais e mesmo subtropicais no continente americano.” 


A primeira forma de escravidão no Brasil foi dos gentios da terra ou negros da terra, os índios, especialmente na Capitania de São Paulo onde os seus moradores pobres não tinham condições de adquirir escravos africanos, nos primeiros dois séculos de colonização. A escravização de índios foi mais tarde proibida pelo Marquês de Pombal. Eram considerados pouco aptos para o trabalho.

É interessante verificar que os portugueses tratavam os africanos abaixo do Sahara por “pretos”, mas quando os transformavam em escravos passavam a ser “negros”, tal como os escravos índios, aliás, que eram os “negros da terra” – portanto a palavra “negro” era sinónimo de “escravo”.

No Brasil, a escravatura africana teve início com a produção canavieira (cana do açucar) na primeira metade do século XVI como tentativa de solução à "falta de braços para a lavoura", como se dizia então. Os portos principais de desembarque de escravos eram no Rio de Janeiro, na Bahia Negros da Guiné, no Recife e em São Luís do Maranhão.


Os portugueses, brasileiros e mais tarde os holandeses traziam os negros africanos das suas feitorias em África para os utilizar como mão-de-obra escrava nos engenhos de rapadura do Nordeste. Os comerciantes de escravos vendiam os africanos como se fossem mercadorias, as quais adquiriam de tribos africanas que haviam feito prisioneiros de guerra. Os mais saudáveis chegavam a valer o dobro dos mais fracos ou velhos. Eram mais valorizados, para os trabalhos na agricultura, os negros Bantu (ou Benguela ou do Kôngo), provenientes especialmente de Angola e Moçambique, e tinham menos valor do que os que vinham do centro oeste da África, os negros Mina ou da Guiné, que receberam este nome por serem embarcados no porto de São Jorge de Mina, na atual cidade de Elmina, e eram mais aptos para a mineração, trabalho no qual já se dedicavam na África Ocidental. Por ser a Bahia mais próxima da Costa da Guiné (África Ocidental) do que de Angola, a maioria dos negros baianos são designados “Minas”...

Fortaleza da feitoria de São Jorge da Mina na actualidade (Elmina)

Rotas do tráfico negreiro de África para o Brasil...

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 6) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (2) – GRUPOS ÉTNICOS EM ANGOLA

OS GRUPOS ÉTNICOS EM ANGOLA 

Como já dissemos anteriormente, os povos Bantu deslocaram-se para o Sul de África em três fases, sendo que não o fizeram em massa. Formaram-se vários grupos que se deslocavam, durante séculos – ao longo dos primeiros mil anos da era de Cristo – e deambularam por vastas regiões da África sub-shariana até se fixarem. Desse modo entraram no território que é hoje Angola em várias fases e não todos pelas mesmas regiões: uns pelo Norte, outros pelo Leste e outros pelo Sudeste. Claro que os grupos dos bantu que se foram formando ao longo destas viagens, foram modificando as suas formas de falar (separados como estavam uns dos outros), até ficarem com diversos dialectos diferentes entre si. Daí que os grupos que entraram no actual território angolano se diversificaram em basicamente nove grupos diferentes, como se pode ver no mapa abaixo:

Mapa da distribuição das etnias de Angola. O grupo Khoisan, disperso pelo Sul é o único não bantu e representa os anteriores ocupantes do território antes da chegada dos bantu.

Assim, o “Reino” do Kongo era composto por Bakongos – que falavam a língua Kikongo – sendo que os outros “reinos” primitivos eram originários de diferentes etnias (apesar de todas com o mesmo substrato comum banto). Os “reinos” de que falaremos a seguir, Ngongo e Matamba, são de etnia Mbundu e cujo território veio a ser a origem da colónia portuguesa de Angola.

Interessante mapa (encontrado na internet) que mostra os territórios de Angola livres do domínio português até ao século XIX:


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