BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

COMO OS EUROPEUS RETALHARAM A ÁFRICA – A CONFERENCIA DE BERLIM (1884/85) – PREÂMBULO PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 12)


PREÂMBULO PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 12) 

COMO OS EUROPEUS 
RETALHARAM A ÁFRICA

A CONFERENCIA DE BERLIM 
(1884/85)

Depois da independência do Brasil, declarada em 1821, mas cuja efectivação se arrastaria até 1825, quando foi reconhecida por Portugal, o governo português, depois também do desassossego das guerras liberais, entre 1828 e 1834, começou a equacionar a questão do império colonial. 
Sem o Brasil, haveria que reconstruir o império em África.

Em 1877 foi lançado, por João de Andrade Corvo, um conjunto de iniciativas de exploração destinadas a conhecer a zona do interior africano, que separava as feitorias de Angola e Moçambique. Era uma ideia que teve origem no projecto do governador de Angola Francisco de Sousa Coutinho, de 1788, com o mesmo objectivo e que só não teve sucesso porque o Dr. Lacerda e Almeida, que se abalançou à travessia do continente, faleceu antes de atingir, em 1797, as nascentes do rio Zaire. Silva Porto (comerciante no Bié, actual Kuito) tentou a travessia em 1853-1854, mas adoeceu gravemente quando atingiu o Luy – ou Barotze –, um “império” a sul do Katanga. Sem poder continuar, enviou o seu pombeiro (capataz dos carregadores da expedição) João da Silva para terminar a viagem e este atingiu o Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Mais tarde, Silva Porto encontrou-se com Livingstone no Barotze.

Toda esta actividade na exploração dos territórios entre as feitorias de Angola e Moçambique, levou à criação da Sociedade de Geografia de Lisboa no último dia do ano de 1875. E foi sob a égide desta Sociedade que se realizaram as famosas expedições de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens – de Angola à Contra-Costa em 1884/1885 –, integradas numa nova estratégia portuguesa para o continente Africano, que privilegiava a ocupação efectiva através da exploração e colonização em detrimento dos simples direitos históricos. Pretendia-se assim romper com a precariedade das então “feitorias” portuguesas nas costas africanas, destinadas, desde o início (em 1576, com a fundação da cidade-feitoria de Loanda) ao comércio de escravos para o Brasil e pouco mais, transformando-as em colónias efectivas. Desta conjectura nasceria a ideia do “mapa cor-de-rosa”. Também Serpa Pinto havia já tentado a travessia de Angola a Moçambique, em 1877, mas errou o "alvo" – a costa de Moçambique –, terminando a sua viagem em Durban, na África do Sul.



É preciso dizer que desde finais do século XVIII, havia no interior de África uma legião de exploradores geográficos europeus, de diversos países, sendo o mais conhecido o britânico David Livingstone (desde 1849), percorrendo todo o continente à procura de referências geográficas e cartografando-as. Além dos portugueses referidos acima, podem contar-se também os casos de José de Anchieta, Teixeira de Sousa, etc, etc…

No entanto, em 1876 o rei Leopoldo II da Bélgica (reino independente apenas desde 1830), estava bem informado do que se passava em África e quis ter uma colónia no continente “negro”. Organizou uma Conferência Geográfica em Bruxelas em 1876, com a presença da França, Alemanha, Inglaterra, Áustria e Rússia (Portugal e Espanha não foram convidados) e onde, a pretexto de querer ficar com uma fatia africana, fundou a Association Internacionale Africaine. Reivindicou o território que é hoje a República Democrática do Congo, ex Zaire, que passou a designar por Estado Livre do Congo. Assim, um monarca europeu passava a ser proprietário pessoal de um bom bocado da África. Só em 1908 o Congo se tornou colónia do estado belga.

Fotos que mostram o tratamento dado pelos agentes de Leopoldo II aos africanos (era-lhes amputada uma das mãos) que "trabalhavam" para a sua Association Internacionale Africaine, no Estado Livre do Congo e o selo postal comemorativo da passagem da propriedade da colónia para o estado belga.
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Ilustração que retrata a Conferência de Berlim, com o mapa gigante de África na parede. Otto von Bismarck está no primeiro plano da mesa, a olhar directamente para o ilustrador.

Mas nenhum país europeu viu com bons olhos as manobras de Leopoldo II. Alguns anos mais tarde, o chanceler prussiano-alemão Otto von Bismark organizou uma conferência a sério para tratar da colonização da África. A Conferência de Berlim iniciada em 19 de novembro de 1884 (e que terminaria a 26 de fevereiro de 1885), na Chancelaria do Reich, em Berlim, com a participação, além do Império Alemão, da Grã-Bretanha, França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Império da Áustria-Hungria e do Império Otomano. Os Estados Unidos da América participaram como observadores, uma vez que a única colónia que tiveram em África foi a Libéria, formada por escravos africanos libertos, entre 1816 e 1824 – data em que a Libéria proclamou a sua independência. A Libéria foi o segundo país independente de África (após o início da época das colonizações), juntando-se à Abissínia (actual Etiópia), cujo território nunca foi colonizado – embora tivesse sido ocupado, durante meia dúzia de anos (1935-1941), após a conquista pelo regime italiano de Mussolini.

Mapa de África antes da Conferência de Berlim

Mapa esquemático dos "reinos" africanos existentes na altura e as possessões europeias em África antes de 1884

As colónias europeias antes da Conferência de Berlim, alguns dos estados africanos pré-existentes e os trajectos das explorações por diversos exploradores, especialmente britânicos, franceses e alemães.

Mas o objectivo da Conferência acabou por ser mais lato do que o pretendido pelos portugueses. Tornou-se na oportunidade para se definirem as regras de ocupação da África pelas potências coloniais europeias. Assim, perante um mapa de África com cinco metros de altura na sala do Reichstag alemão – que mostrava o continente africano, com rios e lagos, como referências já conhecidas ou fictícias, os nomes de alguns locais e muitas manchas brancas – e onde, sem qualquer respeito pela história dos estados nativos existentes, nem pelas relações étnicas e mesmo familiares dos povos desse continente, foram traçadas as fronteiras das futuras colónias europeias.

Podemos acrescentar que esta divisão aleatória seria a origem de quase todas as guerras, após as independências dos países delimitados pelas fronteiras desenhadas na Conferância. Curiosamente nunca houve em África guerra alguma no século XX motivada por questões de delimitação de fronteiras ou tentativas de conquista de espaços vizinhos das antigas colónias. As guerras foram todas provocadas pelas divisões de antigos estados, ignorados pelos europeus, ou entre tribos divididas pelas fronteiras estabelecidas em Berlim.

O Império Alemão que, sob o governo de Bismarck derrotara a França de Napoleão III em 1870, não tinha qualquer colónia em África. Pelo que as suas pretensões foram atendidas com a atribuição de territórios – passando a administrar o Sudoeste Africano (actual Namíbia) e o Tanganica (actual Tanzânia).

O “mapa cor-de-rosa” português obteve aprovação unanime. Como resultado desta conferência, a Grã-Bretanha passou a administrar toda a África Austral, com excepção do interland entre as colónias portuguesas de Angola e Moçambique, resultante do Mapa “cor-de-rosa”. Ficando também de fora do domínio britânico o Sudoeste Africano, e toda a África Oriental, onde administraria apenas o Quénia, partilhando a costa ocidental e o norte com a França, a Espanha e Portugal (Guiné-Bissau e Cabo Verde); e o Congo – que estava também no centro da disputa, aliás o nome da Conferência em alemão foi mesmo o de “Conferência do Congo” – continuou como “propriedade” da Associação Internacional do Congo, cujo principal accionista era, como já vimos, o rei Leopoldo II da Bélgica; este país passou ainda a administrar os pequenos reinos das montanhas a leste, o Ruanda e o Burundi.

Mapa inglês de 1883, a base do "mapa cor-de-rosa", em que o território ocupado em Angola está francamente exagerado - seria talvez metade da área colorida, em largura.

O Mapa que resultou da Conferência de Berlim, depois da interferência de Cecil Rhodes e do ultimatum inglês, de 11 de Janeiro de 1890.

Ao tomar conhecimento do acordo da Conferência de Berlim, Cecil John Rhodes (1853-1902) – presidente da Companhia Britânica da África do Sul e que foi mesmo financiador das guerras do nkosi (régulo) nguni Ngungunhane (Gugunhana) contra os portugueses no sul de Moçambique – cujo principal objectivo político-comercial era determinado pela construção de um caminho-de-ferro entre o Cairo e a cidade do Cabo, atravessando a África de Norte a Sul (que nunca seria construído), opôs-se veementemente à pretensa ocupação portuguesa do interland africano entre Angola e Moçambique. A sua acção política junto do então primeiro ministro britânico, o marquês de Salisbury, Sir Robert Gascoyne-Cecil, fez com que o governo de Sua Magestade, à margem do Tratado de Windsor, enviasse ao governo português um ultimatum, em 11 de Janeiro de 1890, exigindo a remoção daquela pretensão portuguesa, que havia sido aprovada na Conferência de Berlim, ameaçando com represálias militares. Contudo, a pretensão de Cecil Rhodes seria mesmo frustrada, devido à atribuição do desmesuradamente grande território do Congo ao rei Leopoldo II da Bélgica e da atribuição do Tanganica à Alemanha (África oriental Alemã). Não chegou a existir nenhum "corredor" contínuo de territórios britânicos, do Cabo ao Cairo.

Caricatura da época representando Cecil Rhodes sobre o mapa de África, com um pé no Cairo e o outro no Cabo...

A destruição do mapa cor-de-rosa pelos ingleses - a verde. Os territórios entre o que viram a ser Angola e Moçambique, prontamente ocupados pela Inglaterra, seriam designados por Rodésia (ou Rhodesia) em homenagem a Cecil Rhodes. Seriam depois divididos em Rodésia do Norte (actual Zâmbia) e Rodésia do Sul (actual Zimbabué). Depois de uma pretensa independência em 1965 (que duraria até 1979), os estados daí resultantes nunca foram reconhecidos pela comunidade internacional.

Projecto da divisão administrativa de Angola, mapa de 1900.

E os portugueses, perante a ameaça da força conhecida dos exércitos britânicos, retiraram timidamente as suas pretensões. Contudo foi nesta Conferência que nasceram os territórios coloniais de Angola e Moçambique, que dariam origem, em 1975, aos países respectivos, com as fronteiras que hoje lhes conhecemos. Os territórios actuais de Angola e Moçambique não existiam antes de 1884 e a colonização efectiva só ocorreu depois desta data.

A questão do ultimatum britânico, como sabemos, daria origem à cada vez mais agressiva movimentação dos militantes pró-republicanos, primeiro com a revolta de 31 de Janeiro de 1891 no Porto e levaria mesmo à queda da monarquia em Portugal em 5 de Outubro de 1910.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A LONGA HIBERNAÇÃO DE PORTUGAL EM ANGOLA ENTRE 1580 E 1834 – PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 11)

PREÂMBULO
PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 11)
A LONGA HIBERNAÇÃO 
DE PORTUGAL EM ANGOLA 
ENTRE 1580 E 1834

É preciso fazer uma pequena introdução histórica – política e militar – dos acontecimentos no Reino de Portugal, para se perceberem as causas da longa hibernação de Portugal em Angola, entre os anos de 1580 e 1834.

As feitorias portuguesas de África, entraram em franca decadência depois da morte de Sebastião I na batalha de al Quasr al-kibr em 1578, a que se seguiu o curto reinado do seu tio, o Cardeal Henrique I, focado apenas na sucessão do trono, em que fez tudo e mais alguma coisa para impedir que o filho legitimo do seu irmão Luís, o infante António (Prior do Crato), ocupasse o trono a que tinha direito, dando preferência ao seu outro sobrinho, Filipe II de Castela. Este acabou por conquistar o trono português através da compra da nobreza do reino e da guerra contra o primo António.

 António I, rei de Portugal entre 24 de Julho de 1580 a 16 de Abril de 1581 e Filipe II, de Castela, Aragão e etc…, rei de Portugal – como Filipe I – entre 16 de Abril de 1581 a 13 de Setembro de 1598

Depois da conquista do trono português em 1580, quando as tropas do duque de Alba derrotaram a pequena força de António I na batalha de Alcântara, Filipe II acrescentou o título de Rei de Portugal e das Índias Orientais (após as Cortes de Tomar, em 16 de Abril de 1581) à sua vasta titulatura: Pela Graça de Deus, Rei de Castela, de Leão, de Aragão, das Duas Sicílias, de Jerusalém, de Navarra, de Granada, de Toledo, de Valência, da Galiza, de Maiorca, de Sevilha, da Sardenha, de Córdova, da Córsega, de Múrcia, de Jáen, dos Algarves, de Algeciras, de Gibraltar, das Ilhas de Canária, das Índias Ocidentais, Ilhas e Terra Firme do Mar-Oceano, Conde de Barcelona, Senhor da Biscaia e de Molina, Duque de Atenas e de Neopátria, Conde de Rossilhão e da Cerdanha, Marquês de Oristano e de Gociano, Arquiduque de Áustria, Duque da Borgonha, do Brabante e de Milão, Conde de Habsburgo, da Flandres e do Tirol, etc… Contudo, não lhe interessavam para nada as minúsculas e improdutivas feitorias africanas dos seus novos súbditos. As suas atenções concentravam-se apenas no ouro que lhe chegava das Índias Ocidentais – leia-se América do Sul, como mais tarde foram denominadas.

O império filipino...

Filipe II “comprava” guerras por toda a Europa. Muito especialmente com a Inglaterra, de que fora rei consorte entre 1553 e 1558, pelo seu casamento com a rainha Maria I. A tentativa gorada de invasão da Inglaterra, com a sua Armada “Invencível”, levou à destruição de quase toda a armada portuguesa na batalha de 28 de Julho de 1588, no canal da Mancha. No entanto o seu principal problema foi sobretudo o das Províncias Unidas dos Países Baixos (Flandres e Holanda), de que era rei – por herança de seu pai Carlos V de Habsburgo – e que haviam proclamado a independência em relação ao império dos Habsburgo, em 1579. Deste modo, os holandeses passaram também a atacar todos os territórios portugueses de “além-mar”. Em 1630 conquistaram São Salvador da Baía, Olinda, Recife e Pernambuco, no Brasil. Em 1631 foi a vez de São Jorge da Mina e depois em 1640 conquistaram São Tomé e Príncipe e Luanda. Ocuparam grande parte do litoral angolano - Benguela, Santo António do Zaire, as barras do Bengo e do Cuanza. Em 1641, já depois da restauração da monarquia portuguesa, os holandeses conquistaram Málaca, no extremo oriente, depois de um cerco de cinco meses.

 
A Batalha do Cabo Rachado, no Estreito de Malaca, deu-se em 18 de Agosto de 1606 entre uma armada portuguesa comandada pelo Vice-Rei da Índia, Dom Martim Afonso de Castro, e uma armada holandesa comandada pelo Almirante Cornelis Matelieff de Jonge, tendo-se saldado numa vitória táctica portuguesa, já que os navios da VOC retiraram com baixas superiores às portuguesas. Contudo a vitória não foi convenientemente explorada pelo Vice-Rei o que mais tarde levou à sua derrota.
Em 1648 no Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides preparou uma frota de 15 navios sob o pretexto de levar ajuda aos portugueses sitiados pelos guerreiros da rainha Nzinga em Angola. Partiu do Rio de Janeiro a 12 de Maio e, através de contactos com padres Jesuítas, conseguiu reconquistar Luanda em 15 de Agosto. A campanha prolongou-se de 1648 a 1652, recuperando os territórios perdidos em Angola e a ilha de São Tomé para os portugueses.

Entretanto no território de Angola, Benguela foi assumindo aos poucos o controlo sobre um pequeno território a norte e leste, e iniciou por sua vez o tráfego de escravos, com a ajuda de intermediários africanos radicados no Planalto Central de Angola. Neste Planalto existia um aglormerado de “reinos” – intitulados “do Planalto Central”, de etnia Ovimbundo – ocupando uma vasta área entre as falésias do planalto e o curso inicial do Rio Kuanza.

Os Ovimbundu nunca tiveram uma estrutura política central, como os Bakongo e os Ambundu. Possuíam uma organização complexa de 22 “reinos”, às vezes confederados, com chefes que governavam entre 3 a 300 aldeias. Porém, nunca estiveram profundamente divididos, quer linguística, que politicamente. Só em 1902, o governador do distrito de Benguela, general Joaquim Teixeira Moutinho, organizou e comandou a Coluna do Sul, que actuou com duas outras forças militares na Campanha do Mbalundu. Estabeleceu a soberania portuguesa no Huambo, tendo-se fortificado na localidade de Huambo, onde depois se ergueu a cidade de Nova Lisboa.

Ocupação portuguesa de Angola antes da Conferência de Berlim em 1884/85.
Os limites do território angolano aprovados nessa Conferência estão desenhados e tracejado, com as datas das respectivas efectivações da ocupação.

As campanhas do planalto central, em 1902, evidenciaram a resistência das monarquias vigentes no Mbalundu (Bailundo), Viye (Bié – Kuito), Wambu (Huambo) e de outros reinos independentes, apesar da presença militar na região. Até que a dominação portuguesa se viesse a efectivar, os “reis” Ekuikui II, Mutu ya Kevela, Ndunduma..., seriam alguns dos mais destacados de toda uma resistência, que se estabeleceu entre as últimas décadas do século XIX e o primeiro quartel do século XX.

Embora tenha havido , desde o início da sua presença em Luanda e Benguela, ocasionais incursões dos portugueses para lá dos pequenos territórios sob o seu controlo, esforços sérios de penetração no interior apenas começaram nas primeiras décadas do século XIX, abrandado em meados daquele século, mas recomeçando com mais vigor nas suas últimas décadas. Estes avanços eram em parte militares, visando o estabelecimento de um domínio duradouro sobre determinadas regiões, e tiveram geralmente que vencer, pelas armas, uma resistência maior ou menor das respectivas populações. Em outros casos tratou-se, no entanto, de criar apenas postos avançados, destinados a facilitar a extensão de redes comerciais. Formas particulares de penetração económica foram também desenvolvidas no Sul, a partir de Moçâmedes (hoje Namibe). Finalmente, houve naquele século a implantação das primeiras missões católicas para lá dos perímetros controlados por Luanda e Benguela.

Voltando à questão holandesa, depois de uma guerra que se prolongou no oriente, em 1661 firmou-se o tratado de paz de Haia. Portugal aceitou as suas perdas na Ásia – Malaca, Ceilão, Cochim, Malabar, etc, etc… –, comprometendo-se os holandeses a pagar oito milhões de Florins, equivalente a sessenta e três toneladas de ouro, como indemnização pela sua "usurpação e saque" do Nordeste brasileiro, reconhecendo a soberania portuguesa. Este valor foi pago em prestações, ao longo de quarenta anos e sob a ameaça de invasão de Haia pela Marinha de Guerra portuguesa. Já nesse ano de 1661, a cidade de Bombaim, na Índia, havia sido cedida a Inglaterra como dote do casamento entre a princesa Catarina de Bragança e Carlos II de Inglaterra. Portugal perderia para sempre a sua anterior proeminência no Oriente.

Conquista de Cochim, pelos holandeses.

Em 12 de Fevereiro de 1761, o Marquês de Pombal proibiu o tráfico de escravos no território do Reino de Portugal, que por este facto foi pioneiro no abolicionismo. No início do século XIX, juntamente com a Grã-Bretanha, Portugal proibiu novamente o comércio de escravos, e em 1854 por decreto foram libertos todos os escravos que restavam. Dois anos mais tarde, também foram libertos todos os escravos da Igreja nas colónias. A 25 de Fevereiro de 1869 deu-se finalmente a abolição "prática" e completa da escravatura no Império Português.


Segundo os estudos mais recentes, foram transportados de África para o continente americano (com vida), cerca de 12 milhões de escravos (o total efectivo, que inclui os mortos durante a travessia do Atlântico, é muito superior), distribuídos pelos seguintes destinos:
Fazendo as contas, os portugueses transportaram de África (de Arguim, Goreia, São Jorge da Mina, Ajudá, Moçambique, mas muito especialmente de Angola), cerca de 4 milhões de escravos, que chegaram vivos ao Brasil – um terço do total!!! 


As fronteiras de Angola, como veremos em próximo texto, só seriam definidas nos finais do século XIX, na Conferência de Berlim, passando a sua extensão a ser muitíssimo maior do que a do território dos Ambundu, a cuja língua o termo Angola está associado.

Mas antes de abordarmos a Conferência de Berlim, em 1884/85 e a sua antecessora Conferência de Bruxelas, em 1876, iremos falar um pouco sobre as explorações geográficas no interland angolano.

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segunda-feira, 27 de julho de 2015

O BATALHÃO DE CAÇADORES 4910/74 - QUE NOS ANTECEDEU NO LUSO

O BATALHÃO DE CAÇADORES 4910/74
QUE NOS ANTECEDEU 
NA CIDADE DO LUSO

Afinal não vou ainda colocar a história do AB4 porque, continuando a pesquisa sobre unidades militares portuguesas em Angola em 1975, dei com um historial do Batalhão de Caçadores 4910/74 (BCAÇ 4910/74), da Madeira, que fomos render na cidade do Luso. É um post com a imagem do blogue https://coelhopresidente.wordpress.com/2014/09/16/breves-historias-do-batalhao-491074/ publicado por José Manuel Coelho, que foi candidato nas últimas eleições madeirenses pelo Partido Trabalhista Português e integrou o BCAÇ 4910/74 como soldado de transmissões, fazendo hoje parte da trapalhada política da Madeira. Trata-se de um extracto do “diário de campanha” deste ex-militar – escrito portanto no dia-a-dia, com toda a precisão factual que estes escritos têm. O BCAÇ 4917/74 esteve em Angola entre 4 de Setembro de 1974 e 5 de Outubro de 1975, seguindo depois no navio Niassa de Lisboa para a Madeira.

Como se pode ler no final da terceira página, José Manuel Coelho anotou a chegada da 2ª Companhia do BART 6221/74 ao quartel (na sexta-feira, 23 de Maio de 1975) que eles ocupavam no “centro da cidade” do Luso. Bom, não era bem no centro, mas quase no vértice nordeste da cidade. Contudo refere mesmo o nosso acidente no Alto Dondo de que resultaram quatro mortos e oito feridos. É um documento interessante que não quis deixar de republicar aqui.

Nota: não foi possível reverter o texto para Word, dada a fraquíssima qualidade das imagens.


 
 
 
 
 

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sábado, 25 de julho de 2015

AFINAL HAVIA OUTRO… BATALHÃO NO LESTE DE ANGOLA

AFINAL HAVIA OUTRO… 
BATALHÃO NO LESTE DE ANGOLA

Pois, haverá dois ou três dias, quando comecei a pesquisar unidades do exército português em Angola em 1975, eis senão quando, dou de caras com o BCAV 8322/74, que esteve estacionado em Henrique de Carvalho (Saurimo). Partiu de Lisboa (depois de se concentrar em Viana do Castelo) para Luanda entre 18 e 22 de Maio de 1975. Deslocou-se depois para Henrique de Carvalho – com companhias em serviço em Cambambe e Camissombo (quase na fronteia com o Zaire). A 29 de Agosto (nós saímos do Luso a 17) deslocou-se para o Dondo e em 30 de Outubro embarcou para Lisboa. Portanto eles foram mesmo “os últimos no Leste”. Contudo vou considerar o BART 6221/74 e o BCAV 8322/74 os Últimos Batalhões no Leste de Angola. O historial do BCAV 8322/74 fica aqui publicado (sacado no blogue deles: http://saurimo.blogspot.pt/) e será depois inserido em anexo no livro. O que é espantoso nisto tudo é que, ao que parece, nem nós nem eles sabíamos da presença uns dos outros – a “apenas” 266 km de distância, ou seja a quatro horas e meia, de caminho em carro.


Entretanto soube que o ex-furriel José Ventura, do BCAV 8322/74, vive aqui nas Caldas. Encontrei-me com ele ontem à tarde e a conversa foi muito interessante. Registei o encontro como se pode ver na foto abaixo.

Os ex-Furriéis José Ventura (BCAV 8322/74) e Jorge Dias (BART 6221/74) em 17 de Julho de 2015, Caldas da Rainha.

BATALHÃO DE CAVALARIA 8322/74
HENRIQUE DE CARVALHO (SAURIMO) – LUANDA

 Claro que eu tinha que redesenhar o Brasão do BCAV 8322/74, ou não fosse um "perfeccionista" que detesta a maneira como a heráldica militar foi tratada durante a guerra colonial. Feitios.

Historial do Batalhão

O Batalhão de Cavalaria 8322/74 foi mobilizado nos termos da nota número 5153/PM de 12 de Outubro de 1974 da 1º Repartição do E.M.E., sendo constituído com base no 4º turno de 1974, tendo como unidade mobilizadora o Regimento de Cavalaria Nº3 de Estremoz, onde no dia 5 de Março de 1975, começou a sua organização sob o comando do Tenente Coronel de Cavalaria Luís de Lorena Birne. Este período decorreu até 4 de Abril de 1975, seguindo-se depois períodos sucessivos de licença até ao dia 11 de Maio, foi portanto em pleno P.R.E.C. (Processo Revolucionário em Curso), em que a frase mais ouvida era “Nem mais um soldado para as Colónias”, que seguiu para Luanda o Comandante Luís Birne, acompanhado do Oficial de Operações Major Jesus da Silva.

Partida de Lisboa para Luanda

C.C.S........................Dia 18 de Maio de 1975 23H00 Chegada em Dia 19 de Maio de 1975 07H25
1º Companhia........Dia 19 de Maio de1975 23H00 Chegada em Dia 20 de Maio de1975 07H30
2º Companhia.......Dia 21 de Maio de1975 23H00 Chegada em Dia 22 de Maio de1975 07H30
3º Companhia.......Dia 22 de Maio de1975 23H00 Chegada em Dia 23 de Maio de1975 07H30

Durante quatro dias o batalhão esteve “hospedado” no Grafanil, seguindo depois em coluna motorizada para Henrique de Carvalho, primeiro a CCS no dia 23 de Maio, comandados pelo capitão Avelino Alves Pereira. No dia 25 de Maio, com destino a Henrique de Carvalho e Camissombo e sob o Comando do capitão Rolim Oliveira e Barbosa Soares, saiu a 1ª e 2ª Companhia. A 28 de Maio, com destino ao Camaquenzo (Dundo) saiu a 3ª Companhia sob o Comando do Major Correia de Araújo.

A zona de destino do Batalhão tem como característica principal o facto de ser dominante o grupo étnico Lunda-Quioco, sobejamente descrito em várias publicações.

Excerto do mapa de Angola: a vermelho as localidades onde esteve sedeado o BCAV 8322/74

Situação em Maio de 1975 no Leste de Angola

ELNA (FNLA)......Comandante...Filipe ..1.100 Homens
FAPLA (MPLA)....Comandante..Orlog ..1.100 Homens
FALA (UNITA).....Comandante..Aurélio.500 Homens

Por esta altura estavam instalados no terreno forças da ELNA (FNLA), FAPLA (MPLA) e FALA (UNITA), onde procuravam a hegemonia no campo politico e militar, tendo já realizado uma série de acções inconvenientes, tais como ocupações de instalações, roubo de viaturas e justiça privada que se traduzia por um processo de degradação da situação que inevitavelmente conduziria ao confronto armado entre ambos.

SITUAÇÃO EM 30 DE MAIO DE 1975

Comando e CCS --- Quartel de Saurimo
1ª Companhia --- Quartel de Saurimo
2ª Companhia --- Camissombo
Grupo de Combate --- Cacolo
3ª Companhia --- Camaquenzo (Portugália)
Grupo de Combate --- Saurimo - Reforço à 1ª Companhia

“O incumprimento dos acordos de Alvor e os excessos já eram prática diária dos Movimentos de Libertação, nesta fase, mais frequentes pelo MPLA e pela FNLA do que a UNITA. (…) O MPLA e a FNLA estavam a receber do exterior bastante Armamento, tanto ligeiro como pesado, que as autoridades Portuguesas não conseguiam controlar, nem pouco nem muito. Acostavam Navios cargueiros em Ponta Negra no Congo Brazzaville, com bastante material soviético para o MPLA. O material Americano para as FNLA chegava por meios aéreos a Kinshasa, sendo encaminhado para a Base Kinkusu.

(Mário Jesus da Silva – “Sortilégio da Cobra”)

Este era o cenário que nos esperava na Lunda, que na língua dos Ambungos significa “terra abandonada”, e que fora em tempos antigos território do lendário reino do Muatiânvua.

Nas margens do Rio Cuango está a sua principal riqueza, os diamantes.

Nos primeiros dias de Junho a situação na Lunda agravou-se progressivamente, vindo a culminar com dois dias (11 e 12 de junho) de violenta confrontação armada entre a ELNA (FNLA) de Holden Roberto e as FAPLA (MPLA) de Agostinho Neto, que resultou na destruição dos quartéis da FNLA. Alguns elementos desta força com receio de nova ofensiva refugiaram-se no nosso Quartel.

Com esta acção as forças do MPLA ganharam um ascendente moral que aproveitaram para garantir o predomínio da zona, bem como consolidar a sua influência no eixo Luanda - Henrique de Carvalho.

As nossas tropas durante este confronto começaram por recolher os oficiais que tinham ficado na messe numa situação muito vulnerável visto que a mesma se encontrava próxima do quartel do ELNA.

Em 12 Junho, logo que a luz do dia tornou possível, saiu a pé o grupo de combate do Furriel Barroco e Romão, com a missão de recolher o representante das FAPLA do Exército Unificado. Este Grupo de Combate garantiu a segurança para a retirada de oficiais do AB4 e famílias que estavam retidas pelo fogo em casas na cidade. Utilizando um megafone, obteve um primeiro contacto com quartel das FAPLA, o que permitiu o abrandamento do tiroteio.

Às 9H00, um grupo de combate saiu para transportar o médico ao Hospital e recolheu alguns civis e militares isolados.

Às 10H00, um grupo de Combate escoltado por elementos do E.M.U. (Exército Unificado) saiu a fim de procurar obter o cessar-fogo no local onde se verificava a confrontação mais violenta, o que só foi possível cerca das 12H00.

A 2ª Companhia que estava no Camissombo tinha como missão controlar e dar apoio aos refugiados Catangueses (cerca de 300), chefiados pelo General Natanael Mbumba, que estavam instalados no mesmo quartel, e maior efectivo numa “ferme” a 20Km a norte. Na “ferme” permanecia o Capitão Elísio Figueiredo, oficial de ligação do Alto Comissário junto dos refugiados, a quem competia a responsabilidade primária de orientar a conduta dos mesmos.

Não obstante, todo o apoio logístico era dado pelo Batalhão de Cavalaria 8322.

Aquando do tiroteio de 20 de Julho os Catangueses pretenderam tomar de assalto a arrecadação do material de guerra para se apoderar do Armamento, que só não aconteceu por firmeza da parte das nossas tropas.

O quartel  do BCAV 8322/74 em Henrique de Carvalho (Saurimo)

As instalações do AB4

Na Base Aérea Nº4* em Saurimo

No dia 22 de Junho de 1975 a CCS deslocou-se para a Base Aérea Nº4, a 4 Km de Saurimo, o mesmo sucedendo à 1ª Companhia no dia 30 de Junho. Em 10 de Julho juntou-se o Grupo de combate da 2ª Companhia que se encontrava aquartelado no Cacolo, mas de seguida marchou para o Camissombo para se juntar à sua Companhia, que tinha como missão principal o apoio aos refugiados Catangueses, evitando que estes se imiscuíssem nos conflitos entre os movimentos. A 3ª Companhia que estava no Camaquenzo reuniu-se ao batalhão em 29 de Julho e a 20 de Agosto foi a vez da 2ª Companhia deixar o Camissombo e juntar-se às restantes Companhias que já estavam na AB4.

Depois de uma semana de grande tensão e incidentes, verificou-se em 16 e 17 de Julho em Saurimo a confrontação que viria a ser decisiva na conquista da hegemonia na Lunda.

Quando o tiroteio se iniciou o Major Jesus da Silva encontrava-se no quartel das forças unificadas com um Furriel, que viria a ser recolhido por um grupo de combate que entretanto saíra da AB4 sob o Comando do Major Correia de Araújo.

No dia 17 Julho pelas 10H00 saiu um Grupo de Combate e dois Majores da E.M.U. deslocando-se até ao Governo do Distrito a fim de levar alimentação ao Governador que permaneceu sempre no local.

Pelas 11H00, o Major Jesus da Silva em conversações com o Comando do MPLA, foi informado que os confrontos só terminariam com a expulsão das forças da FNLA que viria a acontecer após 20 horas de tiroteio ininterrupto, tendo como base armas pesadas.

Os sobreviventes da FNLA e UNITA debandaram e entregaram-se no nosso quartel, o que viria a acontecer em Camisssombo (20 de Julho), Portugália (20 de Julho), Dala (18 de Julho), Cuango (22 a 26 Julho), Caungula (26 de Julho) e outros locais.

Por esta altura o Quartel de Saurimo, onde estava aquartelada o que restava das Forças Integradas, era o refúgio de alguns soldados da ELNA. Como entretanto se verificava o avanço das forças do MPLA sobre o Quartel e para evitar o colapso das Forças Integradas, decidiu-se estabelecer contacto directo com as FAPLA (MPLA) a fim de suspender a sua progressão, a troco da entrega do armamento apreendido da FNLA.

Após um encontro “tormentoso” com os soldados das FAPLA, o Comandante concordou em cessar todas as acções, uma vez que o FNLA se encontrava completamente derrotado.

Recolhidas as armas, estas foram transportadas numa viatura para o quartel do FAPLA (MPLA). Aí chegados, ao abrir a porta da carrinha, um elemento do ELNA que estava preso naquele quartel atirou uma granada de mão para o interior originando uma enorme explosão e incêndio da viatura.

Pelas 19H00, realizou-se uma reunião com o Comandante das FAPLA, ficando acordado o patrulhamento misto, a fim de terminar com os roubos que entretanto já se tinham verificado.

A população civil entretanto refugiou-se no interior da AB4, de acordo com um plano previamente estabelecido.

Ainda no dia 19 de Julho, dada a tensão local, seguiu de Saurimo para o Camaquenzo por via aérea, uma comissão mista formada pelo representante de ELNA no EMULUNDA, por um Comandante das FAPLA e pelo Major Jesus da Silva com o apoio do Comandante da 3ª Companhia Capitão Carlos Gonçalves e da Diamang conseguiu-se acordar a retirada para o Zaire de todos os destacamentos da ELNA, a fim de evitar mais mortos.

Este acordo teve curta duração pois no dia seguinte as forças do MPLA atacaram a ELNA.

EMULUNDA (Estado Maior Unificado da Lunda)
ELNA - FNLA --Major Afonso Jovelino
FAPLA - MPLA-- Major João Ernesto Liberdade
FALA - UNITA-- Major António Pinheiro Canjundo

Este Comando deslocou-se várias vezes aos mais variados sítios para acalmar a situação, nem sempre com sucesso, mas foi possível pelo menos atenuar as consequências dos conflitos e manter uma posição de dignidade para as nossas tropas.

Em todas estas acções foi sempre recebido o máximo de apoio do Governador do Distrito, Coronel T. Ramos.

Após as confrontações armadas, elementos dos Movimentos derrotados foram acolhidos na Base Aérea Nº4, tratados os feridos, alimentados e depois evacuados: cerca de 100 ELNA e outros 100 FALA.

Estas acções provocaram situações de grande tensão com as FAPLA, que, apesar dos acordos, pretendiam apoderar-se de alguns elementos sob nossa protecção, ameaçando atacar o quartel, o que nos obrigou a um serviço esgotante, por se ter intensificado as medidas de segurança e algumas vezes o ocupar de posições.

A 3ª Companhia que estava no Camaquenzo reuniu-se ao batalhão em 29 de Julho e a 20 de Agosto foi a vez da 2ª Companhia deixar o Camissombo e juntar-se às restantes Companhias que já estavam na AB4.

No final de Julho só persistiam alguns elementos da UNITA na região Mussuco-Luremo, altura em estas forças se concentravam em Saurimo. Deste facto resultou um novo crescente de tensão que culminou com novos confrontos em 7 de Agosto, ficando o MPLA com predomínio total do distrito da Lunda.

SITUAÇÃO EM 04 DE SETEMBRO 1975

Comando e CCS ---DONDO
1ª Companhia ---CAMBAMBE
2ª Companhia ---DONDO
3ª Companhia--- CATETE

No Quanza Sul

Em 29 de Agosto de 1975 os primeiros escalões da CCS e 2ª Companhia deslocaram-se em Boeing dos TAM (Transportes Aéreos Militares) de Henrique Carvalho para Luanda, deslocando-se depois para o Dondo em coluna militar.

Em 1 de Setembro foi a vez da 1ª e 3ª Companhia, que numa coluna chefiada pelo Major Correia de Araújo trouxe até ao Dondo material, bagagens e viaturas do Batalhão de Cavalaria 8322, chegando no dia 4 de Setembro.

Em virtude das confrontações verificadas em Malange e Salazar, com as consequentes destruições e por outros motivos que se desconhecem, as tropas que estavam aquarteladas nestas localidades recolheram a Luanda deixando o nosso Batalhão isolado em Saurimo a cerca de 1.100 Km e a 800 Km do Dondo onde permaneceu uma Companhia até à nossa chegada.

Para a deslocação do B.CAV., houve que previamente realizar o movimento de uma força constituída pela 2ª Companhia a Malange onde passou a escoltar até Saurimo a coluna das Viaturas que haveriam de transportar para o Dondo, importante nó rodoviário, o Batalhão de Cavalaria 8322. Esta viagem decorreu sem problemas, no entanto, já no regresso uma força das FAPLAS no Cacuso não queria permitir a passagem a viaturas civis, assunto este que foi resolvido por meio de conversações.

Registou-se um acidente de viação e muitas avarias, o que obrigou a paragens sucessivas, tendo de se abandonar 6 viaturas.

O facto desta coluna de cerca de 80 viaturas ter chegado intacta ao destino, sem apoio aéreo e sem qualquer ponto de apoio militar ao longo do percurso e com ligação Rádio deficiente, foi um milagre.

A 1ª Companhia seguiu para Cambambe, barragem que abastecia de energia eléctrica Luanda, Catete, Dondo, Salazar, Malange e Gabela e a 3ª Companhia para Catete, terra de onde era natural Agostinho Neto.

Os segundos escalões da CCS e a 2ª Companhia deslocaram-se de DC6 dos TAM de Henrique Carvalho para Luanda no dia 2 de Setembro seguindo depois em coluna rodoviária para o Dondo.

Na hora da partida, feito o balanço da nossa presença, julgo que a missão de acompanhar o processo de descolonização, harmonizando as oposições entre os Movimentos de Libertação e garantir protecção às populações refugiadas, se não foi totalmente bem sucedida, foi no entanto desempenhada com uma grande dignidade, pois numa altura extremamente difícil garantimos sempre a posse das nossas instalações até à completa retirada.

As nossas actividades foram nesta altura bastante reduzidas, visto que toda a zona se encontrava sob domínio do MPLA, e a poucos dias da independência.

Cronograma do BCAV 8322/74

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(*) O próximo post será dedicado ao Agrupamento Base nº 4 (AB4), da Força Aérea Portuguesa, sedeado em Henrique de Carvalho e ao qual pertenceu o Major Vítor Nunes, vizinho do “nosso” Capitão Figueiredo, na Sobreda de Caparica e que foi quem me cedeu o contacto telefónico do Capitão. Os pilotos e militares do AB4 retiraram de Henrique de Carvalho em finais de Julho de 1975 (também não sabíamos).

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terça-feira, 2 de junho de 2015

21º ENCONTRO-CONVÍVIO DO BART 6221/74 – 40º ANIVERSÁRIO DA PARTIDA-CHEGADA A ANGOLA



21º ENCONTRO-CONVÍVIO 
DO BART 6221/74
40º ANIVERSÁRIO 
DA PARTIDA-CHEGADA A ANGOLA

16 de Maio – Mosteiro de São Bento em Santo Tirso

O Encontro-Convívio do BART 6221/74 do passado dia 16 de Maio, organizado pelo ex-Alferes Almerindo Figueiras (comandante do 1º Pelotão da 2ª Companhia) e pelo ex-Furriel Eduardo Maia (Companhia de Comando e Serviços – CCS), pretendeu comemorar o 40º aniversário do embarque do BART 6221/74 para Angola, contudo 16 de Maio foi a data do nosso desembarque em Luanda – o embarque foi a 15 de Maio de 1975 à tardinha. Mas foi comemorado tudo junto e fiquei muito feliz por ter reencontrado toda aquela gente que, devido aos quarenta anos decorridos, só em raros casos consegui identificar quem eram. Levava uma série de questões para tentar esclarecer, sobre as nossas “férias” em Angola, mas fui de tal modo assediado por uma série de antigos camaradas, que não sabiam da minha pessoa desde que chegámos a Lisboa, a 27 de Outubro de 1975, que quase não consegui nenhuma das informações que pretendia.

Devido a alguns erros de “navegação”, cheguei um bocado atrasado a Santo Tirso. Estava no programa que eu apresentasse o projecto do livro sobre a “nossa guerra”, com uma visualização em Power Point, onde apresentaria imagens do Luso actual, o “nosso” quartel em Nova Lisboa, algumas fotos, etc… Quando cheguei já estava toda a gente no auditório do Convento – onde funciona também a Escola Profissional Agrícola de São Bento – e apresentei então o projecto do livro Os Últimos no Leste – na Retirada do Exército Português de Angola 1975, que correu muito bem, com toda a gente interessada, a fazer perguntas, a debitar opiniões, etc…

Depois realizou-se o opíparo almoço no claustro do Convento, com convívio à maneira e o rever de muitos camaradas.

O Eduardo Maia enviou-me a listagem dos camaradas presentes no Encontro e que vou colocar aqui, depois das fotos. Por enquanto, aqui ficam as fotos que realizei. Se alguém tiver mais fotos (deste Encontro ou mesmo de Angola-1975) e as quiser enviar-me – digitalizadas –, o meu email é o bdjornal@gmail.com. Agradeço muito todas as colaborações nesta saga.

AS FOTOS

A APRESENTAÇÃO DO PROJECTO DO LIVRO


Fotos de Olinda, a esposa do José Manuel da Silva:

Francamente... parece que vou ter de rever a minha maneira de falar em público - ou ato as mãos atrás das costas, ou coisa no género. Coloco sempre as mãos à frente da cara, em gestos que depois, parecem que estou a enfiar os dedos no nariz, ou outra coisa qualquer. Já no Festival de BD de Beja foi a mesma cena...


O ALMOÇO
NO CLAUSTRO DO CONVENTO

Nestas três últimas fotos eu mostrei uma foto (ver aqui em baixo), para ver se alguém identificava o nosso camarada com que estou a falar na Parada do Quartel do Luso. Ninguém sabia, até que...

... de repente, a meio de uma destas noites, lembrei-me! Só pode ser o ex-Furriel da Alimentação Delfim Carvalho, com que eu, muitas vezes conversava sobre as comidas, na Parada, ou na cozinha.

Veio então o tradicional bolo e...

... lembrei-me de ir convidar a jovem (penso que filha de um camarada nosso), para ir cortar e distribuir o bolo...

... o que ela fez a preceito.

No final, as prendas...


LISTA DOS 55 EX-MILITARES PRESENTES 
COM FAMILIARES RESPECTIVOS
NO 21º ENCONTRO-CONVÍVIO DO BART 6221/74 – SANTO TIRSO 16 DE MAIO DE 2015 

Albano Teixeira Gonçalves 
António Mário O. Marques 
Agostinho Pereira Fonseca 
Henrique Fernando Adães Almeida 
José Ferreira da Mota 
Luís Filipe S. P. Salles 
Joaquim Martins Seara 
Bernardino P. Fernandes 
José Francisco Rica 
Jorge Machado-Dias 
Luís Pacheco Barbosa 
Manuel Ribeiro Faria 
José Fernandes Palha 
António Marinho Costa 
Arnaldo Ribeiro Fernandes 
António Ribeiro 
Pedro Joaquim G. De Brito 
Armindo Costa Ortiga 
Jaime Patrício Ferreira 
António Moreira da Silva 
Torcato Martins Agra 
António Inácio Candeias Guerreiro 
Alberto César Prada 
Domingos Leite Teixeira 
António S. Pereira Costa 
José Salgado Fernando De Freitas 
Manuel Fernandes Pires Laranjeira 
José Gonçalves Fernandes 
António Pereira Silva 
Fernando Costa Santos 
José Albino L. Sampaio 
José Manuel Lomba 
Hernani Silva Nogueira 
Gabriel dos Santos Alves 
José Manuel da Silva 
José Filipe Alpoim Inácio 
Carlos Alberto C. Ribeiro 
Mário Moreira Martins Lobato 
José Ferreira Leite 
António José Teixeira 
Jorge da Silva Macedo 
Júlio Maria P. Mendonça 
Manuel Oliveira Costa 
Fortunato Costa Castro 
Francisco José Vieira De Oliveira 
António da Silva Tinoco 
Mário Gomes Pinto 
José Eduardo Bacelo 
Manuel Fernando Vieira Sousa 
Alcino Sousa Martins 
Armando Osvaldo Monteiro Ferreira 
Gonçalo da Silva Eusébio 
Henrique Soares Pereira 
Luís Almerindo Figueiras Gomes 
Eduardo António Monteiro Oliveira Maia

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