Eis a resposta desse meu amigo:
Ok Jorge aqui vai o que sei, o que recordo e o que ouvi dizer.
O aquartelamento em Nova Lisboa situava-se a 3/4 km a norte [é a sul, mas ele enganou-se] da cidade e era composto pelo RI salvo erro 10 portanto RI10 e contiguo a este outro que apenas conhecia pela Escola, devia ser qualquer escola militar destinada a formar especialidades dos militares angolanos mas que estava praticamente desativada por recrutamentos internos.
Esta escola serviu aliás para um acontecimento caricato no processo de independência. Quando da tentativa de formar as Forças armadas angolanas fundindo os 3 movimentos, Nova Lisboa foi o palco do juramento de bandeira do 1º batalhão destas ditas forças, compostas por oficiais e praças dos 3 movimentos e ficaram aquarteladas na dita Escola. No dia seguinte a Escola estava vazia de homens e armas pois tinham todos desertado para os seus movimentos originais.
Quanto a mim não estava integrado em nenhum batalhão pois era de rendição individual e pertencia a uma oficina avançada de Transmissões cuja sede era em Luanda o ATMA (Agrupamento de Transmissões Militares de Angola).
O teu batalhão não foi render o que se encontrava no RI10, vocês vieram do Luso inseridos no processo de retirada gradual das FA Portuguesas e ficaram em Nova Lisboa para depois virem para Portugal.
Quanto a nós encontramo-nos também em Nova Lisboa e estivemos no apartamento em que eu vivia 1 ou duas vezes porque eu estava de saída para Luanda e posteriormente para Portugal.
Isto é o que vivi e me lembro. Agora o que ouvi dizer e o que não tenho bem a certeza.
Segundo soava nos meios militares, e tu podes confirmar ou não, é que o comboio que transportava o teu batalhão do Luso tinha sofrido uma emboscada pela Unita e que vocês tinham sido feito reféns sem ter tido tempo de se defenderem. Os vossos pertences e armamento tinha sido confiscado e até deram uma alcunha ao batalhão que era o batalhão do pé descalço. Inclusivamente tenho uma vaga lembrança de quando estivemos no meu apartamento te ter cedido alguma roupa dada a situação acima descrita. Se não foi a ti foi a outro tipo do teu batalhão que eu conheci que era aqui da Piedade e cujo nome não me recordo pois não era da minha malta e só conhecia de vista mas que nessas alturas todos nos conhecemos. Mas isto tu poderás tirar as certezas pois se foi verdade passou-se contigo. Chegou aliás a haver um processo de despromoção do Coronel comandante do teu batalhão numa punição pública na parada do Regimento.
O RI10, isto é um facto, não tinha nenhum batalhão aquartelado. Com a retirada gradual das Forças Portuguesas era um posto de passagem para Portugal e na altura em que eu lá estive tinha apenas uma CCAÇ (companhia de caçadores) que regressaram depois de mim e que era o pessoal com quem eu me dava. No entretanto todos os militares recrutados em Angola (nativos brancos e negros) tinham sido desmobilizados.
Bom por agora é o que me lembro mas se tiveres alguma pergunta concreta apita ok?
Um abraço
E a minha contra-resposta:
Caríssimo,
Fixe! Esta tua resposta às minhas questões ajuda muito na minha rememoriação dos acontecimentos. Embora com algumas coisas que não corresponderam à verdade e que foram transformadas em “lenda”. Mas mesmo essa informação também me é preciosa.
O meu Batalhão foi de facto assaltado pela UNITA, mas não houve reféns nenhuns – pelo menos no tal comboio, onde eu estava. Isto porque houve também uma coluna auto que saíu do Luso com escolta de uma companhia (por acaso a minha, mas onde eu não segui) que também foi atacada pela UNITA em “General Machado”. No comboio fomos assaltados e desarmados, unicamente. Cheguei a Nova Lisboa com todos os meus haveres (que nem eram muitos), apenas sem a G3. Enfim, essa do “pé-descalço” correu pela informação e transformou-se no tal mito, que não correspondeu à verdade – ninguém chegou descalço a N.L.. Sei de alguns soldados, que em pânico entregaram as malas onde traziam as roupas e outros pertences, etc... daí haverem alguns que só chegaram a N.L. com os fardamentos que traziam vestidos. Mas ninguém, que eu saiba, chegou descalço ou em cuecas!!!
Devo dizer e isto é uma coisa que não saiu na imprensa da altura, que aquele comboio tinha 50 vagons, puxados por duas locomotivas. Era uma coisa monstruosa. E nós vinhamos dispersos por toda aquela composição, que englobava dois vagons cheios até cima de armas da polícia do Caminho de Ferro de Benguela e que foi o motivo do ataque da UNITA.
Não houve possibilidades de defesa num comboio com aquela extensão, para mais com cerca de 500 civis em fuga do Luso pelo meio, aquilo foi tudo mal programado – a UNITA tinha sido expulsa do Luso pelo MPLA na véspera da nossa saída e estava desesperada, quase sem armas e munições.
Mas tudo isto vai, evidentemente, constar da minha narrativa, como é óbvio.
Depois, eu não estive no teu apartamento (encontrámo-nos no portão do R.I.21 – descobri anteontem fotos desse portão e recordei-me da situação), mas essa informação que me dás – acerca de forneceres roupas a um tipo do meu Batalhão –, serve-me para complementar algumas coisas de que não tive conhecimento – mais aquilo que me dizes sobre as F.I. – as tais “forças armadas angolanas” que nunca chegaram a existir. E, já agora, não houve nenhum processo de tentativa de despromoção do Tenente-Coronel João Faria Amado. Houve outras coisas, mas não essa.
Por outro lado correu o boato de que eu tinha morrido durante a viagem de Luanda para o Luso e tu sabias desse boato, não sei como o sabias, mas recordo-me de que falámos disso. Este boato aconteceu porque o camião onde eu devia vir, na viagem de Luanda para o Luso, que trazia, como todos os outros, um bidon de gasóleo de reserva, para cima do qual um soldado atirou uma beata, o bidon explodiu e morreram seis tipos, incluindo o que vinha ao lado do condutor e que deveria ser eu, como furriel do pelotão. Só que, a dada altura, tinha trocado o camião pelo jeep Willis que ia à frente da coluna, com o furriel enfermeiro (que era fotógrafo profissional) para irmos fazendo fotografias “turísticas” pelo caminho... Daí que tenha escapado.
Já agora, só por piada, também fui dado como morto em 1997 (depois do divórcio), numa situação imbecil de um “amigo” que resolveu espalhar um boato cretino e muitos amigos meus acreditaram nisso, até eu lhes aparecer (passaram a chamar-me "o ressuscitado"). Portanto, fui dado como morto duas vezes já. Penso que à terceira – e se for só boato – acho que devo ganhar a eternidade, eh, eh...
Bem, falando sério, já consegui encontrar referências aos quartéis de Nova Lisboa – o RI 10 de que falas era o R.I.21 – Regimento de Infantaria 21! Em frente do R.I.21 ficava o I.I.V.A. – Instituto de Investigação Veterinária de Angola. Depois o quartel da tal “escola”, era a Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA), que foi onde nós ficámos e tinha o lago artificial ao lado a que chamavam "lago dos Recrutas".
Portanto isto está a compor-se. Estou à espera que o Arquivo Geral do Exército me envie a lista do pessoal do meu batalhão (lista que já paguei) para tentar entrar em contacto com alguém via internet.
Se me lembrar de mais alguma coisa, podes crer que te escrevo.
Obrigado pela tua resposta e um grande abraço,
OS MAPAS
ONDE FICAVAM OS QUARTÉIS DE NOVA LISBOA
Vista aérea parcial actual da Escola de Aplicação Militar de Angola (Google Maps ampliado), onde ficou o BART 6221/74
FOTOS
Vista aérea actual da E.A.M.A.
Vista aérea actual do R.I.21 (Já semi-restaurado) e da E.A.M.A.
Vistas da E.A.M.A. nos anos sessenta...
Vistas actuais do edifício principal da E.A.M.A
Vistas do portão do R.I.21 nos anos sessenta...
Vista actual do mesmo portão, depois de ser restaurado nos anos noventa.
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A SEGUIR
DE ONDE VEIO O BOATO
DO "BATALHÃO PÉ-DESCALÇO"?
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vou tentar compreender este texto pois fazia parte desse batalhão, julgo que não e tudo verdade Teixeira EX.Furr.M.
ResponderEliminarCamarada, do bart 6221/74,está enganado em muita coisa,começando por exemplo quando diz que o RI 21, não tinha nimguém aquartelado, pois quando o vosso batalhão, chegou a NOVA lisboa, estava no RI 21, O Batalhão de Cavalaria 8325, do qual eu fazia parte. Nõ vamos falar de outras coisas que realmente passaram, mas que continuam a negar ,enfim já passou. A parte que refere dos militares angolanos que fugiram de noite para os seus movimentos eu lembro-me perfeitamente disso. Já agora só para imformação, o RI 10, era em Aveiro, nessa altura. um abraço.
ResponderEliminarEx-1-º cabo Atirador de Cavalaria do batalhão de cavalaria 8325.
Camarada do BCAV 8325, sem precisar datas concretas, tem razão, porque nessas datas estive em Nova Lisboa, comandei a coluna que trazia elementos da Unita (civis e até um membro do Governo de Transição) desde o Dondo até Nova Lisboa. Acontece que o Brigadeiro não me deixou regressar, porque disse que eu tinha de trazer os civis afetos ao MPLA e estudantes que tinham estado em manisfetações do mesmo, cerca de 30 civis. Na altura junto ao espaço da feira internacional, aonde estavam os civis refugiados que tinham vindo acho que de Malange, encontrei o Alferes de Operações Especiais Frazão, alferes do teu Batalhão, exatamente na altura em que a Unita começou a disparar e "elas" choviam na cobertura, supostamente para assustar. O Frazão foi meu instrutor em Lamego, e daí sei que demos uns tiritos de resposta e tudo acalmou. Agora em relação ao Bart 6221. Quando regressei com destino a Cambambe onde a minha companhia fazia a segurança das instalações, no Alto da Cela, o Chefe do Estado Maior (?), não me recorda se Coronel ou Ten-Coronel, disse que queria falar comigo, e o capitão sabia até o meu nome, por isso fui desarmado com outro Alferes não da minha companhia, traziamos 3 grupos de combate, porque achei que me quereria agradecer por conseguir passar a coluna pela zona do MPLA e da FNLA (Quibala) sem que me tivessem criado problemas de maior (os promenores não têm interesse para o caso). Acontece que cumprimentei o Coronel com cumprimento militar, que correspondeu e de imediato disse que eu estva preso. Questionei o facto e ele disse que como eu eu tinha recusado que a coluna (civis) fossem revistados, o que eu tinha feito na vinda para Nova Lisboa, eu respondi que não autorizava inedependentemente do que me acontecesse, só lhe disse para libertar o outro alferes, o que aconteceu. Negociações para trás e diante estive 3 dias retido. Tive que aceitar que os civis fossem apenas interrogados e no final ficou um que por sinal era ladrão,foi o que os restantes unanimamente me disseram ( alguns pormenores omito intecionalmente). Quando cheguei ao rés-do-chão da sede da UNITA, fiquei completamente espantado, com o que observei. Uma fila de cerca de 30 ou 40 militares, encostada ao edificio, com ar estranho e de facto alguns descalços. Não sei o motivo porque estavam, mas pareceu-me que seria por terem caminhado alguns Km.Perguntei a um soldado o que passava, e disse-me que timham tido problemas com a Unita, perguntei quem comandava aquele grupo e pedi para me digirem a ele. Um Tenente-Coronel, explicou-me o que se tinha passado (não me falou do comboio) e perguntei-lhe se não queria ser escoltado para o Norte por mim. Sabes qual foi a resposta, que não porque queria as malas. Não lhe perguntei o que tinha as malas, mas pensei que deveriam ser cheias de ouro. E arranquei. Dois Km percorrido e como trazia uma Berliet resolvi voltar à Cela, pq os meus homens estavam sem comer, e num restaurante ao lado da sede da Unita, comemos bifes com batatas fritas e ovo, que nos custarm zero a troco de trazer os familiares do dono e ainda carreguei batatas. Questoinei de novo o comandante se queria ou não voltar e disse outra vez que não ( ... e até disse bem alto aos soldados se não queriam vir, para c......ar no comandante) mas talvez por medo nenhum veio que me lembre. Isto são factos, estão no relatório que elaborei, e espero que a tal porrada publica do Comandante tenha sido por isso. António Basto - Ex- Alferes de Operações Especiais - Bart 6524 (Cabinda-Salazar-Cambambe). acbasto@gmail.com
EliminarEu ex.furriel Teixeira repudio este ultimo comentario o qual nada tem de verdade .Eu fui um elemento desse batalhão e com muinto gosto .So peço uma coisa falem verdade quañdo falarem do batalhão 6221 homens valentes e patriotas.umabraço Teixeira Ex .furriel .mili
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