BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ANGOLA 1975/1976 – NARRATIVA CRONOLÓGICA – IN ‘O JORNAL’ DE 7 DE JUNHO DE 1976

Agostinho Neto (17/09/1922 - 10/09/1979) - Holden Roberto (12/01/1923 - 02/08/2007) 
e Jonas Savimbi (03/08/1934 - 22/02/2002)

ANGOLA 1975/1976
NARRATIVA CRONOLÓGICA
IN ‘O JORNAL’ DE 7 DE JUNHO DE 1976

Mais um recorte d’O Jornal, que é uma (longa) síntese histórica daquilo que foram os acontecimentos em Angola, antes (indo até, por vezes, muito antes mesmo) da independência, mas que, infelizmente, guardei cortado em tiras (as colunas do texto coladas em papel A4), sem ter preservado o título e o nome do jornalista que o escreveu. É um texto longo, mas essencial para se perceber o que se passou no território angolano antes de 11 de Novembro 1975 e mesmo depois dessa data.

As fotos são da minha responsabilidade.

  
  
  
  

O Jornal, 7/5/1976

Entre 15 e 22 de Junho de 1975, como soubemos, reali­zou-se a Cimeira de Nakuru, no Quénia. Já falámos nas cir­cunstâncias que possibilitaram esta Cimeira. Logo a seguir, os movimentos acordaram em co­memorar a «semana da unidade», que consubstanciava o ambiente de «mea culpa» que se tinha vivido na Cimeira, e do qual, o conteúdo acordado é uma pro­va eloquente. Mas uma coisa são as bonitas declarações políti­cas, outras são as realidades, motores da evolução das si­tuações. Mesmo após Nakuru, e apesar das declarações de in­tenções, (significativamente, sem a presença portuguesa), o território encontrava-se cada vez mais na posse dos movimen­tos. A linha de contenção da FNLA - Zaire estava melhor definida, mercê de uma estra­tégia político-militar do MPLA: Temos de considerar isso brilhante, em atenção ao esforço que foi necessário para o con­cretizar e os apoios externos que nessa altura dispunham as forças rivais, nomeadamente a FNLA.

Cimeira de Nakuru, no Quénia: Jonas Savimbi, Jomo Kenyatta (Presidente do Quénia), Holden Roberto e Agostinho Neto

Luanda, palco principal da «semana da Unidade», com to­da a sua importância política, situava-se atrás dessa linha. E nesta cidade, com as casas da «zona do asfalto» a abarrotar de desalojados, com as concen­trações frente ao Palácio e de an­golanos, também desalojados que iniciavam um irreprimível movimento migratório interno, com um poder popular acresci­do, agressivo e em grande parte descoordenado, a FNLA «flu­tuava» sem apoio das massas populares, e a UNITA crescia po­liticamente com base na etnia branca ou na burguesia negra que se alinhavam tacticamente a este movimento.

Neste ambiente, era natural esperar que a FNLA aproveitas­se a «paz política» pós-Nakuru para, em desespero, procurar impor-se o mais possível, segun­do os seus métodos habituais. Era natural que a UNITA, bus­casse manter ao transe uma si­tuação que a favorecia, não se envolvendo em acontecimentos que surgissem, e era natural que o MPLA, com toda a sua im­plantação, pretendesse a si­tuação clarificada, acabando-se de vez com os equívocos. De facto, se ao Norte a FNLA era «dona e senhora», se no planal­to a UNITA (nomeadamente em Nova Lisboa) comandava as operações, então deveria ser reco­nhecido o poder do MPLA em Luanda. Mas... Luanda era o «centro» do problema e as pre­senças militares eram despro­porcionais às implantações políticas ou às importâncias políticas, baseavam-se em facto­res irreais (caso da UNITA).

Aconteceu, assim, que a «sema­na de unidade» durou quatro dias, findos os quais estalaram novos incidentes, que uma vez mais fizeram com que a vio­lência generalizada se estabele­cesse na cidade. Surgem assim, mais desalojados, mais comuni­cados (alguns patéticos), mais raptos, mais prisões, mais mor­tos. Os tiros ecoam por toda a cidade e também mais uma vez a parte portuguesa se esforça por conter os acontecimentos e estabelecer o diálogo possível.

Nakuru tinha tido lugar em 22 de Junho de 1975: a «semana da unidade» havia durado 4 dias. Em Nakuru tinha-se inclu­sivamente acordado uma orga­nização para as Forças Armadas angolanas diferente da acordada no Alvor. Era claro que, a desde sempre ambicionada plataforma política mínima não se concreti­zava, e que agora, já não se po­dia pensar em Forças Armadas angolanas. A situação ia, pois, continuar a deteriorar-se.

Assim, em 10 de Julho, du­rante uma cerimónia do arriar da bandeira da FNLA no bairro Marçal, aconteceu mais um inci­dente (dos muitos que já se veri­ficavam), em que elementos do MPLA não se perfilaram duran­te a cerimónia. Estalam, assim os incidentes em Luanda. Na sequência dos quais Luanda vai ficar sem pão por uns tempos, devido a cortes de energia eléctrica na zona industrial do Cazenga. Por outro lado, o pes­soal menor do Hospital Maria Pia entra em greve, ficando ain­da mais agravado o problema da assistência hospitalar no Hospital Militar, pois o Hospital de S. Paulo encontra-se encerra­do desde os incidentes de Junho.

A «limpeza» da FNLA

Mas voltemos à delegação da FNLA na Avenida do Brasil, em Luanda. Com o incidente acima descrito, e dada a impor­tância (sobretudo militar) desta delegação, estão criadas con­dições para uma «limpeza» des­te movimento e que efectiva­mente aconteceu em 11 de Ju­lho feita pelo MPLA. 

Em 12 de Julho a Comissão Nacional de Defesa reúne, mas o MPLA não aparece. Desta reunião sai­rá um comunicado responsabili­zando o MPLA pelo que está a acontecer. Então, perante as derrotas que começam a sofrer no terreno, a FNLA acusa as Forças Armadas Portuguesas de estarem ao lado do MPLA.

Mas a questão era fundamentalmente entre os movimentos. Assim, ainda se consegue uma reunião entre a FNLA e o MPLA, em que este último, em posição de relativa força, impõe as condições para a desmilitari­zação de Luanda. Só que, dada a implantação popular do MPLA, isto significava o seu total poder na cidade. Como anular o poder popular? Como desar­má-lo? Como aceitaria a FNLA reconhecer esta real implan­tação? Evidentemente que não a reconhece e vai tentar manter a sua presença ao máximo.

Entretanto, no restante terri­tório, concretizava-se cada vez mais a linha de contenção mili­tar da FNLA-Zaire, ao Nor­te. Atrás desta linha situava-se Luanda, a capital política do país. Sentia-se portanto que, ca­so surgissem novos problemas, o MPLA tentaria resolver defi­nitivamente a questão, em vez de se continuar com paleativos.

Em 14 de Julho, no entanto, o ministro Melo Antunes, pe­rante o agudizar da situação, desloca-se novamente a Luan­da, tendo conseguido reunir-se com os três movimentos sepa­radamente, no sentido de se ten­tar acalmar a situação e procu­rar uma solução. Em 16 de Ju­lho a situação é efectivamente mais calma e em 17 de Julho a Comissão Nacional de Defesa, que tinha funcionado razoavel­mente ao longo da sua exis­tência, reuniu completa, pela última vez. Finalmente a FNLA sofre uma estrondosa derrota, acabando por resumir a sua presença militar ao Forte de S. Pe­dro, próximo da refinaria de Luanda e dos seus tanques de combustível. Também no Bair­ro do Saneamento, se mantinha a presença da FNLA – nas resi­dências dos seus ministros, que estavam superlotadas de pessoal armado – 200 pessoas numa moradia segundo se apurou mais tarde.

Nesta circunstância e por parte da FNLA, só prati­camente o ministro do Interior, Kabangu, se mostra à altura da situação, demonstrando a cora­gem e a arrogância de sempre. Os outros, já se haviam refugia­do no Zaire e em «zonas segu­ras» e um raptou-se a si próprio quando viu que ia servir de «bo­de expiatório». Nestas circunstâncias a FNLA pretende por todos os meios recuperar po­sições perdidas, tentando reu­nir-se com os outros movimen­tos e com Portugal. Põe-se en­tão às forças portuguesas o pro­blema de evacuar ou não Carmona, S. Salvador e Negage, no Norte do País. Evacuar seria contribuir para um maior êxodo da população e acentuar ainda mais a «balcanização» do terri­tório. Não abandonar seria dei­xar nessas zonas, por um período necessariamente curto, um número elevado de «reféns» que poderiam ser utilizados co­mo forma de pressão em relação ao que estava a acontecer em Luanda.

Sede da FNLA na Av. do Brasil, Luanda 1975

INCIDENTE DE VILA ALICE

Ainda a 25 de Julho acontece o célebre incidente da Vila Ali­ce. Depois de desarmados por elementos das FAPLA, milita­res portugueses utilizando jeeps das FAP, haviam sido feridos gravemente, tendo sido alveja­dos pelas costas. E dado ao M PLA um prazo para entrega dos responsáveis. O prazo não é cumprido tendo sido prorroga­do por duas horas. Então, na Vila Alice, é montado um dispo­sitivo militar aparatoso que cer­ca a delegação do MPLA, tendo sido pedida a entrega dos responsáveis. No decurso das con­versações que decorriam entre o comandante da nossa força e o representante do MPLA, de­sencadeou-se forte tiroteio de que resultou a morte de 16 pes­soas, compreendendo alguns ci­vis e, na maioria, elementos das FAPLA.

Este facto agrava extraordinariamente as relações entre o MPI.A e a parte portuguesa. En­tretanto, acontecem mais inci­dentes entre o MPLA e a FNLA em Novo Redondo, Gabela, N'Dalatando (Vila Salazar), Malange, Andulo, N'Giva (Pereira D'Eça), Saurimo (Henrique Carvalho), etc.

Por esta altura e como é óbvio, o Governo era pratica­mente inexistente e a Comissão Nacional de Defesa inoperante.

Nos princípios de Agosto, o Conselho Económico decide suspender as suas actividades. De facto, acompanhando a agu­dização do ambiente político e militar, o sistema bancário ha­via paralisado. No Huambo, por exemplo, havia agora cerca de 100 000 desempregados: em Luanda a indústria estava prati­camente paralisada, a refinaria havia suspendido a sua labo­ração e os circuitos de distri­buição dos diversos produtos es­tavam virtualmente parados – a fome fazia a sua aparição em Angola, sobretudo ao Norte on­de se tinha verificado um gran­de afluxo de refugiados.

Neste contexto, Savimbi anuncia que se recusa a falar com Portugal, delegando no ministro N'Dele este encargo, proibindo ainda os ministros da UNITA de participarem em reuniões do Conselho de Ministros. As con­frontações são, como se viu, ge­neralizadas, está-se praticamen­te perante a secessão do terri­tório. A guerra dos comunica­dos surge novamente, tendo o MPILA, através de uma decla­ração, denunciado a ENLA: o alto-comissário interino responsabiliza os movimentos pelo que está a acontecer.

ACELERAÇÃO DA SITUAÇÃO MILITAR

Também, por esta altura, verificar-se-à a entrada de tropas da República da Africa do Sul na zona do complexo hidroelécttico de Calueque e Ruacaná, envenenando-se ainda mais as relações do MPLA com a parte portuguesa. Este movimento, em 21 de Agosto denunciará pu­blicamente este estado de coisas.

Acontecem então as graves confron­tações no Bairro do Saneamento em Luanda, sendo evacuados os ministros que restavam da FNLA. A UNITA retira completa­mente da cidade notando-se, então as primeiras evidências da aliança FNLA-UNITA, de há muito suspeitadas.

Em 11 de Agosto o MPLA é derrotado em Nova Lisboa, abandonado militarmente a ci­dade. Os incidentes começam a espalhar-se mais fortemente pe­lo Sul do território. Logo em 12 de Agosto, acontecem inci­dentes em Moçamedes, sendo o MPLA derrotado por forças conjuntas da FNLA/UNITA fortemente apoiadas por merce­nários portugueses e sul-africanos. O alto-comissário interino, chamou então a si os poderes do Colégio Presidencial, o que lhe valeu ser atacado de todos os lados, principalmente pela FNLA que em 17 de Agosto, atra­vés de uma conferência de Im­prensa dada em Kinshasa por Johnny Eduardo, protestava pe­lo facto de esta decisão ser con­tra o Acordo do Alvor, acusan­do o general Macedo de estar conluiado com o MPLA. Dizia ainda que não considerava que o Governo estivesse dissolvido e que o convocaria, como pri­meiro-ministro em exercício, para local a indicar. Além disso, afirmava que o ELNA entraria em Luanda.

Ainda em 17 de Agosto, Viei­ra de Almeida afirmava em Lis­boa que não voltaria a Angola como ministro e a UNTA (união sindical afecta ao MPLA) manifestava-se em Luanda contra a decisão de se nomearem direcções para a Banca particular, mas que no fundo significava um apoio ao MPLA para que ocupasse os lugares deixados vagos no Governo pelos outros dois movimentos.

Dois dias antes, tinha havido confrontações no Lobito de que o MPLA tinha saído vitorioso, e as FAP encontravam-se com­pletamente empenhadas em mis­sões aero-navais que tinham co­mo objectivo transportar ele­mentos dos movimentos para as suas áreas «normais». As vias de circulação estavam cortadas, não sendo possível o abasteci­mento em Luanda.

Em 18 de Agosto, o gabinete militar do alto-comissário emi­te um comunicado sobre o «rap­to» de Mateus Neto (FNLA), que em 23 do mesmo mês fará a sua autocrítica, através da Emissora Oficial.

Então, em 22 de Agosto de 1975, é publicado o Decreto-lei nº 458 - A/75, que sus­pende transitoriamente a vigência do Acordo do Alvor, no respeitante aos órgãos do Go­verno de Angola, tendo ao mes­mo tempo sido atribuidas ao al­to-comissário a função legislati­va e a superintendência na função executiva. Determina­va-se ao mesmo tempo, que fos­sem substituídos os ministros portugueses no Governo de transição de Angola (para se evitarem acusações de concluio com este ou com aquele movi­mento), bem como a substituição, por directores-gerais no­meados pelo alto-comissário, de todos os ministros que de facto se tivessem ausentado. E nova­mente as acusações contra Por­tugal, choveram de todos os la­dos, tambem nesta altura, Por­tugal comunicava a suspensão temporária do Acordo do Alvor e a adopção de certas medidas de emergência às Nações Uni­das, à OUA, aos novos estados africanos de expressão portu­guesa e a outros países africanos e europeus, justificando as medi­das tomadas e apelando para os bons ofícios de alguns desses países. Era então ministro dos Negócios Estrangeiros o dr. Mário Ruivo, que juntamente com o Presidente da República, General Costa Gomes, e ele­mentos destacados em Portugal da Comissão Coordenadora do MFA de Angola, constituíam o grupo que aqui tentava resolver os múltiplos problemas que se punham. Andava então na «ber­ra» o documento dos «Nove»...

A 21 de Agosto, o MPLA de­nuncia a ponte aérea Kinshasa-Negaje e a presença já confir­mada de tropas da RAS [República da África do Sul] em Ca­lueque. Só no início de Outubro se verificará o desembarque dos primeiros cubanos em Angola que teve lugar em Porto Amboim.

Perto de Luanda encontra­va-se por estas alturas a FNLA. que se tinha mantido no forte de S. Pedro à espera de reforços para a sua anunciada entrada em Luanda. O MPLA atinge em 19 de Agosto a barra do Dande que voltou a perder em 24. A 26 de Agosto há recontros na Jamba entre o MPLA e a UNI­TA. Um dos directores das minas é morto e o restante pessoal pre­tende abandonar o local. Já aqui, virá Portugal a assumir um encargo de seis milhões de contos se tudo continuar na mesma...

No dia 30 de Agosto a FNLA chega junto ao Quinfangondo, a cerca de 20 km de Luanda. Em Lisboa tomam posse o novo alto-comissário almirante Leo­nel Cardoso e o novo coman­dante-chefe-adjunto, generaI Heitor Almendra. A Reuter anuncia que em Lisboa o MPLA e a UNITA tinham firma­do um acordo de cessar-fogo. Infelizmente tal não era verda­de. Haviam sido acordados al­guns princípios, mas a partir da­qui, em vez de convergirem, es­tes movimentos afastar-se-iam cada vez mais. A UNITA acaba­ria por aliar-se à FNLA e a ser derrotada juntamente com esta no período pós-indepen­dência. Uma verdadeira aliança, se esta não fosse tão fortemente receada pela FNLA e outros in­teresses externos que também apoiavam a UNITA, teria certamente conduzido a situação bem menos dramática. A UNI­TA receava ser «comida» pelo MPLA, o MPLA pretendia utili­zá-la para resolver o problema de vez com a FNLA. Mais tarde se analisaria de novo o proble­ma. Era nisto que consistia uma aliança táctica, mas a UNITA era demasiado pequena e caute­losa para jogar tão forte.

Com o novo alto-comissário, secundado no terreno por ho­mens como Almendra, a parle portuguesa adquire o dinamis­mo que lhe faltava e uma di­recção em que não têm lugar os equívocos. A situação políti­ca e militar é mais clara (não mais fácil!) e portanto é possível um outro trabalho, em que avultava a ponte aérea que era necessário dinamizar constante­mente. Em Lisboa, junto ao Pre­sidente da República trabalhava

o Gabinete de Angola, «caixa de ressonância» da Comissão Coor­denadora, já que continuava a haver «pouca ressonância» em relação aos problemas angola­nos. Por aqui surgirá a necessidade de uma Secretaria de Retor­nados, que na altura será o IARN, só possível dadas as es­peciais características do tenente-coronel Amaral, que seria o seu di­rector. Hoje é fácil criticá-lo (ao IARN), mas só quem o iniciou saberá as dificuldades que en­controu para montar, à escala nacional, um serviço para ocor­rer a um problema que a cons­ciência nacional não vivia.

A norte do Quifangondo, em 1 de Setembro, morre um alfe­res português e são aprisionadas três praças pela FNLA. As praças são libertadas mais tarde.

Por esta altura as FAP esta­vam presentes em Luanda, Ca­binda, Santo António do Zaire, Catete, Nova Lisboa, Lobito, Moçamedes, Sá da Bandeira, Dondo e Benguela. O seu total não ultrapassava os 18 mil ho­mens. De Luanda eram constan­temente pedidas «tropas espe­ciais» dado que a data de inde­pendência se aproximava e era necessário prevenir militarmen­te a retirada das nossas tropas e dos portugueses» que ainda lá se encontravam e desejavam embarcar. Portugal tinha que garantir, como qualquer outra força nas suas circunstâncias, os principais pontos estratégicos, tais como cais. aeroportos, etc. Mas o sempre prometido retorço não chegava, nem chegou à excepção de «paras» volun­tários em 2 de Outubro. À medi­da que se aproximava o 11 de Novembro e depois o 25 de No­vembro, os problemas aumenta­vam quanto a esta eventualida­de. Mais uma vez parecia dar-se razão ao slogan, «nem mais um soldado para o ultramar».

O presidente da UNITA, Jo­nas Savimbi, profere, em 7 de Setembro, um discurso em que ataca fortemente a parte portu­guesa. Ele próprio havia afirma­do diversas vezes, que na pers­pectiva da UNITA seria impor­tante que os portugueses se mantivessem em Angola, por al­guns anos, através de um estatu­to a discutir. A evolução do pro­cesso, sobretudo a aliança FNLA/UNITA e a saída progressiva de Portugal, provocaram neste movimento, o desencanto e a desconfiança em relação a Por­tugal, que agora se materializa­va.

No dia 11 de Setembro, o MPLA desencadeia uma ofensiva a norte de Luanda, tendo chega­do aos Libongos. Assim se de­monstrava ser possível aliviar a pressão que a FNLA pretendia manter em relação à capital. Es­te movimento dispunha, nesta altura, de apoios externos que continuavam a ser insuflados tendo em linha de conta a inde­pendência que se aproximava. A FNLA não justificava os de­saires desses apoios dada a sua falta de inserção popular. Aca­baria, assim, por morrer aos poucos e tanto mais depressa consoante os golpes que lhe eram sucessivamente vibrados pelo MPLA.

Em 16 de Setembro, chegam a Luanda os delegados da reu­nião de Lusaka, para conver­sações com o MPLA. Nesta reu­nião, tinham estado presentes a República Popular do Congo Zâmbia, Tanzânia, Botswana, e Moçambique. Seguiram-se, de­pois, outras reuniões neste mes­mo local, possivelmente para se assentarem melhor os princípios fundamentais e as tarefas con­cretas, no sentido do novo não-alinhamento em África. De facto, é comum ouvir-se cm re­lação à RPA que esta é mais um «satélite» da URSS. No en­tanto, poucos conhecem o espírito do manifesto de Lusaka e as atitudes de países como a Tanzânia, perante a Federação que esta constituía com o Quénia (pró-EUA) e o Uganda (pró-URSS). Isto para não falar da República Popular do Congo ou da Zâmbia, condicionada por tantos e variados sectores. Do leque de países reunidos em Lusaka. resultou pois uma dele­gação que travou conversações com o MPLA, que (não o es­queçamos) estava na altura pe­rante ameaças bem concretas.

Isto não impede, porém, que certamente se tenham delineado as grandes linhas estratégicas com vista ao não alinhamento desses países, única forma de poderem, de futuro, desfrutar de uma verdadeira independência. Algo de semelhante está aliás, a acontecer em relação à Ro­désia; e algo de semelhante se, concretiza, por exemplo, numa Nigéria. E tudo se materializa, finalmente, no grande apoio diplomático que o MPLA foi su­cessivamente obtendo no conti­nente africano, a ponto de ter decisivamente influenciado a correlação de forças a nível da OUA.

Mas. entretanto, agiganta­va-se o espantalho da interna­cionalização do conflito, avulta-se a arena dos interesses que, derrotados no campo de luta, julgam poder resolver os reais problemas dos povos, recorren­do a grandes organizações, dis­pondo de grande poder militar. Assim, em 19 de Setembro, o grupo africano na ONU, rejeita­va uma proposta de Leopold Senghor (Senegal), no sentido de remeter para a ONU o proble­ma de Angola. Em 27 de Outu­bro, este mesmo grupo tomaria uma posição clara, reprovando a acção da coluna, que vinda da República da Africa do Sul, tentava desestabilizar a situação político-militar em Angola, nas proximidades da data da Inde­pendência, favorecendo assim as posições das já decrépitas FNLA/UNITA.

Mas, ainda em Setembro, no dia 21, a FNLA conseguia reto­mar o Caxito e a Barra do Dande, nas proximidades de Luan­da.

Nos dias a seguir, a OUA reú­ne para apreciar, entre outras coisa, a situação em Angola. A OUA afirma, então a sua po­sição de que deveria consti­tuir-se um Governo de Unidade Nacional, englobando os três Movimentos. Em seguida, envia a Angola uma numerosa dele­gação, que entrará em contado com os três movimentos. Nesta altura, portanto, o MPLA não dispunha ainda, na OUA, do apoio que depois foi sucessiva­mente conseguindo.

Também a Conferência dos Países Não-Alinhados, realizada em Lima, no Peru, se havia ma­nifestado favoravelmente em re­lação ao Movimento de Agosti­nho Neto e era flagrante o apoio que estes lhe dispensavam na ONU.

Em, 10 de Outubro chegaram a Luanda as delegaçôes da OUA, acontecendo então uma impressionante movimentação popular durante a sua visita. O MPLA não perdia o ensejo de mostrar a sua real implantação. Entre 15 e 17 de Outubro a delegação vai a Nova Lisboa a fim de contactar a UNITA e entre 17 e 19 vai ao Ambriz para contactar a FNLA.

Entretanto entre 16 e 17 a FNLA desencadeia acções na 1ª Região Político-Militar do MPLA, situada a Norte de Luanda, a que possivelmente não é alheia a presença dos observadores da OUA.

A 19 de Outubro o Directório do MPLA faz uma declaração, lida pelo Presidente Agostinho Neto, na qual acusa a FNLA de ser a culpada dos acontecimentos. A 22 do mesmo mês, um grupo de portugueses (que depois virão a Portugal), reúne-se e aprova uma moção em que se exige que a Independência seja dada ao MPLA.

Ainda em Outubro, Vítor Crespo desloca-se a Angola, tendo do estado no dia 23 em Luanda, dia 24 no Ambriz e no dia 25 em Nova Lisboa.

A data da Independência aproximava-se a passos largos. Em Angola a posição era cada vez mais favorável ao MPLA, apesar dos obstáculos que falta­va vencer. Consequentemente a pressão internacional aumenta­va (lá e cá).

Então, em 26 de Outubro, processa-se a entrada em Ango­la de uma coluna militar que, vinda da Africa do Sul, anuncia­va entrar em Luanda até 8 de Novembro. Os objectivos eram, pois, claros e inserem-se numa manobra desesperada mais vasta que visava tentar o impossí­vel. Em Portugal, alguns políti­cos afirmavam que o MPLA es­tava por dias. Aqui, a correlação de forças, não permitia que Por­tugal assumisse uma posição cla­ra.

A entrada desta coluna, con­juntamente com a movimen­tação de forças da FNLA/UNITA, vai dar origem a uma série de combates, extremamente vio­lentos, em três linhas fundamen­tais, que tentavam superar o MPLA: de Sul para Norte e junto à costa, apresentava-se a coluna militar que referimos; sensi­velmente de Leste para Oeste, desenvolviam as forças da FNLA/UNITA; de Norte para Sul avançavam as forças da FNLA/Zaire.

O ponto de confluência fundamental era Luanda. Os objec­tivos principais, o domínio da faixa costeira, a Norte e Sul e a partilha do MPLA entre a área de Luanda e o Leste.

Entre os dias 1 e 5 de Novem­bro, a ONU reúne em Kampala, estando presentes observadores portugueses, expressamente con­vidados para o efeito. Portugal afirma que reconhecerá os Mo­vimentos de Libertação até à da­ta da Independência e que a so­berania será entregue ao Povo angolano. Ficava, pois, em aber­to, o reconhecimento de um Governo em Angola.

Retornados não são seres de outra espécie

No dia 2 de Novembro, termina a ponte aérea, enquanto se carregam os últimos navios incluídos na ponte marítima. A ponte aérea, a maior da história da humanidade, tinha consti­tuído das principais preocu­pações das autoridades portu­guesas. Havia que garantir, a quem desejasse embarcar, a pos­sibilidade de o fazer, embora sem encorajar as pessoas para que o fizessem. Os problemas que se levantaram e que foi pre­ciso resolver revelaram-se imensos. Assim, houve que ter em conta os elevados custos da operação e foi necessário arranjar os meios (gratuitos e fretados) planeando depois a sua utilização racional articulada com os problemas do combustível que se tentava arranjar nos mais diversoso locais. Foram enviados petroleiros para obviar as falhas do fornecimento das refinarias de Luanda e a máquina dos Negócios Estrangeiros tentava conseguir a chamada “gasolina política”, que por vezes faltava. Havia que garantir a segurança, desde os terminais aéreos e marítimos, até à alimentação e saúde dos numerosos refugiados que se aglomeravam, impacientes. Nos portos e aeroportos, a bagagem amontoava-se. E as pessoas partiam, por vezes sem os seus haveres, acumulando-se depois no aeroporto de Lisboa. Havia ainda o problema das tranferências de dinheiro, da quantidade de bagagens que cada um podia trazer, etc, etc, etc... As reacções dos indivíduos eram as mais diversas. Desde os que colaboravam com as autoridades organizando os embarques nos terminais, viajando vezes sem conta, entre Angola e Portugal, ou acolhiam aqui os refugiados que iam chegando. Outros, traumatizados pelos acontecimentos, lançavam em frente o seu egoismo e tentavam passar o que podiam, mesmo que isso significasse que outros nada poderiam trazer. O controlo de tudo isto era dificílimo e os negócios ilícitos proliferavam.

Com a vinda dos refugiados, o povo português assumia uma maior consciência da magnitude do problema. Mas esse problema não assumia a dimensão nacional que efectivamente tem, nem a incapacidade de o enfrentar. Muitos acabavam por repelir simplisticamente os que acabavam de chegar, apelidando-os de colonialistas, reaccionários e um perigo para a Revolução. Mas o problema não era só este. De facto qualquer massa de desadaptados é um perigo social, sobretudo se estes são traumatizados, como é o caso. Era preciso pois acolhê-los condignamente, integrá-los na sociedade, inclui-los nos circuitos de emigração, que permitissem o seu refluxo para a terra de onde tinham partido.

No período que vai de Agosto a 31 de Outubro, os números registados no que respeita a transporte de pessoal e material foram: TAP comercial, 68.761; TAP, aviões fretados 46.134. Em voos gratuitos temos a TAP com 1.382, EUA 30.727, URSS 4.771, França 3.874, GB 5.906, RFA [República Federal Alemã], 4.195, RDA [República Democrática Alemã] 4.039. Por via marítima foram transportados em navios fretados 5.104 pes­soas e em navios oferecido pela URSS 690. Isto perfaz um total de 238.265. No que respeita a bagagens, foram transportadas na ponte aérea 1.140 toneladas e por via marítima (comercial) cerca de 226.000 metros cúbi­cos, além de 15.490 viaturas.

Evidentemente, que além des­tes números, haverá que contar com os refugiados que abando­naram Angola, quer pelas fron­teiras Sul e Norte ou para a Zâmbia (poucos) e que depois utilizaram meios não controlados. Há que contar também com os que saíram de Angola antes desta data. No entanto, é inegável que o maior número de refugiados utilizaram estes meios no período considerado, pelo que o número total não excederá possivelmen­te as 320/350.000 pessoas.

Em 11 de Novembro aconteceu a Independência de Angola. Depois do arriar da bandeira na fortaleza, ao pôr-do-sol, o último alto-comissário, almirante Leonel Car­doso, embarcava no «Niassa» que, juntamente com os outros navios aguardara dentro dos li­mites das águas territoriais o primeiro minuto do dia 11, zar­pando em seguida para Portu­gal. Em Luanda, seguir-se-iam diversos festejos e comemo­rações, sob a égide do MPLA e na presença de diversas entidades estrangeiras convidadas por este Movimento, Da presença portuguesa, restava agora, numa qua­lidade semioficial, o dr. Teixei­ra da Mota, além de todos os portugueses que haviam efecti­vamente permanecido na terra que consideraram sua. A UNITA e a FNLA, haviam proclama­do a República Democrática de Angola, sem que no entanto, es­ta viesse a ser reconhecida por qualquer país. A situação mili­tar era ainda tensa. Avizinha­vam-se grandes combates, entre o MPLA, que havia formalizado um pedido de auxílio a Cuba e à URSS e os seus opositores, que dispunham dos apoios que se conhecem.

Em Portugal, a indepen­dência de Angola era um pro­blema grave sob o ponto de vis­ta político. Não só devido aos diversos prismas com que o pro­blema era visto por diferentes forças políticas, mas também pelo peso da pressão externa. Não foi, pois, possível a tomada de uma resolução, que, pelo me­nos levasse em linha de conta, de uma maneira realista, os inte­resses materiais do Povo portu­guês. Portugal, teve nos últimos momentos do período da desco­lonização deste território, gran­des hipóteses de entrar no cami­nho das boas relações com a RPA [República Popular de Angola], em melhores condições do que as actuais. Para resolver o problema da posição portugue­sa, punham-se diferentes hi­póteses, desde o reconhecimento de jure do MPLA, ao reconheci­mento de facto deste Movimen­to, que poderia ser acompanhado ou não do reconhecimento »com efeitos limitados» dos outros Movimentos. Uma posição destas tinha pro­fundas implicações em relação ao panorama político e militar, sobretudo no respeitante à política externa. Assim, uns, talvez desconhecendo a essência do problema, afirmavam que o MPLA estava por dias, outros, receavam possíveis reacções de retornados (sem ter em conta o que representava para a reso­lução dos seus problemas), mas a grande maioria receava funda­mentalmente as reacções de países estrangeiros.

O ambiente político em Por­tugal já se encontrava bastante complicado. Assim, embora es­tando prevista uma deslocação de Vítor Crespo a Luanda onde assistiria a uma cerimónia com o país já independente (e nisto consistiria o reconhecimento de facto), esta foi cancelada à últi­ma hora, já que o Governo reu­nido em S. Bento não dava o seu aval a este procedimento. Estavam estabelecidos à volta deste assunto (e não só) os cho­ques relativos, entre o Conselho da Revolução e as forças presen­tes no Governo, o que viria a contribuir possivelmente para a reformulação da direcção polítíco-militar em 25 de Novembro.

Depois, como todos sabemos, o problema foi sendo sucessiva­mente adiado, as relações entre os dois países passaram por me­lhores e piores momentos (mas nunca bons e suficientes) enquanto outros países reconheciam primeiro que Portugal, uma situação que já era eviden­te há muito tempo. Resta-nos agora esperar, que se ultrapas­sem as dificuldades que restam, para entrarmos numa época de franca cooperação. E que os re­fugiados, vítimas directas de uma situação que os ultrapas­sou, também compreendam que esta será a única e a melhor via para a tentativa de solução dos seus problemas, opondo-se fundamentalmente às manobras dos que persistem querer man­tê-los como seres de outra es­pécie, necessariamente desenquadrados do pais onde se acolheram.

Dezasseis anos depois, a data contínua bem viva

Pela primeira vez em decla­ração oficial, os Estados Unidos revelaram a presença de tropas cubanas em Angola em Novem­bro de 1975. Três meses depois, durante uma breve visita a Ca­racas, Henry Kissinger disse, em privado, ao presidente Carlos Andrés Perez: «Os nossos ser­viços de informação estão tão deteriorados, que só soubemos da ida dos cubanos para Angola quando já lá estavam».

Naquela altura, já estavam em Angola muitas tropas, espe­cialistas militares e técnicos ci­vis cubanos, em número que ul­trapassa o que Henry Kissinger poderia prever. Havia tantos barcos cubanos ancorados na Baía de Luanda, que o Presiden­te Agostinho Neto, ao contá-los da sua janela, sentiu um estre­mecimento de pudor, próprio do seu carácter. «Não é justo teria ele dito a um funcio­nário amigo — por este cami­nho, Cuba vai arruinar-se».

E provável que nem os próprios cubanos tivessem pre­visto que a ajuda solidária ao povo angolano viesse a alcançar tamanhas proporções. O que sa­biam, desde o início, era que a acção teria de ser decisiva e rápida, e que de modo nenhum se poderia perder.

Os contactos entre a revo­lução cubana e o Movimento Popular de Libertação de Ango­la (MPLA) estabeleceram-se pe­la primeira vez em Agosto de 1965, quando «Che» Guevara participava nas guerri­lhas do Congo e desde então intensificaram-se bastante. No ano seguinte, esteve em Cuba o próprio Agos­tinho Neto, acompanhado por Endo, o comandante-chefe do MPLA, que viria a morrer du­rante a guerra, tendo-se avista­do ambos com Fidel Castro.

Em breve, e pelas próprias condições da luta em Angola, esses contactos tornaram-se apenas eventuais. Só em Maio de 1975, data em que os portu­gueses se preparavam para reti­rar das colónias de Africa, o comandante cubano Flavio Bra­vo se encontrou em Brazaville com Agostinho Neto, altura em que este lhe solicitou auxílio no transporte de um carregamento de armas, tendo-o consultado, por outro lado, sobre a possibili­dade de uma assistência mais ampla e específica. Consequen­temente, o comandante Raul Diaz Arguelles deslocou-se, três meses mais tarde, a Luanda, à frente de uma delegação civil cubana, e Agostinho Neto foi, então, mais preciso, ainda que não ambicioso: solicitou o envio de um grupo de instrutores para fundar e dirigir quatro centros de treino militar.

Bastaria um conhecimento superficial da situação de Ango­la para se compreender que o pedido de Neto era, também, típico da sua modéstia. Ainda que o M PLA, fundado em 1956, fosse o movimento de libertação mais antigo de Angola, e se bem que o único implantado numa base popular mais ampla e ofe­recendo um programa social, político e económico de acordo com as condições próprias do país, era, contudo, o que se en­contrava numa situação militar menos vantajosa. Dispunha de armamento soviético, mas care­cia de pessoal especializado para o manusear. Pelo con­trário, as tropas regulares do Zaire, bem treinadas e abasteci­das, haviam penetrado em An­gola desde o dia 25 de Março, proclamando em Carmona um governo de facto presidido por Holden Roberto, dirigente da FNLA e cunhado de Mobutu, cu­jas ligações com a CIA eram do conhecimento público. A Leste, sob os auspícios da Zâmbia, encontrava-se a UNlTA comandada por Jonas Savimbi, um aventureiro sem princípios, que tinha mantido uma colaboração constante com os militares portugueses e com as companhias estrangeiras de exploração. Por último, as tro­pas regulares da África do Sul, através do território ocupado da Namíbia, tinham cruzado a fronteira meridional de Angola no dia 5 de Agosto, a pretexto de protegerem as barragens do complexo hidroeléctrico de Ruacana-Caluaque.

Todas estas forças, com os seus enormes recursos económi­cos e militares, estavam prontos para cerrar à volta de Luanda um círculo irresistível, em vésperas do 11 de Novembro, data em que o Exército portu­guês abandonava aquele vasto, rico e formoso território, onde tinham vivido felizes durante quinhentos anos. De modo que, quando os dirigentes cubanos receberam o pedido de Neto, não se limitaram a cumpri-lo à risca, tendo decidido mandar de imediato um contigente de 480 especialistas, que num pra­zo de seis meses deviam instalar quatro centros de treino e orga­nizar 16 batalhões de infantaria, bem como 25 baterias de mor­teiro e metralhadoras an­tiaéreas. Como complemento, enviaram uma brigada de médi­cos, 115 veículos e uma equipa bem preparada de comuni­cações.

Este primeiro contingente foi transportado em barcos impro­visados. O «Vietname Heróico», o único próprio para passagei­ros, fora comprado pelo ditador Fulgêncio Batista a uma compa­nhia holandesa, em 1956, e depois convertido em navio-escola. Os outros dois, o «Coral lsland» e «La Plata» eram navios mercantes adaptados de ur­gência para o efeito. Todavia, a forma como foram carregados ilustra bem o sentido de previsão e de audácia com que os cubanos haviam de enfrentar compromisso de Angola.

Parece insólito que tivessem levado de Cuba o combustível para os veículos. Na realidade, Angola é um país produtor de petróleo e, em contrapartida, os cubanos tiveram de transportar o carburante através de meio mundo, desde a União Soviéti­ca. Contudo, os cubanos preferiram actuar pelo seguro, e desde essa primeira viagem carrega­ram mil toneladas de gasolina repartidas por três barcos. O «Vietname Heróico» levou 200 em tanques de 55 galões cada um, e viajou com as escoti­lhas abertas, de modo a facilitar a eliminação de gases. O «La Plata» transportou a gasolina na coberta. A noite em que a estiva ficou concluída foi assinalada com uma festa popular cubana, rebentaram foguetes e assis­tiu-se a prodígios de pirotecnia mesmo nos molhes de Havana, onde uma faúlha perdida podia ter transformado em pó aqueles três arsenais flutuantes. O próprio Fidel Castro foi à despe­dida como fez posteriormente com todos os que partiam para Angola e, depois de ver as con­dições em que iriam viajar, sol­tou uma frase muito sua, mas apesar de tudo em tom casual:

«De qualquer maneira – disse – vão mais comodamente do que na Gramna».

Não havia qualquer garantia de que os militares portugueses iriam permitir o desembarque dos instrutores cubanos. No dia 26 de Julho desse ano, já depois de Cuba ter recebido o primeiro pedido do MPLA, Fidel Castro pediu a Otelo Saraiva de Carvalho, em Havana, que suge­risse ao Governo de Portugal que fosse dada a autorização pa­ra a entrada de reforços cubanos em Angola, o que Saraiva de Carvalho prometeu conseguir, sem que a sua resposta tenha alguma vez chegado. De modo que o «Vietname Heróico» fun­deou em Porto Amboim a 4 de Outubro, às 6 e 30 da manhã; o «Coral Island» chegou no dia 7 e o «La Plata» a 11, em Ponta Negra. Chegaram sem licença de ninguém — mas também sem oposições.

Tal como estava previsto, os instrutores cubanos foram rece­bidos pelo MPLA e puseram a funcionar imediatamente os quatro centros de treino para instrutores. Um em Delatando, a que os portugueses chamavam Salazar, 300 quilómetros a Este de Luanda; outro no porto atlântico de Benguela; outro em Saurimo, antiga Henrique de Carvalho, na remota e desértica província oriental de Luanda, onde os portugueses tinham mantido uma base militar, que destruíram antes de retirarem; e a quarta em Cabinda. Nessa altura, as tropas de Holden Ro­berto estavam tão perto, que um monitor de artilharia cubana, quando dava a primeira instruçâo aos seus recrutas de De­latando, via, do sítio onde se encontrava, os blhdados dos mercenários a avançar.

No dia 23 de Outubro, as tro­pas regulares da Africa do Sul penetraram através da Namíbia, com uma brigada mecanizada e, três dias depois, ocupavam sem resistência as cidades de Sá da Bandeira e de Moçâmedes.

Era um passeio dominical. Os sul-africanos levavam consigo equipamentos de «cassettes» com música de festa instalados nos tanques. No Norte, o chefe da coluna mercenária dirigia as operações num Honda desporti­vo, acompanhado por uma rui­va estilo actriz de cinema. Avançava com ar de quem está de férias, sem colunas de explo­radores; e nem se deve ter dado conta do local de onde veio o roquete que fez voar o seu carro em pedaços. Na mala da mu­lher, apenas foi encontrado um vestido de gala, um biquini e o convite para a festa de vitória que Holden Roberto tinha já preparado em Luanda.

No fim dessa semana, os sul-africanos tinham penetrado já mais de 600 quilómetros em território angolano e avançavam para Luanda, à ra­zão de uns 70 quilómetros diários. No dia 3 de Novembro haviam atacado o escasso pes­soal do centro de instrução para recrutas de Benguela. Assim, os instrutores cubanos tiveram de abandonar as escolas para en­frentar os invasores, acompa­nhados dos seus aprendizes de soldados, aos quais davam ins­truções durante as pausas do combate. Até os médicos revive­ram a sua prática de milicianos e foram para as trincheiras. Os dirigentes do MPLA, prepara­dos para a luta de guerrilhas, mas não para uma guerra total, compreenderam então que aquele conluio de vizinhos, sus­tentado pelos recursos mais repugantes e devastadores do im­perialismo, não poderia ser der­rotado sem um apelo urgente à solidariedade internacional.

O espirito internacional dos cubanos é uma virtude his­tórica. Apesar de a revolução o ter definido e adaptado, dos princípios do marxismo, a sua essência encontrava-se muito bem estabelecida na conduta e na obra de José Marti. Esta vo­cação foi evidente — e geradora de conflitos — na América Lati­na, na Africa e na Ásia. Na Argélia, mesmo antes de a revo­lução cubana ter proclamado o seu carácter socialista, já Cuba tinha prestado uma ajuda consi­derável aos combatentes da FLN na sua guerra contra o colonialismo francês. Tanto assim que o Governo do general De Gaulle proibiu como represália, os voos da companhia cubana de aviação de atravessarem o céu da França. Mais tarde, en­quanto Cuba era devastada pelo ciclone Flora, um batalhão de combatentes internacionalistas cubanos foi defender a Argélia contra Marrocos. Pode dizer-se que não existe nenhum movi­mento de libertação africano que não tenha contado com a solidariedade de Cuba, quer com material e armamento, quer com a formação de técni­cos e especialistas militares e ci­vis. Moçambique desde 1963; Guiné-Bissau, desde 1965, os Camarões e a Serra Leoa — to­dos solicitaram em algum mo­mento e obtiveram de alguma forma a ajuda solidária dos cu­banos. O presidente da Repúbli­ca da Guiné, Sekou Touré, evi­tou um desembarque de merce­nários com a ajuda de uma uni­dade de cubanos. O comandante Pedro Rodrigues Peralta, agora membro do Comité Central do Partido Comunista de Cuba, foi capturado e encarcerado vários anos pelos portugueses na Gui­né-Bissau.

«Che» no Congo


Quando Agostinho Neto ape­lou para os estudantes angola­nos em Portugal irem estu­dar para os países socialistas, muitos deles receberam acolhimento em Cuba. Presentemente, todos estão vinculados à construção do socialismo em Ango­la, alguns deles em posições de destaque. E o caso de Mingas, economista e actual ministro das Finanças de Angola; Henri­que dos Santos, engenheiro geólogo, comandante e membro do Comité Central do MPLA e casado com uma cubana; Mantos, engenheiro agrónomo e actual chefe da Academia Mili­tar e N'Dalo, que nos seus tem­pos de estudante se destacou co­mo o melhor futebolista de Cuba e que, actualmente, é o segundo chefe da primeira brigada de Angola. Todavia, nada disto dá tanto significado à antiguidade e à intensidade da presença de Cuba em África como o facto de o próprio «Che» Guevara, no apogeu da sua carreira e da sua idade, ir combater nas guerri­lhas do Congo, em 25 de Abril de 1965. No final da sua carta de despedida a Fidel Castro, renunciava ao seu posto de co­mandante e a tudo o que o vin­culava legalmente a Cuba. Foi sozinho, num avião comercial, com nome e passaporte falsos, a fisionomia alterada por dois «toques» de mestre e uma pasta de negócios com livros literários e muitos inaladores para a sua asma insaciável, distraindo-se nas horas mortas, nos quartos dos hotéis, com intermináveis e solitárias partidas de xadrez. Três meses mais tarde, juntar-se-lhe-iam, no Congo, 200 cubanos, tropas que viajaram desde Havana, num barco carre­gado de armamento. A missão específica de «Che» era treinar guerrilheiros para o Conselho Nacional da Revolução do Con­go, que combateriam contra Moisés Tchombé, aliado dos an­tigos colonos belgas e das com­panhias mineiras internacionais. Lumumba tinha sido assassina­do. O chefe titular do Conselho Nacional da Revolução era Gas­ton Soumaliot, mas Laurent Cavila, dirigia as operações a par­tir do seu esconderijo de Kigona, na margem oposta do lago Tanganika. Aquela situação contribuiu, sem dúvida, para preservar a verdadeira identida­de de «Che» Guevara e ele próprio para maior segurança, não figurou como chefe princi­pal da missão. Por isso, era co­nhecido sob o pseudómino de Tatu, que era equivalente a «número dois» em swahili.

«Che» Guevara permaneceu no Congo de Abril a Dezembro de 1965. Não só treinava guerri­lheiros como também os dirigia em combate, e lutava ele próprio. As suas ligações pes­soais com Fidel Castro, as­sunto em relação ao qual muito se tem especulado, nunca enfra­queceram. Os seus contactos foram permanentes è cordiais, me­diante sistemas de comunicação bastante eficazes.

Quando Moisés Tchombé foi destituido, os congoleses pedi­ram a retirada dos cubanos co­mo medida para facilitar o ar­mistício. «Che» Guevara partiu como tinha chegado: sem fazer barulho. Foi pelo aeroporto de Dar-es-Salam, capital da Tan­zânia, num avião comercial, e lendo e relendo, durante a via­gem, um livro com problemas de xadrez, para tapar a cara du­rante as seis horas de voo, en­quanto, a seu lado, o seu aju­dante cubano tratava de entreter o comissário político do Exérci­to de Zanzibar, um velho admi­rador de «Che» Guevara e que falava nele sem descanso duran­te a viagem, tentanto obter notícias a seu respeito e reite­rando os seus desejos de o voltar a ver.

Aquele circuito fugaz e anóni­mo de «Che» Guevara em Áfri­ca deixou um rasto que nin­guém poderia apagar. Alguns dos seus homens dirigiram-se para Brazaville, aí ensinando unidades de guerrilheiros para o PAIGC, dirigido por Amílcar Cabral, e em especial, para o MPLA.

Uma das forças treinadas por eles entrou clandestinamente em Angola, através de Kinsha­sa, e incorporou-se na luta con­tra os portugueses sob o nome de «Coluna Camilo Cienfuegos». Outra, infiltrou-se em Ca­binda e, mais tarde, cruzou o rio Congo e implantou-se na zo­na dos Dembos, onde nasceu Agostinho Neto e a luta contra os portugueses se desenrolou ao longo de cinco séculos. Portan­to, a acção solidária de Cuba em Angola não foi um acto im­pulsivo e casual, mas uma con­sequência da política contínua da revolução cubana em Africa. Só que havia um elemento novo e dramático nesta delicada decisão. Desta vez, não se tratava, simplesmente, de mandar uma possível ajuda, mas de empreen­der uma guerra regular e em longa escala, a 10.000 quilóme­tros do seu território, com um custo económico e humano in­calculável e consequências políticas imprevisíveis.

A possibilidade de os Estados Unidos virem a intervir aberta­mente, e não através de merce­nários, e da Africa do Sul, como o tinham feito até então, era, sem dúvida, um dos enigmas mais inquietantes. Todavia, uma análise rápida permitia prever que, pelo menos, teria de pensar três vezes, antes de o fazer, no momento em que acabava de sair do pântano do Vietname e do escândalo do Watergate, com um presidente que ninguém tinha eleito, com a CIA hostilizada pelo Congres­so e desprestigiada ante a opi­nião pública, e a necessidade de se acautelar para que não apare­cesse como aliada da Africa do Sul, racista, não só aos olhos da maioria dos países africanos, como, também, perante a popu­lação negra dos Estados Unidos, mais a mais em plena campanha eleitoral e no flamejante ano do bicentenário. Por outro lado, os cubanos podiam contar com a solidariedade e a ajuda material da União Soviética e dos outros países socialistas, mas também tinham conciencia das impli­cações que a sua acção poderia vir a ter na política de coexis­tência pacífica e do desanuviamento internacional. A decisão implicava consequências irre­versíveis, e era um problema demasiado vasto e complexo pa­ra que pudesse ser resolvido em vinte e quatro horas. Em todo o caso, a Direcção do Partido Comunista de Cuba teve apenas vinte e quatro horas para se de­cidir, e fê-lo sem vacilar, no dia 5 de Novembro, durante uma reunião longa mas serena. Ao contrário do que se disse, tratou-se de um acto indepen­dente e soberano por parte de Cuba, e só depois da decisão, e não antes, se enviou a respecti­va notificação à União Soviéti­ca. Noutro 5 de Novembro, des­sa vez em 1843, uma escrava de Triunvirato, na região de Matanzas, a quem chamavam a Negra Carlota, tinha empunhado um machado e, à frente de um grupo de escravos, fizera uma rebelião. Como homenagem à sua figura, a acção solidária de Cuba em Angola foi dado o seu nome: «Operação Carlota.»

A «Operação Carlota» teve início com o envio de um bata­lhão reforçado de tropas espe­ciais, composto de 650 homens. Foram transportados de avião, em voos sucessivos que duraram treze dias, desde a secção mili­tar do aeroporto José Marti, em Havana, até ao aeroporto de Luanda, ainda ocupado por tro­pas portuguesas.

A sua missão específica era a de conter a ofensiva, de modo a que a capital de Angola não caísse em poder das forças ini­migas antes da saída dos portu­gueses, e, logo de seguida, suster a resistência até à chegada de reforços por mar. Mas os ho­mens que saíram nos dois voos iniciais já partiam convencidos de que chegariam demasiado tarde, e apenas abrigavam a es­perança final de salvar Cabinda.

Um segredo guardado por oito milhões

O primeiro contigente saiu no dia 7 de Novembro, às quatro horas da tarde, num voo espe­cial da Cubana de Aviacion, a bordo de um dos lendários «Bristol Britânia» BB 218 de turbo hélice, que tinham deixa­do de ser construídos pelos seus fabricantes ingleses e eram, as­sim, alvo de interesse no mundo inteiro. Os passageiros, que se recordam bem de serem 82, vis­to ter sido um número igual ao dos homens de Granma, tinham um ar saudável de turistas bron­zeados pelo sol de Caribe. To­dos iam vestidos de verão, sem insígnias militares, munidos de malas diplomáticas e passapor­tes normais, com os seus verda­deiros nomes e identidades. Os membros do batalhão de tropas especiais, que não dependem das Forças Armadas Revolucio­nárias, mas sim do Ministro do Interior, são guerreiros milito experientes, de elevado nível político e ideológico, alguns com cursos, leitores habituais e revelando uma permanente preocupação pela superação in­telectual. De modo que aquele seu aspecto de civis ao domingo não deverá ter constituido novi­dade para eles.

Mas, nas malas diplomáticas, levavam metralhadoras, e no compartimento de carga do avião, em lugar da equipagem, havia um bom carregamento de artilharia ligeira, armas indivi­duais de guerra, três canhões de 75 mm e três morteiros 82. A única transformação feita no avião, assistido por duas hospedeiras, era uma comporta, para poderem ser retiradas as armas da cabine de passageiros, em ca­so de emergência.

O voo de Havana a Luanda fez escala em Barbados, para meter combustível, no meio de uma tempestade tropical, e na Guiné-Bissau, durante cinco horas para esperar a noite, de modo a voarem secretamente até Brazaville. Os cubanos apro­veitaram aquelas cinco horas para dormir, o que constituiu, para eles, o mais espantoso sono de toda a viagem, pois havia tantos mosquitos no aeroporto que as roupas das camas fica­ram ensanguentadas.

Desembarque de cubanos em Luanda


Mobutu, com a sua arro­gância proverbial, disse que Brazaville é iluminada pelo esplendor de Kinshasa, a moderna e fulgurante capital do Zaire. Nisso não lhe falta razão. As duas cidades estão situadas uma frente à outra, com o rio Congo no meio, e os respectivos aero­portos estão tão perto um do outro que os primeiros pilotos cubanos tiveram de os estudar muito bem para nâo aterrarem na pista inimiga. Fizeram-no sem contratempos, de luzes apa­gadas, para nâo serem vistos da outra margem, e permaneceram em Brazaville apenas o tempo suficiente para se informarem, por rádio, sobre a situação em Angola. O comandante angola­no Xieto, que mantinha boas re­lações com o comissariado por­tuguês, tinha obtido deste a au­torização para os cubanos ater­rarem em Luanda. Assim o fize­ram, às dez da noite do dia 8 de Novembro, sem o auxílio da torre e debaixo de um aguaceiro torrencial. Quinze minutos mais tarde chegou o segundo avião. Naquele momento, apenas saíam de Cuba três barcos carre­gados com um regimento de ar­tilharia, um batalhão de tropas motorizadas e o pessoal de arti­lharia a reacção, que começaria a desembarcar em Angola a par­tir de 27 de Novembro. Em con­trapartida, as tropas de Holden Roberto estavam tão próximas, que horas antes tinham morto uma velha nativa com os tiros de canhões ao tentarem al­cançar o quartel do Grande Farni, onde se concentraram os cubanos. Assim, estes nem tive­ram tempo para descansar. Puseram-se em uniforme verde azei­tona, incorporaram-se nas fileiras do MPLA e partiram para o combate.

A imprensa cubana, por ques­tões de segurança, não publicara a notícia da intervenção em An­gola. Mas, como acontece sempre em Cuba em assuntos mili­tares tão delicados como este, a operação constituía um segre­do ciosamente guardado por oi­to milhões de pessoas. O Primei­ro Congresso do Partido Comu­nista, que se realizaria dali a poucas semanas, e que consti­tuiu uma espécie de obsessão nacional durante todo aquele ano, adquiriu então uma dimen­são nova.

O processo empregue para a formação das unidades de vo­luntários partiu de uma convocatória privada com os elemen­tos da primeira reserva, que compreende todos os filhos va­rões entre os 17 e os 25 anos, bem como aqueles que já per­tenceram às Forças Armadas Revolucionárias. Convoca­ram-nos por telegrama, para se apresentarem ao comité militar, sem mencionarem o motivo, mas este era tão evidente que todos aqueles que se achavam com capacidade militar para is­so se dirigiram mesmo sem tele­gramas prévios, ao seu comité militar, pelo que muito trabalho se teve para que aquela solicitu­de maciça não se convertesse em desordem nacional. Até onde o permitiu a ur­gência da situação, o critério se­lectivo foi bastante minucioso. Não só se tomaram em conta a qualificação militar e as con­dições ffísicas e morais, mas também os antecedentes de tra­balho e a formação política. Apesar deste rigor, são incon­táveis os casos de voluntários que lograram enganar os filtros da selecção. Sabe-se de um en­genheiro qualificado que se fez passar por condutor de camiões, de um alto funcionário que se fez passar por mecânico, de uma mulher que esteve prestes a ser admitida como soldado raso. Sa­be-se do caso de um rapaz que foi sem licença do pai e que, mais tarde, se encontrou com ele em Angola, porque o pai também tinha ido às escondidas da família. Em contrapartida, um sargento de vinte anos não conseguiu que o mandassem de maneira nenhuma e, contudo, leria de vir a suportar o seu machismo ferido, por terem mandado a mãe, que é jornalis­ta, e a noiva que é médica. Al­guns deliquentes comuns, encar­cerados, pediram para ser admi­tidos, mas nenhum desses casos foi contemplado.

A primeira mulher a partir, em princípios de Dezembro, ti­nha sido preterida muitas vezes, com o argumento de que «aqui­lo era muito pesado para uma mulher». Estava a preparar-se para ir clandestinamente de bar­co, e até já tinha escondido a sua roupa a bordo, com a cum­plicidade de um companheiro que era fotógrafo, quando veio a saber que tinha sido escolhida para ir legalmente e por avião. O seu nome é Esther Lilia Diaz Rodriguez, uma ex-professora de vinte e três anos que ingres­sou nas Forças Armadas em 1969, tendo uma boa nota em tiro de infantaria. Com ela par­tiram, também, três irmãos, cada um de sua vez: César, Ruben e Erineldo. Todos por sua conta e, sem terem combinado, os quatro contaram a mesma men­tira à mãe: que iam para as manobras militares de Camaguey, por causa do Congresso do Par­tido. Regressaram sãos e salvos, e a mãe está orgulhosa por te­rem estado em Angola, mas não lhes perdoa a mentira sobre as manobras em Camaguey.

As conversas com os que re­gressaram permitem concluir que alguns cubanos queriam ir para Angola por motivos pes­soais muito diferentes. Pelo me­nos Um, infiltrou-se com o pro­pósito simples de desertar, e lo­go sequestrou um avião portu­guês e pediu asilo em Lisboa. Nenhum deles foi à força, todos tiveram de formar filas de vo­luntários. Alguns negaram-se a partir depois de escolhidos e fo­ram, depois, vítimas de toda a espécie de insultos públicos e desprezo em família. Mas não há dúvida que a imensa maioria foi para Angola com a plena convicção de cumprir um acto de solidariedade política, com a mesma consciência e amesma coragem com que quinze anos antes tinham rechaçado o de­sembarque em Playa Giron e, por isso mesmo, a Operação Carlota não foi uma simples ex­pedição de guerreiros profissio­nais mas antes uma guerra po­pular.

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2 comentários:

  1. Mais um excelente trabalho!
    Talvez seja do Cáceres Monteiro.
    Embora nunca me identificasse ideologicamente quer com "O Jornal",quer com o"Nouvel Observateur",o importante é realçar a diferença abismal entre o jornalismo dessa época e o actual!...
    Mais uma vez,parabéns camarada Dias por este trabalho que tarda em ter feedback neste blogue!

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  2. Essa foto de soldados montados num carro de combate nada tem a haver com soldados cubanos, primeiro porque o fardamento é português e nunca os cubanos tiveram esse tipo de farda, segundo porque o militar em primeiro plano diz bem que pertence à POLICIA MILITAR DE LUANDA. Esta foto também rebate a propalada ajuda dos militares portugueses ao MPLA, e a bandeira bem o indica como militares portugueses em conluio com a UNITA. Tenho outras fotos em que se vê militares portugueses em berliets apoiando manifestaçôes da UNITA em Luanda.

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