BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 5) – OS “REINOS” PRIMITIVOS (1) – O “REINO” DO KÔNGO



PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 5)
OS “REINOS” PRIMITIVOS (1)
O “REINO” DO KÔNGO

Como vimos no texto anterior aqui publicado, quando Diogo Cão atingiu a foz do rio Zaire, encontrou o potentado de que o rei D.João II já tinha notícia: o senhorio do Kôngo, a que chamou “Reino”, à falta de melhor designação. Contudo o senhor do Kôngo não era, como também já vimos atrás, um “Rei” – na tradição das línguas indoeuropeias – mas apenas uma espécie de “monarca feudal” arcaico, se quisermos fazer uma ténue comparação com a civilização europeia.

O território do senhorio do Mâni Kôngo (como era designado o Senhor do Kôngo localmente) teria sido ocupado durante o primeiro milénio D.C. pelos Bantu, na sua longa marcha pela África subsahariana, desde a foz do Níger – pressionados pela pressão dos povos saharaui, devido à desertificação do Sahara. Devemos referir que os bantu, apesar de serem portadores das técnicas do ferro e da cerâmica, nunca desenvolveram nada parecido com a escrita, pelo que, aquilo que se deduz da sua história, seja baseado nas tradições orais e na arqueologia. Na bacia do Zaire encontraram territórios muito propícios à agricultura e parte deles fixaram-se aí, desde o Séc. XIII, dando origem aos potentados/senhorios conhecidos na História daquela zona.

Mapa do Séc. XVIII ou início do XIX (?) de origem francesa, que assinala os diversos "reinos"

O Kôngo tinha a sua capital em Mbanza Kôngo (na época da colonização rebatizada como São Salvador do Congo) e irradiava o seu poder desde o Cabo Lopez – antigo Cabo de Sta. Catarina (no actual Gabão) –, a Norte, até ao Rio Kuanza, a Sul e desde o Atlântico ao Rio Kwenge a leste. O Senhorio do Kôngo dominava vários outros Senhorios subsidiários (que na óptica europeia, prestavam vassalagem ao Mâni Kôngo): o Nsi Ya Luangu, o Kakongo, e o N’Goyo (o território actual de Cabinda engloba partes destes antigos três senhorios), a Norte do Zaire e N´Soyo, Ndongo, Matamba, Kassange e Kissama, mais ou menos até às margens do Rio Kuanza – como se pode ver no mapa abaixo:


Como vimos também nos textos anteriores, Diogo Cão levou quatro nativos para Portugal, aquando do regresso da sua primeira viagem em 1483. Estes nativos retornaram ao Kôngo nas caravelas de Gonçalo de Sousa em 1490 – já falavam português – e eram acompanhados de sacerdotes católicos para a evangelização do Mâni Kôngo e seus subditos.

Entre aspas, citamos excertos de “O Reino do Congo” de Arlindo Correia:

“(...) Chegado Gonçalo de Sousa a Mpinda [capital do N’Soyo], baptizou-se em 3 de Abril de 1491 o Mâni-Soyo, que tomou o nome de Manuel e o seu filho que se chamou António. Tal só foi possível porque o Mâni-Soyo era tio e mais velho que o Mâni-Congo. Partiram então para a capital, mais tarde chamada S. Salvador e ali foi baptizado em 3 de Maio de 1491 o Mâni-Congo, que tomou o nome de João e sua esposa, que tomou o nome de Leonor, tal como o Rei e Rainha de Portugal. Pouco tempo depois, foi baptizado com o nome de Afonso o Mâni-Nsundi, filho do rei que tinha o nome gentílico Mvemba-a-Nzinga (...)”

Depois do baptismo, o Mâni Kôngo (Nzinga-a-Nkuwu, como João I) adoptou mesmo o título de Rei, à maneira europeia.

Representação do Mâni Kôngo Nzinga-a-Nkuwu (D. João I depois do baptismo)

Brasão de armas atribuído ao Mâni Kôngo


“(...) O rei possuía a ilha de Luanda e cabia-lhe o monopólio da recolha dos búzios do mar, chamados nzimbos ou cauris, que serviam de moeda no reino. É difícil calcular a população desta área, mas alguns estudiosos estimam-na em cerca de dois milhões, deixando de lado o cálculo por baixo de 532.000, avançado por John Thornton.

O solo do Congo é fértil devido às chuvas abundantes. O clima era doentio, e mortífero para os europeus que lá residissem. As condições de habitabilidade eram muito rudimentares, a água estava contaminada e proliferavam as mais diversas doenças, com destaque para o paludismo.

As principais riquezas exportáveis eram na altura o marfim e o cobre. As armadilhas para os elefantes eram enormes buracos, disfarçados com ramos de árvores, onde eles caíam e já não conseguiam sair. A exploração do cobre era feita à superfície.

Na monarquia congolesa, o herdeiro do trono não era determinado pela linha directa, mas sim pela colateral. O sucessor seria o filho mais velho da irmã do falecido rei. Mas esta regra era afastada tantas vezes que se pode considerar que o novo rei era eleito entre os membros do kanda, isto é, do clã real.

Entre os conselheiros do rei, sobressaía o Mani Vunda, com funções específicas de conselheiro político (...)”

“(...) Uma outra consequência da chegada dos portugueses, foi que os chefes das províncias passaram a designar-se por duques, condes e marqueses, tal como em Portugal e todos os fidalgos baptizados passaram a ter o tratamento de Dom. Os nobres adoptaram brasões. Foi criada uma Ordem de Cristo do Congo e a coroação do Rei passou a ter de ser presidida por um sacerdote.

Ruínas da antiga catedral de Mbanza Congo - arqueólogos portugueses estão a participar nas escavações actualmente levadas a cabo nesta cidade para recuperação do património histórico...

Reza a história que o rei do Congo, D. João I, passados uns anos, se aborreceu da religião católica e começou a favorecer o seu filho Mpanza-a-Kitima, que não se quisera baptizar. O Rei faleceu por volta de 1509 e este filho apresentou-se como sucessor. Mas a rainha D. Leonor mandou chamar o seu filho Afonso de Nsundi. Este reuniu um pequeno exército, afrontou e derrotou o seu irmão, invocando o nome de Jesus e do Apóstolo São Tiago, tornando-se rei (...)”

Mais tarde, a partir de 1576, com a fundação da cidade de São Paulo da Assunção de Loanda, a actual cidade de Luanda, por Paulo Dias de Novais, inicia-se o comércio de escravos com destino ao Brasil e, a partir daí, as coisas começam a descambar entre a monarquia portuguesa e o “reino” do Kôngo” e mesmo em lutas entre clãs no interior deste...

Para não tornar este post demasiado longo, os interessados podem consultar “O Reino do Congo” de Arlindo Correia, que pode ser lido na integra aqui: http://arlindo-correia.com/100807.html

Deixo aqui a listagem dos “Reis” do Kôngo, segundo uma lista mais ou menos oficial:

Rei Nzinga-a-Nkuwu, João I (1509)
Rei Mvemba-a-Nzinga, Afonso I (1509-1540)
Rei Nkanga-a-Mvemba, Pedro I (1540-1544)
Rei Mpudi-a-Nzinga Mvemba, Francisco I, (1544-1546)
Rei Nkumbi Mpudi a Nzinga, Diogo I (1546-1561)
Rei Mvemba-a-Nzinga, Afonso II (1561)
Rei Mvemba- a-Nzinga, Bernardo I (1561-1567)
Rei Mpudi-a-Mvemba Nzinga, Henrique I (1567-1568)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro I (1568-1574)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro II (1574-1614)
Rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, Bernardo II (+1615)
Rei Mbika-a-Mpangu Nimi Lukeni lua Mvemba, Álvaro III (1615-1622)
Rei Nkanga-a-Mvika lua Ntumba-a-Mvemba, Pedro II Afonso (1622-1624)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Garcia I (1624-1626)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Ambrósio I (1626-1631)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro IV (1631-1636)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro V (1636-1638)
Rei Mvemba-a-Nkanga Ntinu, Álvaro VI (1638-1641)
Rei Nkanga-a-Lukeni, Garcia II (1641-1661)

Durante o período das lutas pelo poder

Em M'Banza Kongo (São Salvador do Congo)

Rei Vita-a-Nkanga, António I (1661-1665)
Rei Mpangu-a-Nsundi, Álvaro VII, (1666-1667)
Rei Álvaro VIII (1667-1669)
Rei Rafael I (1669-1675)
Rei Mpangu-a-Miyala, Daniel I (1678-1680)
Rei Nsaku-a-Mvemba, Pedro IV (1694-1710)
Rei Mpangu, Pedro Constantino (+1710)

Em Ki-Mpangu

Rei Afonso III (1667-1669)
Rei Nkanga-a-Mvemba, Garcia III (1669-1678)
Rei Nlaza, André I (+1679)
Rei Nimi-a-Mvemba, Álvaro IX (+1680)
Rei Nzinga, Manuel I (+1680)
Rei Nsaku-a-Mvemba, Pedro IV (1694-1710)

Em Mbula

Rei Nsuku-a-Ntamba, Pedro III (1667-1679)
Rei Nsuku-a-Ntamba, João II (1679-1710)

Depois de 1718, o reino do Kôngo desmoronou-se por completo, devido sobretudo à série de guerras fraticidas (e contra os portugueses por causa do comércio esclavagista), acabando por se dividir em diversos pequenos senhorios, embora ainda tivessem existido “Reis” do Kôngo nominais (sem qualquer poder) até 1957.

Foto – o Rei do Congo D. António III (falecido em 1957) e família.

Fontes consultadas:

O Reino do Congo (on line: http://arlindo-correia.com/100807.html), de Arlindo Correia
As Origens do Reino do Kôngo, de Patrício Batsîkama
O Reino do Congo, de Chantal Luis Silva
Angola, Trilhos para o Desenvolvimento, de Filipe Zau

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

BOAS FESTAS PARA TODOS OS ANITGOS CAMARADAS

BOAS FESTAS !!!!

Símbolo romano do Sol Invictus

Na boa e antiquíssima tradição mediterrânica (diria mesmo que europeia), celebro o solstício de inverno, antecedente da celebração do Natal Cristão.

O Dies Natalis Solis Invicti (dia de aniversário do sol invicto – e o dia mais pequeno do ano) ocorre por volta de 21 de Dezembro – o solstício de inverno – a partir do qual os dias recomeçam a ficar maiores. Celebrava-se então a vitória da luz contra as trevas!!

Daí a tal antiquíssima tradição do "renascimento do Sol", que os cristãos adoptaram como "aniversário do nascimento de Cristo" (Dies Christi Natalis ou Natalis Domini) estabelecendo-o a 25 de Dezembro – para não parecer muito "colado" ao culto do Sol latino-mediterrânico.

Como sou ateu, prefiro celebrar o Sol Invictus – sem margem para dúvidas! E sem "bolas", nem pinheiros, nem presépios, etc... Mas para todos os meus antigos camaradas de tropa – eventualmente católicos – deixo aqui um desejo de que tenham umas BOAS FESTAS e um GRANDE ANO DE 2015!!!

 UM BOM
DIES NATALIS SOLIS INVICTI 
PARA TODOS OS MEUS ANTIGOS CAMARADAS 

E LEITORES DESTE BLOGUE!!!


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domingo, 23 de novembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 4) – AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (2) – O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

Caravelas
Quando falamos de caravelas, estamos a falar de um pequeno barco com duas velas latinas (de difícil manobra) com cerca de 20 metros de comprimento e 6 metros de largo – para comparar digamos que os pequenos cacilheiros que actualmente fazem a ligação Cacilhas/Lisboa têm quase 30 metros de comprimento e 7 metros de largo – e não se aventuram em mar alto.
A vida a bordo das caravelas era de uma dureza atroz. Os homens viviam num ambiente constantemente molhado. A alimentação era à base de biscoitos, peixe seco ou salgado, toucinho salgado, azeite, vinagre, vinho e água.
O leme era de difícil manejo e exigia muita concentração. Os homens dormiam onde podiam. 
Eram homens duros e determinados – e o mar não era (não é) coisa com que se brincasse.

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 4)
 AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (2)
O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

A segunda viagem de Diogo Cão na descoberta da costa de África, que se previa “até encontrar passagem para o Índico” – o que não aconteceu, como sabemos – é muito mais difícil de datar, devido aos ainda mais escassos elementos que sobreviveram. Vejamos então uma síntese do que é possível apurar:

Não há dúvida de que D. João II esperava que Diogo Cão alcançasse pelo menos os reinos periféricos do Prestes João (o mítico rei da Etiópia) ou mesmo o oceano Índico, pois um tal percurso tornava desnecessárias mais expedições ao longo da costa. D.João II enviou também, nesta segunda viagem, para o “rei” do Kongo (que na altura era Nzinga-a-Kuvu), uma embaixada com ricas prendas, ofertas de amizade, acompanhando também de recomendações para renegar aos ídolos, feitiçarias e abraçar a religião cristã.

Encarregado de empreender uma segunda expedição, Diogo Cão partiu na segunda metade de 1485 (eventualmente em Agosto).

Chegando ao estuário do Zaire, as caravelas aportaram a M’Pinda, a 10 Km da ponta do Padrão, residência do Manisoyo – o senhor do Soyo (nos relatos da viagem anterior refere-se uma “rainha”) – devolvendo os reféns embarcados na primeira viagem. Tendo-se apercebido que os emissários enviados ao “rei” do Kongo na viagem anterior, ainda não se encontravam em M’Pinda, e também de suspeitar que pelo rio Zaire poderia ter acesso mais rápido ao Índico, já que na exploração anterior não fora além das imediações de Nóqui, Diogo Cão decide zarpar rio acima. Procurou explorar o Rio Zaire, na esperança que pudesse vir a ser a extremidade meridional do canal que, segundo a mapa de Fra Mauro, separava a África Austral da massa do continente e desembocava no Índico perto de Quilóa.

Mapa de Fra Mauro (1459)

A expedição progrediu até às cataratas de Yellala (que impediam a progressão das caravelas), situadas a 170 Km do mar, onde os marinheiros gravaram várias inscrições nas rochas – incluindo os nomes –, deixando assim para a posteridade um precioso registo.

As famosas inscrições de Yellala

Vendo que não era possível progredir através do rio Zaire, Diogo Cão resolveu que a exploração teria de continuar por via marítima. Avançou então para a latitude (cerca de 15º Sul) da Baía de Moçâmedes – onde havia terminado a viagem anterior, navegando depois para além desta e verificando, com desilusão, que o continente se estendia para Sul, aparentemente sem fim.

Atingindo o Cabo Negro, na latitude 15º 42’ S, Diogo Cão ergueu outro padrão. E logo a seguir ancorou numa baía, hoje Porto Alexandre, a que deu o nome de “Angra das Aldeias”, devido à existência de duas povoações. Também entrou depois na “manga das areias”, hoje Baía dos Tigres.


Já depois da foz do rio Cunene (actual fronteira Sul de Angola – 17º de Latitude Sul) e navegando ao longo de uma costa desértica (Actual Namíbia), alcançou a latitude 21º 47’ S, onde ergueu outro padrão, o mais meridional de todos, num lugar a que hoje se chama Cape Cross (Cabo da Cruz, ou do Padrão da Serra) na actual Costa dos Esqueletos. Depois, ainda percorreram mais 50Km de costa para Sul do Cabo do Padrão da Serra, até à ponta dos Farilhões, a Hentiestbaai de hoje e foi aí que a expedição terminou.

Réplica do Padrão de Cape Cross (cujo original se encontra em Berlim) e inscrição em inglês, de 1986, assinalando os 500 anos da viagem de Diogo Cão...

O termo exacto da viagem, deve-se a uma legenda de um mapa de 1489 de Martellus, cujo texto sugere que Diogo Cão aí terá morrido. Se assim aconteceu, poderá ter sido essa a razão porque os navios não avançaram mais para sul ?

Não se sabe nada do que se passou naquela Ponta dos Farilhões que determinasse o fim da expedição. Rui de Pina, cronista-mor do Reino acrescentou na sua Crónica de D.João II, que o “rei” do Congo, pediu que D.João II lhes mandasse padres para instruir o seu povo, desejava ter pedreiros que construíssem igrejas e casas, de modo que, neste e noutros aspectos, o seu “reino” fosse semelhante ao de Portugal, todos eles foram recebidos pelo rei de Portugal D. João II, em Janeiro de 1489.

É importante sublinhar a data [Janeiro de 1489] da embaixada congolesa, que não podia ter vindo nos navios da expedição de Diogo Cão. Como foi possível ser recebida por D.João II dois anos depois, se os sobreviventes da 2ª viagem de Diogo Cão regressaram ao reino, antes de Agosto de 1487? Uma vez que foi nesta data que se deu a partida de Bartolomeu Dias para a expedição que, finalmente dobraria o Sul da África atingindo o Índico. Acontece que João de Santiago foi o piloto escolhido por Bartolomeu Dias para pilotar a naveta de mantimentos da sua frota constituída por mais duas caravelas. O nome de "João Santiago" está gravado nas Pedras de Yellala para a posteridade. Portanto este marinheiro fez parte da 2ª viagem de exploração de Diogo Cão.

O que acaba por parecer mais correcto é que, depois de regressar da descoberta do Cabo de Boa Esperança e aberto o caminho marítimo para a Índia, Bartolomeu Dias terá feito escala na foz do rio Zaire, em M’Pinda, onde embarcou em Outubro de 1488 os tais embaixadores do “reino” do Congo para Portugal.

E nunca mais se soube nada sobre Diogo Cão!

A trapalhada documental que se seguiu, depois desta 2ª expedição, sobre o que aconteceu ao seu comandante, resultou, em parte, das afirmações do cronista João de Barros nas “Décadas da Ásia”. Decorridos 30 anos após os acontecimentos em que o cronista afirma:

“O navegador, Diogo Cão regressou ao reino e dele nunca mais houve notícia”.

Mas, se voltou ao reino, onde se encontra o seu túmulo? Ou D. João II, fez desaparecer todas as menções do navegador, por causa da hipotética errada informação sobre a proximidade do “fim do continente africano”? Mas não existem quaisquer provas que corroborem esse procedimento, por parte do monarca português.

A historiadora Therese Schedel – autora do livro “O Mosteiro e a Coroa“, sobre o mistério que rodeia o desaparecimento de Diogo Cão, refere numa entrevista:

«..a não existência de um roteiro da segunda viagem de Diogo Cão tem sido um mistério apaixonante... O navegador desapareceu durante a sua segunda viagem ou não?».

«...Os tripulantes que regressaram a Portugal [João de Santiago?] contaram que Diogo Cão se tinha embrenhado terra adentro e nunca mais aparecera... Muito possivelmente, talvez tivesse sido devorado por um tigre, quem sabe [mas sabemos hoje que nunca existiram tigres em África...] “. Contudo sobre esta Costa diz-se que “Também por ali aparecem leões, vêm do semi-árido, caminhando lentamente pelo leito dos rios até chegar à costa. E, como a vida animal não é tão abundante como a da savana, adaptaram-se ao cardápio disponível. Acabaram por descobrir uma nova fonte de alimento nas focas e nas baleias encalhadas, ocupando as praias da costa dos Esqueletos. Refeições que compartilham com hienas e chacais, ali em Cape Cross os leões vão à praia. Defendida por um mar turbulento que atira qualquer barco contra a costa, tem sido ao longo dos séculos cenário de vários naufrágios, que hoje são recordados pelos muitos restos de navios que surgem presos nas armadilhas da areia da praia. É a presença destes destroços que dá origem ao nome desta longa linha de areia que se estende até Angola, a Costa dos Esqueletos”.

Será que Diogo Cão se suicidou por lhe parecer que não conseguiria encontrar a passagem para o Oceano Índico? Ou regressou e foi ostracizado pelo rei, embora esta hipótese, muito divulgada pelos historiadores, nos pareça inverosímil, dado que não havia nenhum obstáculo (a não ser talvez os ventos contrários) para que a expedição avançasse para além daquela latitude...
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Terminada esta fase do Descobrimento da costa marítima de “Angola”, vamos, nos “próximos Capítulos” falar sobre o interland do território, sobre aquilo a que se chamam OS “REINOS” PRIMITIVOS DE "ANGOLA", que os portugueses encontraram quando lá chegaram.

Mapa do século XVIII com os "reinos" de "Angola"

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 3) – AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (1) – O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

Réplica do padrão de S.Jorge na Ponta do Padrão - Rio Zaire

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 3)
 AS VIAGENS DE DIOGO CÃO (1)
O DESCOBRIMENTO DE “ANGOLA” PELOS PORTUGUESES

No título deste texto, escrevemos “Angola” – assim mesmo, entre aspas. Isto porque quando o navegador português Diogo Cão chegou ao território, Angola não existia. Nem sequer havia ainda o “senhorio” (Ngola Ndongo) que daria o nome actual ao país que agora conhecemos por essa designação.

Mas vamos por partes.

Evidentemente que, quando falamos em descobrimentos, estamos a adoptar o ponto de vista europeu: os europeus (portugueses neste caso) descobriram a “costa sul da África”, por exemplo. Mas o inverso não será falacioso, uma vez que os africanos também foram levados a “descobrir” os europeus – evidentemente por iniciativa dos primeiros... Contudo as coisas podem sempre ser colocadas sob os dois pontos de vista: se os europeus descobriram os africanos, estes foram levados a descobrir os europeus. Existe pois, um descobrimento reciproco, que terá sido eventualmente de perplexidade para ambas as partes: quem são estes tipos?

Como dissemos atrás, o navegador Diogo Cão foi enviado pelo rei D.João II (em 1482) a descobrir a costa ocidental africana. O problema é que não se conhecem nem as datas precisas das viagens nem quantas viagens este navegador realizou. Tudo isto devido à política secretista (confidencial, dir-se-ia actualmente) do rei, para ocultar os progressos da navegação portuguesa, dos vizinhos castelhano-aragoneses, italianos e mesmo franceses. Por causa dessa política não existem referências escritas ao que se passou neste reinado sobre essa matéria, senão por meia dúzia de apontamentos, em crónicas que nada têm a ver com essas viagens. E só por meio destes apontamentos cronísticos (ou mesmo outros) consegue entender-se alguma cronologia sobre o tema, ainda que não muito precisa. Digamos até que a própria viagem de Bartolomeu Dias na viragem do Cabo da Boa Esperança, só ficou a conhecer-se por um apontamento manuscrito de Cristovão Colón nas margens de um dos seus livros de leitura.

É de realçar que no estado actual das investigações, se presuma mesmo que, no final da primeira viagem do “descobrimento de Angola”, em 1483, Diogo Cão tivesse regressado ao reino, mas viajando para oeste propositadamente, descobrindo nessa rota a ilha da Ascensão e atingindo até o Cabo de S. Jorge na costa do Brasil !!! Este cabo, actual Cabo de Sto Agostinho, foi onde a armada de Pedro Álvares Cabral chegou quando “descobriu” o Brasil. E porque chegaria precisamente a este Cabo?

Isto tudo leva-nos a pensar muito a sério no porquê da insistência de D.João II na delimitação do meridiano “de Tordesilhas” a 380 léguas de Cabo Verde – nem 300 nem 400, mas exactamente 380. Porquê um número tão preciso?

O mestre de uma das naus de Cabral, aquando do “descobrimento” oficial do Brasil, conhecido por mestre João, refere ao rei D. Manuel que, quanto “ao sítio desta terra (o Brasil), mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pêro Vaz Bizagudo de Lisboa, e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada, sendo um mapa antigo onde está escrita também a Mina.” Duarte Pacheco Pereira escreveria igualmente no seu Esmeraldo de Situ Orbis, dedicado a D. Manuel I, que em 1486 explorou a costa do Brasil...

Mas, perguntarão os meus amigos: o que tem o Brasil a ver com Angola? Tem! E muito. É que está estimado em cerca de 4.000.000 (sim 4 milhões), o número de escravos levados de Angola para o Brasil entre o século XVI e o XIX... Chega para relacionar as duas regiões?

Mas passemos então à Cronologia das Viagens de Diogo Cão na costa de Angola:

Em 1 de Janeiro de 1841, Diogo Cão (ou Caão) depois de viajar de S.Jorge da Mina pelo litoral do Golfo da Guiné, até ao Cabo de Sta. Catarina (actual Gabão), viaja a partir deste Cabo, de regresso a Portugal, mas em “volta de largo” pelo Golfo e descobre a ilha de Ano Bom (1 de Janeiro de 1481) a sudoeste da ilha do Príncipe.

Em nova viagem, Diogo Cão, saindo de Lisboa em 1482, provavelmente no mês de Agosto, e depois de reconhecer toda a costa desde o Cabo de Sta. Catarina, atinge o Rio Zaire (23 de Abril de 1483, dia de São Jorge) e implanta um Padrão de pedra, a que deu o nome de “S.Jorge”, na margem esquerda da foz desse rio – a que chamou Rio Poderoso –, que ficou conhecida como “Ponta do Padrão”. Foi o início do uso destes padrões em pedra calcária, para assinalar as terras a que chegavam os navegadores – anteriormente eram usadas cruzes de madeira.

Do Cabo de Sta. Catarina à foz do Rio Zaire...

Revelando que o rei D. João II já tinha informações sobre o que os navegadores poderiam encontrar no interior aficano, depois do Cabo de Sta. Catarina, Diogo Cão tinha instruções para enviar presentes ao “rei” de um potentado que existiria naquelas paragens, percebeu-se depois que seria o “reino” do Congo (ou mais correctamente Kôngo). Na verdade não se podem referir como “reis” os senhores destes “estados”, eles não tinham as prerrogativas que o termo – nas línguas e conceitos indoeuropeus – atribuem aos reis. Eram os chefes supremos de uma comunidade meio-feudal (no sentido arcaico do termo) de diversos outros chefes com menor poder. Mas foi assim que os portugueses os trataram sempre: “reis” e “reinos” os seus senhorios.

Segundo consta, Diogo Cão, em “conversa” com pescadores do rio, da qual não conseguimos descortinar como se entenderam (mas essa é a versão oficial) – para sermos claros nesta questão, não se consegue perceber como é que os portugueses chegaram à fala com pescadores kikongo, fazerem-se entender e conseguirem eles próprios entendê-los. Mas enfim... Conseguiu até contactar a “rainha” do Soyo (estado/senhorio da zona Sul da foz do Zaire, dependente do Kongo) e, de seguida enviou os tais presentes, por dois emissários ao “rei” do Kongo e largou para Sul, talvez no início de Julho de 1483. 

Foz do Rio Zaire

A "Ponta do Padrão"


Em 22 de Julho chegou à foz do rio Loge, a que chamou “Rio da Madalena”.

– 10 de Agosto, atingiu Benguela a Velha, actual Porto Amboim.

– A 28 de Agosto de 1483 atingiu o Cabo de Sta. Maria (actual Cabo do Lobo) onde mandou erguer o padrão de Stº. Agostinho, seguida de celebração de missa.

– Avançando mais quase 100 Km para Sul, a expedição terminou devido ao espesso nevoeiro, que não permitia a navegação de reconhecimento.


Padrão de Sto. Agostinho, na Sociedade Geográfica de Lisboa

Regressou à foz do Zaire, onde esperou encontrar os emissários enviados ao “rei” do Kongo. Não os encontrando, aprisionaram alguns nativos e iniciaram a viagem de regresso, em Novembro de 1483. Viagem para Portugal ou... para oeste até descobrir o Brasil?

Acrescentemos só que a chegada a Portugal se deu em Março/Abril de 1484.

NOTA: As fotos de satélite com os percursos desenhados e os mapas constantes neste post, foram colhidos do site:

A SEGUIR – A 2ª VIAGEM DE DIOGO CÃO

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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 2)

PREÂMBULO
PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA 
(PARTE 2)


Quando o rei D.João II de Portugal tomou conta das viagens de descoberta oceânica, em 1474, retornando assim essas viagens à responsabilidade do Estado, depois da “gerência” de um comerciante “privado”, Fernão Gomes – a seguir à morte do Infante D. Henrique, em 1460 –, já a costa do Golfo da Guiné tinha sido explorada até ao Cabo Lopo Gonçalves (nome do descobridor e actual Cabo Lopez, no Gabão), a sul do Equador, no ano anterior. D.João II adoptou uma filosofia diferente na política de gestão dos descobrimentos, dando alguma precedência aos contactos com as populações dos territórios abordados/descobertos pelos navegadores portugueses, que até aí não conheciam quase nada do que se passava no “interland” das costas marítimas que abordavam. Claro que esses contactos tinham em vista encontrar a proveniência do ouro que chegava às cidades do Mediterrâneo, por meio dos berbéres e que, desde o Infante D. Henrique era o mote daquelas viagens – misturado com o interesse em encontrar produtos e parceiros para trocas comerciais e também, uma genuina curiosidade em “descobrir novas terras”.


A proveniência do ouro que o Infante procurava, pareceu ter sido encontrada após a descoberta do Cabo Branco, na ponta Norte do Golfo de Arguim (actual Mauritânia) onde, na ilha que dá o nome ao Golfo, foi construída uma feitoria-fortaleza entre 1445 e 1464. Esta era uma zona costeira semi-desértica mas onde, no limite sul do deserto do Saara (o denominado “Sahel”), confinando com as margens do Rio Níger, reinava o “Senhor do Ouro”, num senhorio originado em volta da cidade de Koumbi Saleh. O nome deste senhorio, em língua fula, seria ”Gine”, ou “Gana”, a que os portugueses chamariam Guinea, ou Guiné. A partir daí, toda a costa africana até ao actual Gabão, teria este nome – Golfo da Guiné. Mas o “senhorio” ou “império” do Gana – cerca de 300 a 1240 –, quando os portugueses chegaram a Arguim, já tinha mudado de donos (embora mantendo tradicionalmente o mesmo nome), substituidos por novos Senhores, agora do Mali (os Malinqués de Timbuktu), já muçulmanizados – este “império” durou desde cerca de 1240 a 1600 – atingindo a costa do Atlântico e expandindo-se pelo curso superior do Níger. (Ver mapa abaixo).

Clicar em cima do mapa para ampliar.

O Golfo da Guiné seria, mais tarde, designado por Costa dos Escravos (do início do século XVII, ao século XIX), já sob custódia britânica, devido ao comércio esclavagista, para alimentar a “mão de obra” das grandes plantações do Sul da colónia americana da coroa inglesa. Claro que os portugueses também se dedicaram a este “comércio” no dito Golfo, mas mais especialmente depois, a partir de Angola, para alimentarem as suas plantações nas terras do Brasil. Dedicaremos um capítulo específico deste Preâmbulo ao “comércio” esclavagista em África, dada a importância que teve, especialmente no apresamento e transferências forçadas (sempre em condições infra-humanas) de populações entre as duas margens do Oceano Atlântico, no sentido África-Américas – e não só. Acontece que o Golfo da Guiné era uma região densamente povoada, ao contrário da costa até aí alcançada pelos portugueses.

Existiam várias “cidades estado” e estados mais complexos, como o “reino” do Daomé e mais tarde do Benim. Evidentemente, os escravos que os senhores desses “reinos” vendiam aos portugueses, eram produto das guerras locais (que não vale a pena estarmos aqui a descrever), que os comerciantes europeus incentivariam, comprando escravos pagos em armas europeias... Enfim, nada que não conhecessemos já da História da própria Europa em tempos mais recuados.

Mas voltemos a D.João II. O rei começou por mandar construir uma fortaleza, designada por Castelo da Mina, depois S. Jorge da Mina, no actual Gana (que apesar do nome não tem nada a ver com o “Gana” de que falámos acima) – onde actualmente é conhecida por Elmina, na cidade que se desenvolveu a partir daquela fortaleza e que adoptou o mesmo nome. Aí era transaccionado o almejado ouro e... evidentemente, os escravos – mas também a pimenta, o marfim, goma, cera, azeite de palmeira e ovos de avestruz, etc... Mais tarde os ingleses chamariam ao Golfo da Guiné, Costa do Ouro (depois Costa dos Escravos, como dissemos anteriormente), quando se apoderaram do território, a partir do Séc. XVII. Os portugueses construiriam mais tarde algumas outras fortalezas no Golfo da Guiné – Sto. António em Axim, S. João Baptista d'Ajudá em Uidá, no actual Benim, etc...

Fotos acima: vistas da fortaleza de S. Jorge da Mina - na actualidade.

Contudo quando Diogo Cão, enviado por D.João II, chegou, em 23 de Abril 1483 [?], à foz do Rio Zaire (na má pronúncia portuguesa do termo em kikongo nzere ou nzadi – "o rio que traga todos os rios"), começou a escrever-se o que nos interessa: a Historia de Angola.

No entanto, dada a controvérsia que persiste [ainda] entre os historiadores portugueses sobre as viagens de Diogo Cão (ou Caão, ou Caam) – nomeadamente quanto a datas, ou a quantidade de viagens que realizou, admitindo mesmo alguns pesquisadores, que descobriu a ilha de Ascenção (no meio do Atlântico) e alcançou até o cabo de São Jorge no Brasil... Estas viagens têm que ser motivo do próximo capítulo deste Preâmbulo.

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

PREÂMBULO – PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 1)

Mapa de Angola da época do Estado Novo - talvez dos anos de 1960...

PREÂMBULO
PARA UMA HISTÓRIA DE ANGOLA (PARTE 1)

Depois de ler o livro de Samuel Chiwale, Cruzei-me com a História, e de ter lido na Introdução deste livro a expressão do autor “o nosso querido País”, referindo-se obviamente a Angola, não pude deixar de me questionar qual é hoje a noção dos angolanos sobre como foi construído, o “querido País” deles. Sem querer sequer questionar o legítimo direito dos povos angolanos à Independência, é preciso que se comece por afirmar que tudo aquilo que “herdaram” em 1975 foi construido pelos portugueses! Não só a orgânica administrativa do território, que foi sendo desenhado e conquistado – já agora – nos cem anos anteriores à Independência, à mesa das secretarias de Lisboa e de negociações internacionais, como a Conferência de Berlim, em 1884/1885, onde foram estabelecidas as fronteiras que actualmente possui.

Se não tivesse havido a colonização portuguesa, Angola provavelmente nem existiria hoje como tal. Começando logo pelo nome do País, Angola deriva do título de um pequeno chefe local – o N’Gola, ou Ngola – da região de Luanda (Loanda originalmente), quando os portugueses fundaram a cidade em 25 de Janeiro de 1576 (há precisamente 438 anos) pelo fidalgo e explorador português Paulo Dias de Novais, com a designação de São Paulo da Assunção de Loanda. E depois, a língua portuguesa: Angola é uma amálgama de dez grupos liguísticos diferentes, sendo 9 de origem bantu, a que residualmente no Sul, se junta o khoisan. Acredito que, não fosse a língua portuguesa, ninguém se entenderia em Angola, ou quase...

Deparando, nas pesquisas que fui fazendo, com o incontornável vazio de uma qualquer “História de Angola” editada – apesar de haver em Angola historiadores e pesquisadores de elevada craveira, com obras parcelares relevantes publicadas, mas sem uma obra de síntese geral da História do país –, comecei a redigir este preâmbulo, destinado aos interessados em Portugal, para incluir (numa versão obviamente mais reduzida) no livro sobre a Retirada do Exército Português do Leste de Angola – 1975. Isto porque penso ser necessário perceber-se o que se passou “antes”, para se entender o que se passou “depois”...
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OS POVOS BOSQUÍMANOS E HOTENTOTES

Khoisan ou Khoi-San (também grafado como coisã, ou coissã) é a designação unificadora de dois grupos étnicos existentes no sudoeste de África, que partilham algumas características físicas e linguísticas distintas da maioria bantu. Esses dois grupos são os san, também conhecidos por bosquímanos ou boximanes e que são caçadores-coletores, e os khoikhoi, que são pastores e que foram chamados hotentotes pelos colonizadores europeus. Aparentemente, estes povos têm uma longa história, estimada em vários milhares (talvez dezenas de milhares) de anos, mas que actualmente estão reduzidos a pequenas populações, localizadas principalmente no deserto do Kalahari, na Namíbia, mas também no Botsuana e em Angola.

Os khoikhoi e os san actuais serão, tudo leva a crer, descendentes de povos caçadores-colectores que habitavam toda a África Austral e que desapareceram com a chegada dos bantu a esta região, há cerca de 2.000 anos. Não é provável que os bantu tenham exterminado os khoikhoi e os san, uma vez que algumas das suas características linguísticas e físicas foram assimiladas por vários grupos bantu, como no caso dos xhosas e dos zulus. É mais provável que a redução do seu território de caça, derivado da instalação dos agricultores bantu, tivesse sido uma causa para a redução do seu número e da sua área habitada. Até à instalação dos holandeses na África do Sul, há cerca de 200 anos, estes povos ainda povoavam grandes extensões da Namíbia e do actual Botswana.

Estes colonos [holandeses] designaram os khoikhoi por hotentotes – que significa "gagos" na língua neerlandesa, provavelmente devido à sua língua peculiar. Os san foram por muito tempo designados bosquímanos ou seja "homens do mato", termo emprestado de bushman em inglês.

Hoje em dia há uma população san significativa na Namíbia onde a sua língua tem um estatuto oficial, sendo utilizada no ensino até ao nível universitário. Comunidades menores existem também no Botsuana e no sul de Angola.

Fisicamente, os khoisan são em média mais baixos e esguios que os restantes povos africanos. Além disso, possuem uma coloração de pele amarelada e prega epicântica nos olhos, como os chineses e outros povos do Extremo Oriente. Algumas destas características são agora comuns a outros grupos étnicos sul-africanos, devido à miscigenação, sendo patentes por exemplo na fisionomia de Nelson Mandela.

Uma outra característica física dos khoisan é a esteatopigia das mulheres (grande desenvolvimento posterior das nádegas), que levou a que uma mulher tivesse sido levada para a Europa no século XIX e usada para exibição em feiras, a famosa Vénus Hotentote.

Mulher khoisan - imagem publicada na Europa em 1811

Os khoisan possuem o mais elevado grau de diversidade do ADN mitocondrial de todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das mais antigas comunidades humanas. O seu cromossoma Y também sugere que, do ponto de vista evolucionário, os khoisan se encontram muito perto da raiz da espécie humana.

De acordo com um estudo genético autossomico de 2012, os khoisan podem ser divididos em dois grupos, correspondentes às regiões noroeste e sudeste do Kalahari, os quais se separaram por volta dos últimos 30.000 anos. Todos os indíviduos testados na amostra apresentaram ancestralidades de populações não-khoisan, que foram introduzidas no período de 1.200 anos atrás, como resultado da expansão bantu. Além disso, os hadzas, um grupo de caçadores-coletores do Leste da África, que também utilizam uma língua baseada em cliques (como a dos khoisan), possuem um quarto de sua ancestralidade vindos de uma população relacionada com os khoisan, revelando uma ligação genética antiga entre o Sul da África e o Leste da África. Ou seja, as populações khoisan de Angola e da Namíbia ter-se-iam separado das da África do Sul entre 25.000 e 40.000 anos atrás.

OS POVOS BANTU

Bantu ou banto (forma preferível a bantus) constituem um grupo etnolinguístico localizado principalmente na África subsariana e que engloba cerca de 400 subgrupos étnicos diferentes. A unidade desse grupo, contudo, aparece de maneira mais clara no âmbito linguístico, uma vez que essas centenas de subgrupos têm como língua materna uma língua da família bantu.

Os bantu são provavelmente originários dos Camarões e do sudeste da Nigéria [talvez do delta do rio Níger]. Por volta de 2.000 a.C., começaram a expandir o seu território na floresta equatorial da África central, provavelmente impelidos pela desertificação do Sahara, e pela consequente pressão dos saharauis que emigraram para aquela região, eles foram forçados a espalhar-se pelas florestas tropicais da África central.

Mais tarde, por volta do ano 1.000 a.C., ocorreu uma segunda fase de expansão mais rápida, para o leste, e finalmente uma terceira fase, já nos primeiros 500 anos da era actual, em direção ao sul do continente, quando os bantu se miscigenaram com os precedentes e com outros povos, constituindo novas sociedades.

As fases de deslocação dos bantu

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA 

Os bantu distribuem-se, no continente africano, no sentido oeste-leste, desde os Camarões e o Gabão às ilhas Comores; no sentido norte-sul, do Sudão à África do Sul, cobrindo toda a parte meridional da África, onde somente os bosquímanos e os hotentotes têm línguas de origens diferentes.

Enquanto os bosquímanos e hotentotes eram nómadas caçadores-colectores e pastores, os bantu eram agricultores sedentários e já conheciam o uso do ferro. Esses avanços permitiram- lhes colonizar um amplo território, ao longo de aproximadamente quatro mil anos, forçando o recuo dos povos nomadas. No entanto, os bantu absorveram alguns fenómenos linguísticos típicos das línguas khoisan.

Embora não existam informações precisas, o subgrupo etnolinguístico bantu mais numeroso parece ser o zulu. A língua zulu é a mais falada na África do Sul, onde é uma das 11 línguas oficiais. Mais da metade dos 50 milhões de habitantes daquele país é capaz de compreendê-la; mais de 9 milhões de pessoas têm o zulu como língua materna, e mais de 15 milhões falam o zulu fluentemente.

Todos os subgrupos étnicos falam línguas pertencentes à mesma família linguística, a das línguas bantas, a qual, por sua vez pertence à família linguística nígero-congolesa. Em muitos casos, esses subgrupos têm costumes comuns.


EM ANGOLA 

Na Lunda, no Zaire e no Cuangar foram encontrados instrumentos de pedra e outros, dos homens do Paleolítico. No Deserto do Namibe foram encontradas gravuras rupestres nas rochas. Trata-se das gravuras do Tchitundo-Hulo, atribuídas aos antepassados dos san.

Como vimos atrás, nos primeiros quinhentos anos da era actual, as populações bantu da África Central, que já dominavam a siderurgia do ferro, iniciaram uma série de migrações para sul, a que se chamou a grande expansão bantu. Parte destas populações fixaram-se a Norte e a Sul da parte inferior do Zaire (a palavra Zaire é o resultado de uma má pronúncia dos portugueses quando lá chegaram, do termo kikongo nzere ou nzadi "o rio que traga todos os rios"), portanto também no Noroeste do território da actual Angola. Com o tempo, estas populações constituíram o povo Bakongo, de língua Kikongo. Outras populações fixaram-se inicialmente na região dos Grandes Lagos Africanos e, no século XVII, deslocaram-se para oeste, atravessando o Alto Zambeze até ao Cunene: eram os grupos hoje designados como ngangela, mas também os Ovambo e os Xindonga.

No ano de 1568, entrava um novo grupo pelo norte, os jagas, que combateram os Bakongo que os empurraram para sul, para a região de Kassanje. No século XVI ou mesmo antes, os nhanecas (vanyaneka) entraram pelo sul de Angola, atravessaram o Cunene e instalaram-se no planalto da Huíla.

No mesmo século XVI, um outro povo abandonava a sua terra na região dos Grandes Lagos, no centro de África, e veio também para as terras angolanas. Eram os hereros (ou ovahelelos), um povo de pastores. Os hereros entraram pelo extremo leste de Angola, atravessaram o planalto do Bié e depois foram-se instalar entre o Deserto do Namibe e a Serra da Chela, no sudoeste angolano.

Também no século XV chegam, por via marítima os portugueses que, já no século seguinte se instalam na região e fundam São Paulo da Assunção de Loanda, a actual cidade de Luanda [veremos esta fase com mais detalhe na parte 2 deste texto].

Já no século XVIII, entraram os ovambos (ou ambós), grandes técnicos na arte de trabalhar o ferro, deixaram a sua região de origem no baixo Cubango e vieram estabelecer-se entre o alto Cubango e o Cunene. No mesmo século, os quiocos (ou kyokos) abandonaram o Catanga e atravessaram o rio Cassai. Instalaram-se inicialmente na Lunda, no nordeste de Angola, migrando depois para sul.

Finalmente, já no século XIX apareceu o último povo que veio instalar-se em Angola: os cuangares (ou ovakwangali). Estes vieram do Orange, na África do Sul, em 1840, chefiados por Sebituane, e foram instalar-se primeiro no Alto Zambeze. Então chamavam-se macocolos. Do Alto Zambeze alguns passaram para o Cuangar no extremo sudoeste angolano, onde estão hoje, entre os rios Cubango e Cuando.

As guerras entre estes povos eram frequentes. Os migrantes mais tardios eram obrigados a combater os que estavam estabelecidos para lhes conquistar terras. Para se defenderem, os povos construíam muralhas em volta das sanzalas. Por isso, há em Angola muitas ruínas de antigas muralhas de pedra. Essas muralhas são mais abundantes no planalto do Bié e no planalto da Huíla, onde se encontram, também, túmulos de pedra e galerias de exploração de minério, testemunhos de civilizações mais avançadas do que geralmente se supõe.

Distribuição dos actuais grupos linguísticos em Angola

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

TEXTO DE SAMUEL CHIWALE, O COMANDANTE RESPONSÁVEL PELO ASSALTO DA UNITA AO BART 6221/74 – NA SUA BIOGRAFIA PUBLICADA EM 2008


Jonas Savimbi, M. N'Zau Puna e Samuel Chiwale

TEXTO DE SAMUEL CHIWALE, 
O COMANDANTE RESPONSÁVEL 
PELO ASSALTO DA UNITA 
AO BART 6221/74
NA SUA BIOGRAFIA PUBLICADA EM 2008

José Samuel Chiwale, o comandante responsável pelo assalto da UNITA ao BART 6221/74, nas viagens (auto e comboio) entre Luso e Nova Lisboa, escreveu a sua biografia – CRUZEI-ME COM A HISTÓRIA –, que foi publicada pela editora portuguesa Sextante em 2008. Li o livro do Chiwale (que é agora um “senhor” deputado da UNITA no “parlamento” angolano) e como, no Capítulo 5, começando por evocar os combates no Luso da UNITA contra o MPLA [ou vice-versa], o homem relata de seguida os acontecimentos relacionados com esse assalto ao nosso comboio (sem considerar nunca que se tratou de um assalto...), é interessante compararmos o que ele escreveu, com o Relatório do Comandante do BART 6221/74, que já aqui publicámos. Isto porque, lidos os dois relatos, parece que estamos a ver “filmes” diferentes... Mas os homens do BART 6221/74, lembram-se perfeitamente deste episódio traumático da sua juventude “ao serviço da nação” e sabem que aquilo está tudo escrito numa prosa “embelezada” ao sabor da memória e a favor deles (UNITA), com o intuito de apresentar “músculo” e achincalhar os militares portugueses que lá estiveram. Shiwale também refere que os militares portugueses “foram desarmados e despidos” (ele escreve que isso [o despidos] foi lamentável), embora esses episódios, pelo que tenho apurado até agora, se refiram apenas a meia dúzia de casos isolados, que abordarei em texto específico neste blogue noutra altura, assim como a célebre "Operação Madeira" em que a UNITA colaborou com o Exército Português e com a PIDE contra o MPLA, pouco antes do 25 de Abril...
Vejamos então a parte que nos diz respeito do tal Capítulo (o 5º) do livro de Samuel Chiwale: 


CRUZEI-ME COM A HISTÓRIA 
José Samuel Chiwale 
Sextante Editora, Lisboa, 2008 


Em Julho de 1975, depois de provocações em todo o país, reben­tou a guerra civil em Angola: os combates iniciaram-se de uma forma mais declarada em Luanda, entre o MPLA e a FNLA, continuaram em Agosto, espalhando-se por todo o país. Bastava haver efectivos dessas organizações para haver faísca. Mas também, se bem que de modo esporádico, não éramos poupados: o massacre de cerca de 328 recrutas da UNITA, em Cassamba, foi o exemplo mais revelador.

Recordo-me de ter participado a ocorrência ao Dr. Savimbi e de lhe ter sugerido que deveríamos retaliar; não era justo que cente­nas de pessoas fossem mortas como animais. Na sua comunicação, o Dr. Savimbi dizia:

– Convém não reagirem e procurem dialogar para evitar o pior; o diálogo é, neste momento, a arma que vocês devem utilizar na frente leste para evitarem que a situação se deteriore. Vamos continuar a bater-nos pela reunificação dos três movimentos.

Não tardou que as palavras do Dr. Savimbi fizessem eco na mi­nha cabeça: «Depois de acabarem com a FNLA seremos nós.» Efecti­vamente, de nada valeram os seus discursos para não enveredarmos pela guerra. O mais caricato é que o MPLA, num tom pejorativo, pas­sara a apelidá-lo de «Profeta da Paz». Mesmo assim, o Dr. Savimbi in­sistia, na vã tentativa de evitar que o país caísse no caos, até que se deu o inaceitável, que nos forçou a rever as nossas posições.

No dia 3 de Agosto de 1975, o Dr. Savimbi dirigia-se para o aero­porto de Silva Porto (Bié) com a intenção de viajar para a Zâmbia. Tinha na agenda um ponto para analisar com os presidentes dos países da linha da frente referente à criação de outros mecanismos para se inviabilizar o recurso à guerra e se realizarem as eleições conforme o previsto em Alvor. Nenhum de nós desconfiava que fora delineado um atentado contra ele nesse dia; assim que o avião «Muangai» procurou descolar do aeroporto do Bié, lançaram uns mísseis contra ele. Só não aconteceu o pior por milagre.

Realmente, o ataque ao avião era apenas o prelúdio do que veio a acontecer nos dias subsequentes e ainda mais: vimo-nos, do dia para a noite, no meio de um fogo cruzado. Assim, em Luanda éra­mos acossados pelo MPLA, juntamente com as forças cubanas; no norte (Uíje e Zaire) e mais a sul, pelas forças da FNLA. Estas ti­nham ali uma composição diversificada: contavam, para além de sul-africanos, com o ELP (Exército de Libertação de Portugal).

Reunimo-nos com urgência. Nesse encontro, onde a revolta se acasalara com a frustração, porque o pior já estava a acontecer, o Dr. Savimbi tomou a palavra e disse:

– Não queria que nos envolvêssemos nesta guerra, porque ela vai ser longa e dolorosa e o Povo deste país irá sofrer muito. Fizemos tudo por tudo para unir os três movimentos; fizemos tudo por tudo para se evitar uma guerra em que não nos queríamos meter, mas quando já nos tentam assassinar não temos outra alternativa senão autodefendermo-nos para salvaguardarmos as vidas e a causa.

Foi desta forma que a UNITA entrou numa guerra que, inicial­mente, era entre o MPLA e a FNLA.


Encontrava-me nesse momento na frente Leste, acompanhan­do a situação. Da parte do MPLA estavam os comandantes Dangereux e Dack Doy. À tarde tínhamos briefings regulares.

Naquele remoto dia 15 de Agosto [de 1975] estava com eles na minha casa, procurando a estratégia a utilizar para, conforme se dizia, pacificarmos a área.

– Camarada Chiwale! – Dangereux procurava sossegar-me. – Vamos fazer o impossível para manter o Leste livre das escara­muças. Foi por isso que viemos cá, a sua casa, a fim de lhe garantir­mos que o Leste é uma região de paz.

Estávamos na sala de estar, com Dangereux e Dack Doy senta­dos em frente de mim. Notei que o primeiro tinha consigo uma garrafa de champanhe.

– Vai um gole? Temos aqui copos? – convidou.

– Camarada Dangereux, podemos beber o champanhe, mas eu queria dizer-lhe que tenho informações fidedignas de que entraram hoje, às quatro horas da madrugada, 28 viaturas vindas de Henrique de Carvalho, abarrotadas de catangueses armados até aos dentes.

– Mas, camarada Chiwale – procurou novamente sossegar-me –, você não vê mesmo que isso que está a dizer não faz sentido? Como é que estaríamos aqui, na sua casa, se a nossa intenção fosse atacá-lo? Para isso convidá-lo-íamos para as nossas instalações ou para o quartel-general e dávamos lá o golpe de misericórdia. Peguem lá nos vossos copos para brindarmos à amizade existente entre o coman­do do MPLA e o da UNITA, da frente Leste.

Momentos depois, o ambiente tornara-se mais desanuviado e passámos para o whisky acompanhado de um churrasco. Às dezoi­to horas, despedimo-nos com a promessa de que o Leste seria um oásis naquele deserto de pólvora.

Não se tinha passado sequer uma hora quando um morteiro explodiu ao lado da minha residência. As minhas suspeitas confir­mavam-se: eles tinham estado ali não só para me espiar mas também para descobrirem a minha estratégia de ataque ou de defesa, e não se haviam apercebido de nada, por me subestimarem como adver­sário: dias antes eu organizara, no bairro periférico do Sangondo, um cordão de segurança, baseado numa forte estrutura militar sob o comando do major Severino, coadjuvado por outros militares, já míticos, como o Cazumbuela, o Cacoma, o Jolomba, o Cufuna e ou­tros. A minha segurança à volta do bairro Esteves (Ferrovia) tam­bém fora reforçada.

Foi desta forma tão inusitada que, no dia 15 de Agosto, começa­ram as confrontações no leste de Angola e – digo-o à boca cheia – graças ao meu sexto sentido pude escapar da armadilha de Dangereux e Dack Doy.

O fogo começou; respondíamos de modo incisivo e musculado: assim que um morteiro explodia dentro das nossas posições, dirigía­mos para o local dez obuses. Pretendíamos neutralizar as forças do MPLA a partir do BTR, que era o quartel-general das tropas portuguesas, situado na margem direita do rio Luena.

O poder do fogo foi-se intensificando em ambos os lados atin­gindo proporções jamais vistas na minha vida de guerrilheiro: os combates prosseguiram durante a noite; às seis da manhã tínha­mos conquistado a zona do aeroporto, o bairro Ferrovia, o Sakatundo, ou seja, toda a periferia da cidade do Luso. As tropas do MPLA haviam ficado apenas com a área do palácio e o quartel dos coman­dos, ainda por concluir.

Às onze e meia, quando íamos aplicar o golpe derradeiro para os escorraçar definitivamente da cidade, descobrimo-nos sem mu­nições. O mesmo deve ter-se passado com eles, uma vez que das po­sições onde estávamos víamos as FAPLA a ser reabastecidas pela tropa colonial [portuguesa], que ainda ali estava. Então eu fiz o que, na altura, me pareceu mais lógico: assim que os soldados do MPLA viram supri­das as suas necessidades em munições, bombas e granadas, mandei alguns dos meus homens com o mesmo propósito. Foi em vão.

Às quinze horas, forçado pelas circunstâncias, ordenei à tropa que batêssemos em retirada até à localidade de Chicala. Tratava-se de um recuo estratégico com os meus cinco mil homens dos quais, infelizmente, apenas três mil estavam armados, contrastando com as forças do MPLA, sobretudo dos catangueses.

* 

Muito antes das confrontações soubemos que o exército portu­guês, juntamente com os colonos do Luso, se iriam retirar para Por­tugal, pela via do Huambo. Daí, planeámos assaltar o comboio na Chicala, a não ser, disse aos meus homens, que construíssem outro caminho-de-ferro; mas se o comboio passasse pela Chicala, Cachipoque, Cangumbe, Cangonga, Munhango, Cuemba, até à ponte do rio Cuanza, então eles teriam que se haver connosco. Seguramente, era uma forma de os fazer pagar pela parcialidade nos combates do Luso.

No dia 24 de Agosto, o comboio-mala deixou aquela localidade em direcção à Chicala, onde chegou às 18 horas. Trazia consigo a maior parte dos efectivos da tropa colonial à excepção dos comu­nistas que permaneciam ali em socorro das FAPLA. Também transportava munições, bombas de morteiro 40, 60 e 81 mm, rockets, bazucas, minas antipessoal e antitanque; era mesmo do que precisávamos para inverter a situação da guerra no Leste.

Assim que o comboio accionou os freios, viu-se completamente cercado. Avancei, resoluto, para o seu interior, abordando o oficial responsável, de quem já não me recordo o nome.

Depois de o saudar à boa maneira militar, disse-lhe:

– Senhor coronel, preciso de armamento.

– Que armamento? – respondeu exaltado. – O senhor não sabe que este armamento pertence ao exército português e ao exigi-lo está a violar os Acordos do Alvor?

Visivelmente nervoso, ripostei:

– Não me venha agora com os Acordos do Alvor. Eu necessito de material e ponto final, e falando de violações, não tenho nada a dizer senão lamentar a vossa atitude na cidade ao fornecerem ar­mas às tropas do MPLA. Portanto, vamos pôr de lado os Acordos do Alvor e dê-me as armas, pois tenho que voltar para o Luso para retomar as posições que perdi.

O coronel, ao ver que as nossas posições se extremavam, chamou o padre Oliveira, nosso conhecido, pois fora ele quem, em 1974, viabilizara o primeiro encontro que tivemos com o Movimen­to das Forças Armadas, na base do qual se assinou o cessar-fogo. O padre saiu em sua defesa, defendendo os mesmos pontos de vis­ta, aos quais retorqui:

– Sempre respeitei o senhor padre, por tudo o que fez para o entendimento da UNITA com o Movimento das Forças Armadas, mas agora gostaria imenso que compreendesse que há uma necessi­dade extrema em satisfazer as necessidades dos angolanos. O padre Oliveira está a partir para Portugal, para a sua pátria. Eu não tenho outra pátria senão esta pela qual estou a lutar e se não o fizer corro o risco, assim como os meus homens e o meu povo, de desapare­cer. Gostaria que o senhor padre me entendesse não só como ho­mem, mas também em nome de Deus. Não é Ele que diz que se deve saciar os carentes? Estou carente de armas. Peço-lhe que compreen­da isso.

– Mas isso não pode ser, comandante! - exclamou. - Isto é um assalto.

– Gostaria – ignorando-o – que o padre Oliveira me entendes­se também. É que o senhor nem sequer deveria ir a Portugal. O seu lugar é aqui, as suas ovelhas estão aqui e foi aqui que o senhor pa­dre fez um trabalho excepcional para este povo. Vai deixá-lo assim sem mais nem menos? E mesmo que o faça acredito que um dia há-de voltar, mas isso só será possível com a UNITA no poder, pois es­ses que vocês apoiaram com armas e munições, se vierem a tomar o poder, a primeira coisa que farão é combater a igreja. Então, acho que estão de acordo em que eu posso retirar o material do comboio.

– Não chegámos a acordo nenhum – interveio o coronel –, aliás, o padre Oliveira disse-lhe o mesmo que eu. Será que não en­tende?

– Bem, se não vai a bem vai a mal. Vou chamar os meus ho­mens e olhe que são cinco mil e vamos tomar o comboio de assalto. E para já, senhor coronel, dê-me a sua pistola, vamos – estendi-lhe as mãos.

O que se passou de seguida foi caótico: os soldados portugue­ses, com a intenção de nos amedrontarem, começaram a disparar para o ar, mas quando viram cerca de quatro mil homens a corre­rem em direcção ao comboio ficaram todos quietos.

Foi assim que nos apossámos do comboio: a quantidade de ma­terial era surpreendente, passámos toda a noite a descarregar e às cinco horas da madrugada ordenei que o comboio partisse. Tinha orientado os meus homens para que se fizesse o mesmo nas outras estações, ou seja, em Cachipoque e Cangumbe a fim de o esvaziar por completo.

As coisas no Cangumbe, como acontece frequentemente nes­tas situações, não correram lá muito bem: alguns dos nossos homens insurgiram-se contra a tropa e os colonos que iam no comboio; agre­diram-nos chegando mesmo ao ponto de os despir, o que foi real­mente lamentável.

De seguida, o comboio foi deixando o resto do material em Cangonga, Munhango, Cuemba e, ao atravessar o rio Cuanza, ficou completamente vazio. Foi com essas armas que conseguimos alte­rar o teatro de guerra na frente leste, centro e sul. Na verdade, não era pouco armamento: G3, morteiros, antiaéreas em grandes quan­tidades. Deparámo-nos com algum material desconhecido; felizmen­te, tínhamos soldados oriundos do exército colonial português, que nos instruíram sobre o seu manejo.

No dia seguinte, às nove horas da manhã, vimos um avião de reconhecimento a rasgar os céus. Saudámo-lo com uma salva de fogo das antiaéreas capturadas. Os seus ocupantes devem ter ficado surpreendidos, pois o avião deu meia-volta e desapareceu no firmamento.

Entretanto, as coisas tiveram outros desenvolvimentos: a mi­nha acção foi objecto de uma reacção violenta por parte do coronel do Movimento das Forças Armadas no Huambo, que acabava de chegar de Moçambique. Abordou o secretário-geral, Miguel N'Zau Puna, nos seguintes termos:

– O vosso comandante Chiwale e os seus homens desarma­ram a composição que vinha do Luso para cá e, veja só, como se não bastasse, tiveram o desplante de despirem os seus ocupantes. Não aceitamos humilhações desta natureza e por isso vim adverti-lo, ao senhor que é responsável pela cidade do Huambo, de que vamos re­taliar e você vai arcar com as consequências.

– Se vocês querem retaliar – respondeu N'Zau Puna – então vão ao Luso onde está o homem que fez isso. Agora, se o querem fazer cá no Huambo, tenham muito cuidado que eu posso pôr a popula­ção desta cidade contra vocês, o que seria pior: não se esqueçam de que este povo ainda nutre muitos ressentimentos pelo passado e, como tal, a situação poderá tornar-se incontrolável. Sugiro, pois, que evitemos um banho de sangue.

O coronel, conforme soube mais tarde, achou por bem resignar-se. Informei, então, o Dr. Savimbi da ocorrência e do procedimento a seguir para a distribuição do material pelas outras unidades.


Pouco a pouco, o país entrava numa guerra sem precedentes, onde as várias forças e os seus aliados se digladiavam na tentativa de ocupar o maior território possível. Em Luanda, o MPLA refor­çara-se com milhares de soldados cubanos e centenas de técnicos da União Soviética, Alemanha Democrática e outros países do Les­te. No Sul, deparámo-nos com uma força cujos objectivos e progra­ma político desconhecíamos: o ELP (Exército de Libertação de Portugal), ainda que estivesse ligado às forças de Daniel Chipenda (que se passara para a FNLA), não se sabia bem o que pretendia; os elementos que o compunham tinham pertencido ao exército colo­nial português e estavam refugiados no Sudoeste Africano (...)

Dirigentes da UNITA em TERRA LIVRE DE ANGOLA (Fevereiro de 1978)
Os dois à direita: Savimbi e Shiwale.


Shiwale actualmente...

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ANGOLA 1975/1976 – NARRATIVA CRONOLÓGICA – IN ‘O JORNAL’ DE 7 DE JUNHO DE 1976

Agostinho Neto (17/09/1922 - 10/09/1979) - Holden Roberto (12/01/1923 - 02/08/2007) 
e Jonas Savimbi (03/08/1934 - 22/02/2002)

ANGOLA 1975/1976
NARRATIVA CRONOLÓGICA
IN ‘O JORNAL’ DE 7 DE JUNHO DE 1976

Mais um recorte d’O Jornal, que é uma (longa) síntese histórica daquilo que foram os acontecimentos em Angola, antes (indo até, por vezes, muito antes mesmo) da independência, mas que, infelizmente, guardei cortado em tiras (as colunas do texto coladas em papel A4), sem ter preservado o título e o nome do jornalista que o escreveu. É um texto longo, mas essencial para se perceber o que se passou no território angolano antes de 11 de Novembro 1975 e mesmo depois dessa data.

As fotos são da minha responsabilidade.

  
  
  
  

O Jornal, 7/5/1976

Entre 15 e 22 de Junho de 1975, como soubemos, reali­zou-se a Cimeira de Nakuru, no Quénia. Já falámos nas cir­cunstâncias que possibilitaram esta Cimeira. Logo a seguir, os movimentos acordaram em co­memorar a «semana da unidade», que consubstanciava o ambiente de «mea culpa» que se tinha vivido na Cimeira, e do qual, o conteúdo acordado é uma pro­va eloquente. Mas uma coisa são as bonitas declarações políti­cas, outras são as realidades, motores da evolução das si­tuações. Mesmo após Nakuru, e apesar das declarações de in­tenções, (significativamente, sem a presença portuguesa), o território encontrava-se cada vez mais na posse dos movimen­tos. A linha de contenção da FNLA - Zaire estava melhor definida, mercê de uma estra­tégia político-militar do MPLA: Temos de considerar isso brilhante, em atenção ao esforço que foi necessário para o con­cretizar e os apoios externos que nessa altura dispunham as forças rivais, nomeadamente a FNLA.

Cimeira de Nakuru, no Quénia: Jonas Savimbi, Jomo Kenyatta (Presidente do Quénia), Holden Roberto e Agostinho Neto

Luanda, palco principal da «semana da Unidade», com to­da a sua importância política, situava-se atrás dessa linha. E nesta cidade, com as casas da «zona do asfalto» a abarrotar de desalojados, com as concen­trações frente ao Palácio e de an­golanos, também desalojados que iniciavam um irreprimível movimento migratório interno, com um poder popular acresci­do, agressivo e em grande parte descoordenado, a FNLA «flu­tuava» sem apoio das massas populares, e a UNITA crescia po­liticamente com base na etnia branca ou na burguesia negra que se alinhavam tacticamente a este movimento.

Neste ambiente, era natural esperar que a FNLA aproveitas­se a «paz política» pós-Nakuru para, em desespero, procurar impor-se o mais possível, segun­do os seus métodos habituais. Era natural que a UNITA, bus­casse manter ao transe uma si­tuação que a favorecia, não se envolvendo em acontecimentos que surgissem, e era natural que o MPLA, com toda a sua im­plantação, pretendesse a si­tuação clarificada, acabando-se de vez com os equívocos. De facto, se ao Norte a FNLA era «dona e senhora», se no planal­to a UNITA (nomeadamente em Nova Lisboa) comandava as operações, então deveria ser reco­nhecido o poder do MPLA em Luanda. Mas... Luanda era o «centro» do problema e as pre­senças militares eram despro­porcionais às implantações políticas ou às importâncias políticas, baseavam-se em facto­res irreais (caso da UNITA).

Aconteceu, assim, que a «sema­na de unidade» durou quatro dias, findos os quais estalaram novos incidentes, que uma vez mais fizeram com que a vio­lência generalizada se estabele­cesse na cidade. Surgem assim, mais desalojados, mais comuni­cados (alguns patéticos), mais raptos, mais prisões, mais mor­tos. Os tiros ecoam por toda a cidade e também mais uma vez a parte portuguesa se esforça por conter os acontecimentos e estabelecer o diálogo possível.

Nakuru tinha tido lugar em 22 de Junho de 1975: a «semana da unidade» havia durado 4 dias. Em Nakuru tinha-se inclu­sivamente acordado uma orga­nização para as Forças Armadas angolanas diferente da acordada no Alvor. Era claro que, a desde sempre ambicionada plataforma política mínima não se concreti­zava, e que agora, já não se po­dia pensar em Forças Armadas angolanas. A situação ia, pois, continuar a deteriorar-se.

Assim, em 10 de Julho, du­rante uma cerimónia do arriar da bandeira da FNLA no bairro Marçal, aconteceu mais um inci­dente (dos muitos que já se veri­ficavam), em que elementos do MPLA não se perfilaram duran­te a cerimónia. Estalam, assim os incidentes em Luanda. Na sequência dos quais Luanda vai ficar sem pão por uns tempos, devido a cortes de energia eléctrica na zona industrial do Cazenga. Por outro lado, o pes­soal menor do Hospital Maria Pia entra em greve, ficando ain­da mais agravado o problema da assistência hospitalar no Hospital Militar, pois o Hospital de S. Paulo encontra-se encerra­do desde os incidentes de Junho.

A «limpeza» da FNLA

Mas voltemos à delegação da FNLA na Avenida do Brasil, em Luanda. Com o incidente acima descrito, e dada a impor­tância (sobretudo militar) desta delegação, estão criadas con­dições para uma «limpeza» des­te movimento e que efectiva­mente aconteceu em 11 de Ju­lho feita pelo MPLA. 

Em 12 de Julho a Comissão Nacional de Defesa reúne, mas o MPLA não aparece. Desta reunião sai­rá um comunicado responsabili­zando o MPLA pelo que está a acontecer. Então, perante as derrotas que começam a sofrer no terreno, a FNLA acusa as Forças Armadas Portuguesas de estarem ao lado do MPLA.

Mas a questão era fundamentalmente entre os movimentos. Assim, ainda se consegue uma reunião entre a FNLA e o MPLA, em que este último, em posição de relativa força, impõe as condições para a desmilitari­zação de Luanda. Só que, dada a implantação popular do MPLA, isto significava o seu total poder na cidade. Como anular o poder popular? Como desar­má-lo? Como aceitaria a FNLA reconhecer esta real implan­tação? Evidentemente que não a reconhece e vai tentar manter a sua presença ao máximo.

Entretanto, no restante terri­tório, concretizava-se cada vez mais a linha de contenção mili­tar da FNLA-Zaire, ao Nor­te. Atrás desta linha situava-se Luanda, a capital política do país. Sentia-se portanto que, ca­so surgissem novos problemas, o MPLA tentaria resolver defi­nitivamente a questão, em vez de se continuar com paleativos.

Em 14 de Julho, no entanto, o ministro Melo Antunes, pe­rante o agudizar da situação, desloca-se novamente a Luan­da, tendo conseguido reunir-se com os três movimentos sepa­radamente, no sentido de se ten­tar acalmar a situação e procu­rar uma solução. Em 16 de Ju­lho a situação é efectivamente mais calma e em 17 de Julho a Comissão Nacional de Defesa, que tinha funcionado razoavel­mente ao longo da sua exis­tência, reuniu completa, pela última vez. Finalmente a FNLA sofre uma estrondosa derrota, acabando por resumir a sua presença militar ao Forte de S. Pe­dro, próximo da refinaria de Luanda e dos seus tanques de combustível. Também no Bair­ro do Saneamento, se mantinha a presença da FNLA – nas resi­dências dos seus ministros, que estavam superlotadas de pessoal armado – 200 pessoas numa moradia segundo se apurou mais tarde.

Nesta circunstância e por parte da FNLA, só prati­camente o ministro do Interior, Kabangu, se mostra à altura da situação, demonstrando a cora­gem e a arrogância de sempre. Os outros, já se haviam refugia­do no Zaire e em «zonas segu­ras» e um raptou-se a si próprio quando viu que ia servir de «bo­de expiatório». Nestas circunstâncias a FNLA pretende por todos os meios recuperar po­sições perdidas, tentando reu­nir-se com os outros movimen­tos e com Portugal. Põe-se en­tão às forças portuguesas o pro­blema de evacuar ou não Carmona, S. Salvador e Negage, no Norte do País. Evacuar seria contribuir para um maior êxodo da população e acentuar ainda mais a «balcanização» do terri­tório. Não abandonar seria dei­xar nessas zonas, por um período necessariamente curto, um número elevado de «reféns» que poderiam ser utilizados co­mo forma de pressão em relação ao que estava a acontecer em Luanda.

Sede da FNLA na Av. do Brasil, Luanda 1975

INCIDENTE DE VILA ALICE

Ainda a 25 de Julho acontece o célebre incidente da Vila Ali­ce. Depois de desarmados por elementos das FAPLA, milita­res portugueses utilizando jeeps das FAP, haviam sido feridos gravemente, tendo sido alveja­dos pelas costas. E dado ao M PLA um prazo para entrega dos responsáveis. O prazo não é cumprido tendo sido prorroga­do por duas horas. Então, na Vila Alice, é montado um dispo­sitivo militar aparatoso que cer­ca a delegação do MPLA, tendo sido pedida a entrega dos responsáveis. No decurso das con­versações que decorriam entre o comandante da nossa força e o representante do MPLA, de­sencadeou-se forte tiroteio de que resultou a morte de 16 pes­soas, compreendendo alguns ci­vis e, na maioria, elementos das FAPLA.

Este facto agrava extraordinariamente as relações entre o MPI.A e a parte portuguesa. En­tretanto, acontecem mais inci­dentes entre o MPLA e a FNLA em Novo Redondo, Gabela, N'Dalatando (Vila Salazar), Malange, Andulo, N'Giva (Pereira D'Eça), Saurimo (Henrique Carvalho), etc.

Por esta altura e como é óbvio, o Governo era pratica­mente inexistente e a Comissão Nacional de Defesa inoperante.

Nos princípios de Agosto, o Conselho Económico decide suspender as suas actividades. De facto, acompanhando a agu­dização do ambiente político e militar, o sistema bancário ha­via paralisado. No Huambo, por exemplo, havia agora cerca de 100 000 desempregados: em Luanda a indústria estava prati­camente paralisada, a refinaria havia suspendido a sua labo­ração e os circuitos de distri­buição dos diversos produtos es­tavam virtualmente parados – a fome fazia a sua aparição em Angola, sobretudo ao Norte on­de se tinha verificado um gran­de afluxo de refugiados.

Neste contexto, Savimbi anuncia que se recusa a falar com Portugal, delegando no ministro N'Dele este encargo, proibindo ainda os ministros da UNITA de participarem em reuniões do Conselho de Ministros. As con­frontações são, como se viu, ge­neralizadas, está-se praticamen­te perante a secessão do terri­tório. A guerra dos comunica­dos surge novamente, tendo o MPILA, através de uma decla­ração, denunciado a ENLA: o alto-comissário interino responsabiliza os movimentos pelo que está a acontecer.

ACELERAÇÃO DA SITUAÇÃO MILITAR

Também, por esta altura, verificar-se-à a entrada de tropas da República da Africa do Sul na zona do complexo hidroelécttico de Calueque e Ruacaná, envenenando-se ainda mais as relações do MPLA com a parte portuguesa. Este movimento, em 21 de Agosto denunciará pu­blicamente este estado de coisas.

Acontecem então as graves confron­tações no Bairro do Saneamento em Luanda, sendo evacuados os ministros que restavam da FNLA. A UNITA retira completa­mente da cidade notando-se, então as primeiras evidências da aliança FNLA-UNITA, de há muito suspeitadas.

Em 11 de Agosto o MPLA é derrotado em Nova Lisboa, abandonado militarmente a ci­dade. Os incidentes começam a espalhar-se mais fortemente pe­lo Sul do território. Logo em 12 de Agosto, acontecem inci­dentes em Moçamedes, sendo o MPLA derrotado por forças conjuntas da FNLA/UNITA fortemente apoiadas por merce­nários portugueses e sul-africanos. O alto-comissário interino, chamou então a si os poderes do Colégio Presidencial, o que lhe valeu ser atacado de todos os lados, principalmente pela FNLA que em 17 de Agosto, atra­vés de uma conferência de Im­prensa dada em Kinshasa por Johnny Eduardo, protestava pe­lo facto de esta decisão ser con­tra o Acordo do Alvor, acusan­do o general Macedo de estar conluiado com o MPLA. Dizia ainda que não considerava que o Governo estivesse dissolvido e que o convocaria, como pri­meiro-ministro em exercício, para local a indicar. Além disso, afirmava que o ELNA entraria em Luanda.

Ainda em 17 de Agosto, Viei­ra de Almeida afirmava em Lis­boa que não voltaria a Angola como ministro e a UNTA (união sindical afecta ao MPLA) manifestava-se em Luanda contra a decisão de se nomearem direcções para a Banca particular, mas que no fundo significava um apoio ao MPLA para que ocupasse os lugares deixados vagos no Governo pelos outros dois movimentos.

Dois dias antes, tinha havido confrontações no Lobito de que o MPLA tinha saído vitorioso, e as FAP encontravam-se com­pletamente empenhadas em mis­sões aero-navais que tinham co­mo objectivo transportar ele­mentos dos movimentos para as suas áreas «normais». As vias de circulação estavam cortadas, não sendo possível o abasteci­mento em Luanda.

Em 18 de Agosto, o gabinete militar do alto-comissário emi­te um comunicado sobre o «rap­to» de Mateus Neto (FNLA), que em 23 do mesmo mês fará a sua autocrítica, através da Emissora Oficial.

Então, em 22 de Agosto de 1975, é publicado o Decreto-lei nº 458 - A/75, que sus­pende transitoriamente a vigência do Acordo do Alvor, no respeitante aos órgãos do Go­verno de Angola, tendo ao mes­mo tempo sido atribuidas ao al­to-comissário a função legislati­va e a superintendência na função executiva. Determina­va-se ao mesmo tempo, que fos­sem substituídos os ministros portugueses no Governo de transição de Angola (para se evitarem acusações de concluio com este ou com aquele movi­mento), bem como a substituição, por directores-gerais no­meados pelo alto-comissário, de todos os ministros que de facto se tivessem ausentado. E nova­mente as acusações contra Por­tugal, choveram de todos os la­dos, tambem nesta altura, Por­tugal comunicava a suspensão temporária do Acordo do Alvor e a adopção de certas medidas de emergência às Nações Uni­das, à OUA, aos novos estados africanos de expressão portu­guesa e a outros países africanos e europeus, justificando as medi­das tomadas e apelando para os bons ofícios de alguns desses países. Era então ministro dos Negócios Estrangeiros o dr. Mário Ruivo, que juntamente com o Presidente da República, General Costa Gomes, e ele­mentos destacados em Portugal da Comissão Coordenadora do MFA de Angola, constituíam o grupo que aqui tentava resolver os múltiplos problemas que se punham. Andava então na «ber­ra» o documento dos «Nove»...

A 21 de Agosto, o MPLA de­nuncia a ponte aérea Kinshasa-Negaje e a presença já confir­mada de tropas da RAS [República da África do Sul] em Ca­lueque. Só no início de Outubro se verificará o desembarque dos primeiros cubanos em Angola que teve lugar em Porto Amboim.

Perto de Luanda encontra­va-se por estas alturas a FNLA. que se tinha mantido no forte de S. Pedro à espera de reforços para a sua anunciada entrada em Luanda. O MPLA atinge em 19 de Agosto a barra do Dande que voltou a perder em 24. A 26 de Agosto há recontros na Jamba entre o MPLA e a UNI­TA. Um dos directores das minas é morto e o restante pessoal pre­tende abandonar o local. Já aqui, virá Portugal a assumir um encargo de seis milhões de contos se tudo continuar na mesma...

No dia 30 de Agosto a FNLA chega junto ao Quinfangondo, a cerca de 20 km de Luanda. Em Lisboa tomam posse o novo alto-comissário almirante Leo­nel Cardoso e o novo coman­dante-chefe-adjunto, generaI Heitor Almendra. A Reuter anuncia que em Lisboa o MPLA e a UNITA tinham firma­do um acordo de cessar-fogo. Infelizmente tal não era verda­de. Haviam sido acordados al­guns princípios, mas a partir da­qui, em vez de convergirem, es­tes movimentos afastar-se-iam cada vez mais. A UNITA acaba­ria por aliar-se à FNLA e a ser derrotada juntamente com esta no período pós-indepen­dência. Uma verdadeira aliança, se esta não fosse tão fortemente receada pela FNLA e outros in­teresses externos que também apoiavam a UNITA, teria certamente conduzido a situação bem menos dramática. A UNI­TA receava ser «comida» pelo MPLA, o MPLA pretendia utili­zá-la para resolver o problema de vez com a FNLA. Mais tarde se analisaria de novo o proble­ma. Era nisto que consistia uma aliança táctica, mas a UNITA era demasiado pequena e caute­losa para jogar tão forte.

Com o novo alto-comissário, secundado no terreno por ho­mens como Almendra, a parle portuguesa adquire o dinamis­mo que lhe faltava e uma di­recção em que não têm lugar os equívocos. A situação políti­ca e militar é mais clara (não mais fácil!) e portanto é possível um outro trabalho, em que avultava a ponte aérea que era necessário dinamizar constante­mente. Em Lisboa, junto ao Pre­sidente da República trabalhava

o Gabinete de Angola, «caixa de ressonância» da Comissão Coor­denadora, já que continuava a haver «pouca ressonância» em relação aos problemas angola­nos. Por aqui surgirá a necessidade de uma Secretaria de Retor­nados, que na altura será o IARN, só possível dadas as es­peciais características do tenente-coronel Amaral, que seria o seu di­rector. Hoje é fácil criticá-lo (ao IARN), mas só quem o iniciou saberá as dificuldades que en­controu para montar, à escala nacional, um serviço para ocor­rer a um problema que a cons­ciência nacional não vivia.

A norte do Quifangondo, em 1 de Setembro, morre um alfe­res português e são aprisionadas três praças pela FNLA. As praças são libertadas mais tarde.

Por esta altura as FAP esta­vam presentes em Luanda, Ca­binda, Santo António do Zaire, Catete, Nova Lisboa, Lobito, Moçamedes, Sá da Bandeira, Dondo e Benguela. O seu total não ultrapassava os 18 mil ho­mens. De Luanda eram constan­temente pedidas «tropas espe­ciais» dado que a data de inde­pendência se aproximava e era necessário prevenir militarmen­te a retirada das nossas tropas e dos portugueses» que ainda lá se encontravam e desejavam embarcar. Portugal tinha que garantir, como qualquer outra força nas suas circunstâncias, os principais pontos estratégicos, tais como cais. aeroportos, etc. Mas o sempre prometido retorço não chegava, nem chegou à excepção de «paras» volun­tários em 2 de Outubro. À medi­da que se aproximava o 11 de Novembro e depois o 25 de No­vembro, os problemas aumenta­vam quanto a esta eventualida­de. Mais uma vez parecia dar-se razão ao slogan, «nem mais um soldado para o ultramar».

O presidente da UNITA, Jo­nas Savimbi, profere, em 7 de Setembro, um discurso em que ataca fortemente a parte portu­guesa. Ele próprio havia afirma­do diversas vezes, que na pers­pectiva da UNITA seria impor­tante que os portugueses se mantivessem em Angola, por al­guns anos, através de um estatu­to a discutir. A evolução do pro­cesso, sobretudo a aliança FNLA/UNITA e a saída progressiva de Portugal, provocaram neste movimento, o desencanto e a desconfiança em relação a Por­tugal, que agora se materializa­va.

No dia 11 de Setembro, o MPLA desencadeia uma ofensiva a norte de Luanda, tendo chega­do aos Libongos. Assim se de­monstrava ser possível aliviar a pressão que a FNLA pretendia manter em relação à capital. Es­te movimento dispunha, nesta altura, de apoios externos que continuavam a ser insuflados tendo em linha de conta a inde­pendência que se aproximava. A FNLA não justificava os de­saires desses apoios dada a sua falta de inserção popular. Aca­baria, assim, por morrer aos poucos e tanto mais depressa consoante os golpes que lhe eram sucessivamente vibrados pelo MPLA.

Em 16 de Setembro, chegam a Luanda os delegados da reu­nião de Lusaka, para conver­sações com o MPLA. Nesta reu­nião, tinham estado presentes a República Popular do Congo Zâmbia, Tanzânia, Botswana, e Moçambique. Seguiram-se, de­pois, outras reuniões neste mes­mo local, possivelmente para se assentarem melhor os princípios fundamentais e as tarefas con­cretas, no sentido do novo não-alinhamento em África. De facto, é comum ouvir-se cm re­lação à RPA que esta é mais um «satélite» da URSS. No en­tanto, poucos conhecem o espírito do manifesto de Lusaka e as atitudes de países como a Tanzânia, perante a Federação que esta constituía com o Quénia (pró-EUA) e o Uganda (pró-URSS). Isto para não falar da República Popular do Congo ou da Zâmbia, condicionada por tantos e variados sectores. Do leque de países reunidos em Lusaka. resultou pois uma dele­gação que travou conversações com o MPLA, que (não o es­queçamos) estava na altura pe­rante ameaças bem concretas.

Isto não impede, porém, que certamente se tenham delineado as grandes linhas estratégicas com vista ao não alinhamento desses países, única forma de poderem, de futuro, desfrutar de uma verdadeira independência. Algo de semelhante está aliás, a acontecer em relação à Ro­désia; e algo de semelhante se, concretiza, por exemplo, numa Nigéria. E tudo se materializa, finalmente, no grande apoio diplomático que o MPLA foi su­cessivamente obtendo no conti­nente africano, a ponto de ter decisivamente influenciado a correlação de forças a nível da OUA.

Mas. entretanto, agiganta­va-se o espantalho da interna­cionalização do conflito, avulta-se a arena dos interesses que, derrotados no campo de luta, julgam poder resolver os reais problemas dos povos, recorren­do a grandes organizações, dis­pondo de grande poder militar. Assim, em 19 de Setembro, o grupo africano na ONU, rejeita­va uma proposta de Leopold Senghor (Senegal), no sentido de remeter para a ONU o proble­ma de Angola. Em 27 de Outu­bro, este mesmo grupo tomaria uma posição clara, reprovando a acção da coluna, que vinda da República da Africa do Sul, tentava desestabilizar a situação político-militar em Angola, nas proximidades da data da Inde­pendência, favorecendo assim as posições das já decrépitas FNLA/UNITA.

Mas, ainda em Setembro, no dia 21, a FNLA conseguia reto­mar o Caxito e a Barra do Dande, nas proximidades de Luan­da.

Nos dias a seguir, a OUA reú­ne para apreciar, entre outras coisa, a situação em Angola. A OUA afirma, então a sua po­sição de que deveria consti­tuir-se um Governo de Unidade Nacional, englobando os três Movimentos. Em seguida, envia a Angola uma numerosa dele­gação, que entrará em contado com os três movimentos. Nesta altura, portanto, o MPLA não dispunha ainda, na OUA, do apoio que depois foi sucessiva­mente conseguindo.

Também a Conferência dos Países Não-Alinhados, realizada em Lima, no Peru, se havia ma­nifestado favoravelmente em re­lação ao Movimento de Agosti­nho Neto e era flagrante o apoio que estes lhe dispensavam na ONU.

Em, 10 de Outubro chegaram a Luanda as delegaçôes da OUA, acontecendo então uma impressionante movimentação popular durante a sua visita. O MPLA não perdia o ensejo de mostrar a sua real implantação. Entre 15 e 17 de Outubro a delegação vai a Nova Lisboa a fim de contactar a UNITA e entre 17 e 19 vai ao Ambriz para contactar a FNLA.

Entretanto entre 16 e 17 a FNLA desencadeia acções na 1ª Região Político-Militar do MPLA, situada a Norte de Luanda, a que possivelmente não é alheia a presença dos observadores da OUA.

A 19 de Outubro o Directório do MPLA faz uma declaração, lida pelo Presidente Agostinho Neto, na qual acusa a FNLA de ser a culpada dos acontecimentos. A 22 do mesmo mês, um grupo de portugueses (que depois virão a Portugal), reúne-se e aprova uma moção em que se exige que a Independência seja dada ao MPLA.

Ainda em Outubro, Vítor Crespo desloca-se a Angola, tendo do estado no dia 23 em Luanda, dia 24 no Ambriz e no dia 25 em Nova Lisboa.

A data da Independência aproximava-se a passos largos. Em Angola a posição era cada vez mais favorável ao MPLA, apesar dos obstáculos que falta­va vencer. Consequentemente a pressão internacional aumenta­va (lá e cá).

Então, em 26 de Outubro, processa-se a entrada em Ango­la de uma coluna militar que, vinda da Africa do Sul, anuncia­va entrar em Luanda até 8 de Novembro. Os objectivos eram, pois, claros e inserem-se numa manobra desesperada mais vasta que visava tentar o impossí­vel. Em Portugal, alguns políti­cos afirmavam que o MPLA es­tava por dias. Aqui, a correlação de forças, não permitia que Por­tugal assumisse uma posição cla­ra.

A entrada desta coluna, con­juntamente com a movimen­tação de forças da FNLA/UNITA, vai dar origem a uma série de combates, extremamente vio­lentos, em três linhas fundamen­tais, que tentavam superar o MPLA: de Sul para Norte e junto à costa, apresentava-se a coluna militar que referimos; sensi­velmente de Leste para Oeste, desenvolviam as forças da FNLA/UNITA; de Norte para Sul avançavam as forças da FNLA/Zaire.

O ponto de confluência fundamental era Luanda. Os objec­tivos principais, o domínio da faixa costeira, a Norte e Sul e a partilha do MPLA entre a área de Luanda e o Leste.

Entre os dias 1 e 5 de Novem­bro, a ONU reúne em Kampala, estando presentes observadores portugueses, expressamente con­vidados para o efeito. Portugal afirma que reconhecerá os Mo­vimentos de Libertação até à da­ta da Independência e que a so­berania será entregue ao Povo angolano. Ficava, pois, em aber­to, o reconhecimento de um Governo em Angola.

Retornados não são seres de outra espécie

No dia 2 de Novembro, termina a ponte aérea, enquanto se carregam os últimos navios incluídos na ponte marítima. A ponte aérea, a maior da história da humanidade, tinha consti­tuído das principais preocu­pações das autoridades portu­guesas. Havia que garantir, a quem desejasse embarcar, a pos­sibilidade de o fazer, embora sem encorajar as pessoas para que o fizessem. Os problemas que se levantaram e que foi pre­ciso resolver revelaram-se imensos. Assim, houve que ter em conta os elevados custos da operação e foi necessário arranjar os meios (gratuitos e fretados) planeando depois a sua utilização racional articulada com os problemas do combustível que se tentava arranjar nos mais diversoso locais. Foram enviados petroleiros para obviar as falhas do fornecimento das refinarias de Luanda e a máquina dos Negócios Estrangeiros tentava conseguir a chamada “gasolina política”, que por vezes faltava. Havia que garantir a segurança, desde os terminais aéreos e marítimos, até à alimentação e saúde dos numerosos refugiados que se aglomeravam, impacientes. Nos portos e aeroportos, a bagagem amontoava-se. E as pessoas partiam, por vezes sem os seus haveres, acumulando-se depois no aeroporto de Lisboa. Havia ainda o problema das tranferências de dinheiro, da quantidade de bagagens que cada um podia trazer, etc, etc, etc... As reacções dos indivíduos eram as mais diversas. Desde os que colaboravam com as autoridades organizando os embarques nos terminais, viajando vezes sem conta, entre Angola e Portugal, ou acolhiam aqui os refugiados que iam chegando. Outros, traumatizados pelos acontecimentos, lançavam em frente o seu egoismo e tentavam passar o que podiam, mesmo que isso significasse que outros nada poderiam trazer. O controlo de tudo isto era dificílimo e os negócios ilícitos proliferavam.

Com a vinda dos refugiados, o povo português assumia uma maior consciência da magnitude do problema. Mas esse problema não assumia a dimensão nacional que efectivamente tem, nem a incapacidade de o enfrentar. Muitos acabavam por repelir simplisticamente os que acabavam de chegar, apelidando-os de colonialistas, reaccionários e um perigo para a Revolução. Mas o problema não era só este. De facto qualquer massa de desadaptados é um perigo social, sobretudo se estes são traumatizados, como é o caso. Era preciso pois acolhê-los condignamente, integrá-los na sociedade, inclui-los nos circuitos de emigração, que permitissem o seu refluxo para a terra de onde tinham partido.

No período que vai de Agosto a 31 de Outubro, os números registados no que respeita a transporte de pessoal e material foram: TAP comercial, 68.761; TAP, aviões fretados 46.134. Em voos gratuitos temos a TAP com 1.382, EUA 30.727, URSS 4.771, França 3.874, GB 5.906, RFA [República Federal Alemã], 4.195, RDA [República Democrática Alemã] 4.039. Por via marítima foram transportados em navios fretados 5.104 pes­soas e em navios oferecido pela URSS 690. Isto perfaz um total de 238.265. No que respeita a bagagens, foram transportadas na ponte aérea 1.140 toneladas e por via marítima (comercial) cerca de 226.000 metros cúbi­cos, além de 15.490 viaturas.

Evidentemente, que além des­tes números, haverá que contar com os refugiados que abando­naram Angola, quer pelas fron­teiras Sul e Norte ou para a Zâmbia (poucos) e que depois utilizaram meios não controlados. Há que contar também com os que saíram de Angola antes desta data. No entanto, é inegável que o maior número de refugiados utilizaram estes meios no período considerado, pelo que o número total não excederá possivelmen­te as 320/350.000 pessoas.

Em 11 de Novembro aconteceu a Independência de Angola. Depois do arriar da bandeira na fortaleza, ao pôr-do-sol, o último alto-comissário, almirante Leonel Car­doso, embarcava no «Niassa» que, juntamente com os outros navios aguardara dentro dos li­mites das águas territoriais o primeiro minuto do dia 11, zar­pando em seguida para Portu­gal. Em Luanda, seguir-se-iam diversos festejos e comemo­rações, sob a égide do MPLA e na presença de diversas entidades estrangeiras convidadas por este Movimento, Da presença portuguesa, restava agora, numa qua­lidade semioficial, o dr. Teixei­ra da Mota, além de todos os portugueses que haviam efecti­vamente permanecido na terra que consideraram sua. A UNITA e a FNLA, haviam proclama­do a República Democrática de Angola, sem que no entanto, es­ta viesse a ser reconhecida por qualquer país. A situação mili­tar era ainda tensa. Avizinha­vam-se grandes combates, entre o MPLA, que havia formalizado um pedido de auxílio a Cuba e à URSS e os seus opositores, que dispunham dos apoios que se conhecem.

Em Portugal, a indepen­dência de Angola era um pro­blema grave sob o ponto de vis­ta político. Não só devido aos diversos prismas com que o pro­blema era visto por diferentes forças políticas, mas também pelo peso da pressão externa. Não foi, pois, possível a tomada de uma resolução, que, pelo me­nos levasse em linha de conta, de uma maneira realista, os inte­resses materiais do Povo portu­guês. Portugal, teve nos últimos momentos do período da desco­lonização deste território, gran­des hipóteses de entrar no cami­nho das boas relações com a RPA [República Popular de Angola], em melhores condições do que as actuais. Para resolver o problema da posição portugue­sa, punham-se diferentes hi­póteses, desde o reconhecimento de jure do MPLA, ao reconheci­mento de facto deste Movimen­to, que poderia ser acompanhado ou não do reconhecimento »com efeitos limitados» dos outros Movimentos. Uma posição destas tinha pro­fundas implicações em relação ao panorama político e militar, sobretudo no respeitante à política externa. Assim, uns, talvez desconhecendo a essência do problema, afirmavam que o MPLA estava por dias, outros, receavam possíveis reacções de retornados (sem ter em conta o que representava para a reso­lução dos seus problemas), mas a grande maioria receava funda­mentalmente as reacções de países estrangeiros.

O ambiente político em Por­tugal já se encontrava bastante complicado. Assim, embora es­tando prevista uma deslocação de Vítor Crespo a Luanda onde assistiria a uma cerimónia com o país já independente (e nisto consistiria o reconhecimento de facto), esta foi cancelada à últi­ma hora, já que o Governo reu­nido em S. Bento não dava o seu aval a este procedimento. Estavam estabelecidos à volta deste assunto (e não só) os cho­ques relativos, entre o Conselho da Revolução e as forças presen­tes no Governo, o que viria a contribuir possivelmente para a reformulação da direcção polítíco-militar em 25 de Novembro.

Depois, como todos sabemos, o problema foi sendo sucessiva­mente adiado, as relações entre os dois países passaram por me­lhores e piores momentos (mas nunca bons e suficientes) enquanto outros países reconheciam primeiro que Portugal, uma situação que já era eviden­te há muito tempo. Resta-nos agora esperar, que se ultrapas­sem as dificuldades que restam, para entrarmos numa época de franca cooperação. E que os re­fugiados, vítimas directas de uma situação que os ultrapas­sou, também compreendam que esta será a única e a melhor via para a tentativa de solução dos seus problemas, opondo-se fundamentalmente às manobras dos que persistem querer man­tê-los como seres de outra es­pécie, necessariamente desenquadrados do pais onde se acolheram.

Dezasseis anos depois, a data contínua bem viva

Pela primeira vez em decla­ração oficial, os Estados Unidos revelaram a presença de tropas cubanas em Angola em Novem­bro de 1975. Três meses depois, durante uma breve visita a Ca­racas, Henry Kissinger disse, em privado, ao presidente Carlos Andrés Perez: «Os nossos ser­viços de informação estão tão deteriorados, que só soubemos da ida dos cubanos para Angola quando já lá estavam».

Naquela altura, já estavam em Angola muitas tropas, espe­cialistas militares e técnicos ci­vis cubanos, em número que ul­trapassa o que Henry Kissinger poderia prever. Havia tantos barcos cubanos ancorados na Baía de Luanda, que o Presiden­te Agostinho Neto, ao contá-los da sua janela, sentiu um estre­mecimento de pudor, próprio do seu carácter. «Não é justo teria ele dito a um funcio­nário amigo — por este cami­nho, Cuba vai arruinar-se».

E provável que nem os próprios cubanos tivessem pre­visto que a ajuda solidária ao povo angolano viesse a alcançar tamanhas proporções. O que sa­biam, desde o início, era que a acção teria de ser decisiva e rápida, e que de modo nenhum se poderia perder.

Os contactos entre a revo­lução cubana e o Movimento Popular de Libertação de Ango­la (MPLA) estabeleceram-se pe­la primeira vez em Agosto de 1965, quando «Che» Guevara participava nas guerri­lhas do Congo e desde então intensificaram-se bastante. No ano seguinte, esteve em Cuba o próprio Agos­tinho Neto, acompanhado por Endo, o comandante-chefe do MPLA, que viria a morrer du­rante a guerra, tendo-se avista­do ambos com Fidel Castro.

Em breve, e pelas próprias condições da luta em Angola, esses contactos tornaram-se apenas eventuais. Só em Maio de 1975, data em que os portu­gueses se preparavam para reti­rar das colónias de Africa, o comandante cubano Flavio Bra­vo se encontrou em Brazaville com Agostinho Neto, altura em que este lhe solicitou auxílio no transporte de um carregamento de armas, tendo-o consultado, por outro lado, sobre a possibili­dade de uma assistência mais ampla e específica. Consequen­temente, o comandante Raul Diaz Arguelles deslocou-se, três meses mais tarde, a Luanda, à frente de uma delegação civil cubana, e Agostinho Neto foi, então, mais preciso, ainda que não ambicioso: solicitou o envio de um grupo de instrutores para fundar e dirigir quatro centros de treino militar.

Bastaria um conhecimento superficial da situação de Ango­la para se compreender que o pedido de Neto era, também, típico da sua modéstia. Ainda que o M PLA, fundado em 1956, fosse o movimento de libertação mais antigo de Angola, e se bem que o único implantado numa base popular mais ampla e ofe­recendo um programa social, político e económico de acordo com as condições próprias do país, era, contudo, o que se en­contrava numa situação militar menos vantajosa. Dispunha de armamento soviético, mas care­cia de pessoal especializado para o manusear. Pelo con­trário, as tropas regulares do Zaire, bem treinadas e abasteci­das, haviam penetrado em An­gola desde o dia 25 de Março, proclamando em Carmona um governo de facto presidido por Holden Roberto, dirigente da FNLA e cunhado de Mobutu, cu­jas ligações com a CIA eram do conhecimento público. A Leste, sob os auspícios da Zâmbia, encontrava-se a UNlTA comandada por Jonas Savimbi, um aventureiro sem princípios, que tinha mantido uma colaboração constante com os militares portugueses e com as companhias estrangeiras de exploração. Por último, as tro­pas regulares da África do Sul, através do território ocupado da Namíbia, tinham cruzado a fronteira meridional de Angola no dia 5 de Agosto, a pretexto de protegerem as barragens do complexo hidroeléctrico de Ruacana-Caluaque.

Todas estas forças, com os seus enormes recursos económi­cos e militares, estavam prontos para cerrar à volta de Luanda um círculo irresistível, em vésperas do 11 de Novembro, data em que o Exército portu­guês abandonava aquele vasto, rico e formoso território, onde tinham vivido felizes durante quinhentos anos. De modo que, quando os dirigentes cubanos receberam o pedido de Neto, não se limitaram a cumpri-lo à risca, tendo decidido mandar de imediato um contigente de 480 especialistas, que num pra­zo de seis meses deviam instalar quatro centros de treino e orga­nizar 16 batalhões de infantaria, bem como 25 baterias de mor­teiro e metralhadoras an­tiaéreas. Como complemento, enviaram uma brigada de médi­cos, 115 veículos e uma equipa bem preparada de comuni­cações.

Este primeiro contingente foi transportado em barcos impro­visados. O «Vietname Heróico», o único próprio para passagei­ros, fora comprado pelo ditador Fulgêncio Batista a uma compa­nhia holandesa, em 1956, e depois convertido em navio-escola. Os outros dois, o «Coral lsland» e «La Plata» eram navios mercantes adaptados de ur­gência para o efeito. Todavia, a forma como foram carregados ilustra bem o sentido de previsão e de audácia com que os cubanos haviam de enfrentar compromisso de Angola.

Parece insólito que tivessem levado de Cuba o combustível para os veículos. Na realidade, Angola é um país produtor de petróleo e, em contrapartida, os cubanos tiveram de transportar o carburante através de meio mundo, desde a União Soviéti­ca. Contudo, os cubanos preferiram actuar pelo seguro, e desde essa primeira viagem carrega­ram mil toneladas de gasolina repartidas por três barcos. O «Vietname Heróico» levou 200 em tanques de 55 galões cada um, e viajou com as escoti­lhas abertas, de modo a facilitar a eliminação de gases. O «La Plata» transportou a gasolina na coberta. A noite em que a estiva ficou concluída foi assinalada com uma festa popular cubana, rebentaram foguetes e assis­tiu-se a prodígios de pirotecnia mesmo nos molhes de Havana, onde uma faúlha perdida podia ter transformado em pó aqueles três arsenais flutuantes. O próprio Fidel Castro foi à despe­dida como fez posteriormente com todos os que partiam para Angola e, depois de ver as con­dições em que iriam viajar, sol­tou uma frase muito sua, mas apesar de tudo em tom casual:

«De qualquer maneira – disse – vão mais comodamente do que na Gramna».

Não havia qualquer garantia de que os militares portugueses iriam permitir o desembarque dos instrutores cubanos. No dia 26 de Julho desse ano, já depois de Cuba ter recebido o primeiro pedido do MPLA, Fidel Castro pediu a Otelo Saraiva de Carvalho, em Havana, que suge­risse ao Governo de Portugal que fosse dada a autorização pa­ra a entrada de reforços cubanos em Angola, o que Saraiva de Carvalho prometeu conseguir, sem que a sua resposta tenha alguma vez chegado. De modo que o «Vietname Heróico» fun­deou em Porto Amboim a 4 de Outubro, às 6 e 30 da manhã; o «Coral Island» chegou no dia 7 e o «La Plata» a 11, em Ponta Negra. Chegaram sem licença de ninguém — mas também sem oposições.

Tal como estava previsto, os instrutores cubanos foram rece­bidos pelo MPLA e puseram a funcionar imediatamente os quatro centros de treino para instrutores. Um em Delatando, a que os portugueses chamavam Salazar, 300 quilómetros a Este de Luanda; outro no porto atlântico de Benguela; outro em Saurimo, antiga Henrique de Carvalho, na remota e desértica província oriental de Luanda, onde os portugueses tinham mantido uma base militar, que destruíram antes de retirarem; e a quarta em Cabinda. Nessa altura, as tropas de Holden Ro­berto estavam tão perto, que um monitor de artilharia cubana, quando dava a primeira instruçâo aos seus recrutas de De­latando, via, do sítio onde se encontrava, os blhdados dos mercenários a avançar.

No dia 23 de Outubro, as tro­pas regulares da Africa do Sul penetraram através da Namíbia, com uma brigada mecanizada e, três dias depois, ocupavam sem resistência as cidades de Sá da Bandeira e de Moçâmedes.

Era um passeio dominical. Os sul-africanos levavam consigo equipamentos de «cassettes» com música de festa instalados nos tanques. No Norte, o chefe da coluna mercenária dirigia as operações num Honda desporti­vo, acompanhado por uma rui­va estilo actriz de cinema. Avançava com ar de quem está de férias, sem colunas de explo­radores; e nem se deve ter dado conta do local de onde veio o roquete que fez voar o seu carro em pedaços. Na mala da mu­lher, apenas foi encontrado um vestido de gala, um biquini e o convite para a festa de vitória que Holden Roberto tinha já preparado em Luanda.

No fim dessa semana, os sul-africanos tinham penetrado já mais de 600 quilómetros em território angolano e avançavam para Luanda, à ra­zão de uns 70 quilómetros diários. No dia 3 de Novembro haviam atacado o escasso pes­soal do centro de instrução para recrutas de Benguela. Assim, os instrutores cubanos tiveram de abandonar as escolas para en­frentar os invasores, acompa­nhados dos seus aprendizes de soldados, aos quais davam ins­truções durante as pausas do combate. Até os médicos revive­ram a sua prática de milicianos e foram para as trincheiras. Os dirigentes do MPLA, prepara­dos para a luta de guerrilhas, mas não para uma guerra total, compreenderam então que aquele conluio de vizinhos, sus­tentado pelos recursos mais repugantes e devastadores do im­perialismo, não poderia ser der­rotado sem um apelo urgente à solidariedade internacional.

O espirito internacional dos cubanos é uma virtude his­tórica. Apesar de a revolução o ter definido e adaptado, dos princípios do marxismo, a sua essência encontrava-se muito bem estabelecida na conduta e na obra de José Marti. Esta vo­cação foi evidente — e geradora de conflitos — na América Lati­na, na Africa e na Ásia. Na Argélia, mesmo antes de a revo­lução cubana ter proclamado o seu carácter socialista, já Cuba tinha prestado uma ajuda consi­derável aos combatentes da FLN na sua guerra contra o colonialismo francês. Tanto assim que o Governo do general De Gaulle proibiu como represália, os voos da companhia cubana de aviação de atravessarem o céu da França. Mais tarde, en­quanto Cuba era devastada pelo ciclone Flora, um batalhão de combatentes internacionalistas cubanos foi defender a Argélia contra Marrocos. Pode dizer-se que não existe nenhum movi­mento de libertação africano que não tenha contado com a solidariedade de Cuba, quer com material e armamento, quer com a formação de técni­cos e especialistas militares e ci­vis. Moçambique desde 1963; Guiné-Bissau, desde 1965, os Camarões e a Serra Leoa — to­dos solicitaram em algum mo­mento e obtiveram de alguma forma a ajuda solidária dos cu­banos. O presidente da Repúbli­ca da Guiné, Sekou Touré, evi­tou um desembarque de merce­nários com a ajuda de uma uni­dade de cubanos. O comandante Pedro Rodrigues Peralta, agora membro do Comité Central do Partido Comunista de Cuba, foi capturado e encarcerado vários anos pelos portugueses na Gui­né-Bissau.

«Che» no Congo


Quando Agostinho Neto ape­lou para os estudantes angola­nos em Portugal irem estu­dar para os países socialistas, muitos deles receberam acolhimento em Cuba. Presentemente, todos estão vinculados à construção do socialismo em Ango­la, alguns deles em posições de destaque. E o caso de Mingas, economista e actual ministro das Finanças de Angola; Henri­que dos Santos, engenheiro geólogo, comandante e membro do Comité Central do MPLA e casado com uma cubana; Mantos, engenheiro agrónomo e actual chefe da Academia Mili­tar e N'Dalo, que nos seus tem­pos de estudante se destacou co­mo o melhor futebolista de Cuba e que, actualmente, é o segundo chefe da primeira brigada de Angola. Todavia, nada disto dá tanto significado à antiguidade e à intensidade da presença de Cuba em África como o facto de o próprio «Che» Guevara, no apogeu da sua carreira e da sua idade, ir combater nas guerri­lhas do Congo, em 25 de Abril de 1965. No final da sua carta de despedida a Fidel Castro, renunciava ao seu posto de co­mandante e a tudo o que o vin­culava legalmente a Cuba. Foi sozinho, num avião comercial, com nome e passaporte falsos, a fisionomia alterada por dois «toques» de mestre e uma pasta de negócios com livros literários e muitos inaladores para a sua asma insaciável, distraindo-se nas horas mortas, nos quartos dos hotéis, com intermináveis e solitárias partidas de xadrez. Três meses mais tarde, juntar-se-lhe-iam, no Congo, 200 cubanos, tropas que viajaram desde Havana, num barco carre­gado de armamento. A missão específica de «Che» era treinar guerrilheiros para o Conselho Nacional da Revolução do Con­go, que combateriam contra Moisés Tchombé, aliado dos an­tigos colonos belgas e das com­panhias mineiras internacionais. Lumumba tinha sido assassina­do. O chefe titular do Conselho Nacional da Revolução era Gas­ton Soumaliot, mas Laurent Cavila, dirigia as operações a par­tir do seu esconderijo de Kigona, na margem oposta do lago Tanganika. Aquela situação contribuiu, sem dúvida, para preservar a verdadeira identida­de de «Che» Guevara e ele próprio para maior segurança, não figurou como chefe princi­pal da missão. Por isso, era co­nhecido sob o pseudómino de Tatu, que era equivalente a «número dois» em swahili.

«Che» Guevara permaneceu no Congo de Abril a Dezembro de 1965. Não só treinava guerri­lheiros como também os dirigia em combate, e lutava ele próprio. As suas ligações pes­soais com Fidel Castro, as­sunto em relação ao qual muito se tem especulado, nunca enfra­queceram. Os seus contactos foram permanentes è cordiais, me­diante sistemas de comunicação bastante eficazes.

Quando Moisés Tchombé foi destituido, os congoleses pedi­ram a retirada dos cubanos co­mo medida para facilitar o ar­mistício. «Che» Guevara partiu como tinha chegado: sem fazer barulho. Foi pelo aeroporto de Dar-es-Salam, capital da Tan­zânia, num avião comercial, e lendo e relendo, durante a via­gem, um livro com problemas de xadrez, para tapar a cara du­rante as seis horas de voo, en­quanto, a seu lado, o seu aju­dante cubano tratava de entreter o comissário político do Exérci­to de Zanzibar, um velho admi­rador de «Che» Guevara e que falava nele sem descanso duran­te a viagem, tentanto obter notícias a seu respeito e reite­rando os seus desejos de o voltar a ver.

Aquele circuito fugaz e anóni­mo de «Che» Guevara em Áfri­ca deixou um rasto que nin­guém poderia apagar. Alguns dos seus homens dirigiram-se para Brazaville, aí ensinando unidades de guerrilheiros para o PAIGC, dirigido por Amílcar Cabral, e em especial, para o MPLA.

Uma das forças treinadas por eles entrou clandestinamente em Angola, através de Kinsha­sa, e incorporou-se na luta con­tra os portugueses sob o nome de «Coluna Camilo Cienfuegos». Outra, infiltrou-se em Ca­binda e, mais tarde, cruzou o rio Congo e implantou-se na zo­na dos Dembos, onde nasceu Agostinho Neto e a luta contra os portugueses se desenrolou ao longo de cinco séculos. Portan­to, a acção solidária de Cuba em Angola não foi um acto im­pulsivo e casual, mas uma con­sequência da política contínua da revolução cubana em Africa. Só que havia um elemento novo e dramático nesta delicada decisão. Desta vez, não se tratava, simplesmente, de mandar uma possível ajuda, mas de empreen­der uma guerra regular e em longa escala, a 10.000 quilóme­tros do seu território, com um custo económico e humano in­calculável e consequências políticas imprevisíveis.

A possibilidade de os Estados Unidos virem a intervir aberta­mente, e não através de merce­nários, e da Africa do Sul, como o tinham feito até então, era, sem dúvida, um dos enigmas mais inquietantes. Todavia, uma análise rápida permitia prever que, pelo menos, teria de pensar três vezes, antes de o fazer, no momento em que acabava de sair do pântano do Vietname e do escândalo do Watergate, com um presidente que ninguém tinha eleito, com a CIA hostilizada pelo Congres­so e desprestigiada ante a opi­nião pública, e a necessidade de se acautelar para que não apare­cesse como aliada da Africa do Sul, racista, não só aos olhos da maioria dos países africanos, como, também, perante a popu­lação negra dos Estados Unidos, mais a mais em plena campanha eleitoral e no flamejante ano do bicentenário. Por outro lado, os cubanos podiam contar com a solidariedade e a ajuda material da União Soviética e dos outros países socialistas, mas também tinham conciencia das impli­cações que a sua acção poderia vir a ter na política de coexis­tência pacífica e do desanuviamento internacional. A decisão implicava consequências irre­versíveis, e era um problema demasiado vasto e complexo pa­ra que pudesse ser resolvido em vinte e quatro horas. Em todo o caso, a Direcção do Partido Comunista de Cuba teve apenas vinte e quatro horas para se de­cidir, e fê-lo sem vacilar, no dia 5 de Novembro, durante uma reunião longa mas serena. Ao contrário do que se disse, tratou-se de um acto indepen­dente e soberano por parte de Cuba, e só depois da decisão, e não antes, se enviou a respecti­va notificação à União Soviéti­ca. Noutro 5 de Novembro, des­sa vez em 1843, uma escrava de Triunvirato, na região de Matanzas, a quem chamavam a Negra Carlota, tinha empunhado um machado e, à frente de um grupo de escravos, fizera uma rebelião. Como homenagem à sua figura, a acção solidária de Cuba em Angola foi dado o seu nome: «Operação Carlota.»

A «Operação Carlota» teve início com o envio de um bata­lhão reforçado de tropas espe­ciais, composto de 650 homens. Foram transportados de avião, em voos sucessivos que duraram treze dias, desde a secção mili­tar do aeroporto José Marti, em Havana, até ao aeroporto de Luanda, ainda ocupado por tro­pas portuguesas.

A sua missão específica era a de conter a ofensiva, de modo a que a capital de Angola não caísse em poder das forças ini­migas antes da saída dos portu­gueses, e, logo de seguida, suster a resistência até à chegada de reforços por mar. Mas os ho­mens que saíram nos dois voos iniciais já partiam convencidos de que chegariam demasiado tarde, e apenas abrigavam a es­perança final de salvar Cabinda.

Um segredo guardado por oito milhões

O primeiro contigente saiu no dia 7 de Novembro, às quatro horas da tarde, num voo espe­cial da Cubana de Aviacion, a bordo de um dos lendários «Bristol Britânia» BB 218 de turbo hélice, que tinham deixa­do de ser construídos pelos seus fabricantes ingleses e eram, as­sim, alvo de interesse no mundo inteiro. Os passageiros, que se recordam bem de serem 82, vis­to ter sido um número igual ao dos homens de Granma, tinham um ar saudável de turistas bron­zeados pelo sol de Caribe. To­dos iam vestidos de verão, sem insígnias militares, munidos de malas diplomáticas e passapor­tes normais, com os seus verda­deiros nomes e identidades. Os membros do batalhão de tropas especiais, que não dependem das Forças Armadas Revolucio­nárias, mas sim do Ministro do Interior, são guerreiros milito experientes, de elevado nível político e ideológico, alguns com cursos, leitores habituais e revelando uma permanente preocupação pela superação in­telectual. De modo que aquele seu aspecto de civis ao domingo não deverá ter constituido novi­dade para eles.

Mas, nas malas diplomáticas, levavam metralhadoras, e no compartimento de carga do avião, em lugar da equipagem, havia um bom carregamento de artilharia ligeira, armas indivi­duais de guerra, três canhões de 75 mm e três morteiros 82. A única transformação feita no avião, assistido por duas hospedeiras, era uma comporta, para poderem ser retiradas as armas da cabine de passageiros, em ca­so de emergência.

O voo de Havana a Luanda fez escala em Barbados, para meter combustível, no meio de uma tempestade tropical, e na Guiné-Bissau, durante cinco horas para esperar a noite, de modo a voarem secretamente até Brazaville. Os cubanos apro­veitaram aquelas cinco horas para dormir, o que constituiu, para eles, o mais espantoso sono de toda a viagem, pois havia tantos mosquitos no aeroporto que as roupas das camas fica­ram ensanguentadas.

Desembarque de cubanos em Luanda


Mobutu, com a sua arro­gância proverbial, disse que Brazaville é iluminada pelo esplendor de Kinshasa, a moderna e fulgurante capital do Zaire. Nisso não lhe falta razão. As duas cidades estão situadas uma frente à outra, com o rio Congo no meio, e os respectivos aero­portos estão tão perto um do outro que os primeiros pilotos cubanos tiveram de os estudar muito bem para nâo aterrarem na pista inimiga. Fizeram-no sem contratempos, de luzes apa­gadas, para nâo serem vistos da outra margem, e permaneceram em Brazaville apenas o tempo suficiente para se informarem, por rádio, sobre a situação em Angola. O comandante angola­no Xieto, que mantinha boas re­lações com o comissariado por­tuguês, tinha obtido deste a au­torização para os cubanos ater­rarem em Luanda. Assim o fize­ram, às dez da noite do dia 8 de Novembro, sem o auxílio da torre e debaixo de um aguaceiro torrencial. Quinze minutos mais tarde chegou o segundo avião. Naquele momento, apenas saíam de Cuba três barcos carre­gados com um regimento de ar­tilharia, um batalhão de tropas motorizadas e o pessoal de arti­lharia a reacção, que começaria a desembarcar em Angola a par­tir de 27 de Novembro. Em con­trapartida, as tropas de Holden Roberto estavam tão próximas, que horas antes tinham morto uma velha nativa com os tiros de canhões ao tentarem al­cançar o quartel do Grande Farni, onde se concentraram os cubanos. Assim, estes nem tive­ram tempo para descansar. Puseram-se em uniforme verde azei­tona, incorporaram-se nas fileiras do MPLA e partiram para o combate.

A imprensa cubana, por ques­tões de segurança, não publicara a notícia da intervenção em An­gola. Mas, como acontece sempre em Cuba em assuntos mili­tares tão delicados como este, a operação constituía um segre­do ciosamente guardado por oi­to milhões de pessoas. O Primei­ro Congresso do Partido Comu­nista, que se realizaria dali a poucas semanas, e que consti­tuiu uma espécie de obsessão nacional durante todo aquele ano, adquiriu então uma dimen­são nova.

O processo empregue para a formação das unidades de vo­luntários partiu de uma convocatória privada com os elemen­tos da primeira reserva, que compreende todos os filhos va­rões entre os 17 e os 25 anos, bem como aqueles que já per­tenceram às Forças Armadas Revolucionárias. Convoca­ram-nos por telegrama, para se apresentarem ao comité militar, sem mencionarem o motivo, mas este era tão evidente que todos aqueles que se achavam com capacidade militar para is­so se dirigiram mesmo sem tele­gramas prévios, ao seu comité militar, pelo que muito trabalho se teve para que aquela solicitu­de maciça não se convertesse em desordem nacional. Até onde o permitiu a ur­gência da situação, o critério se­lectivo foi bastante minucioso. Não só se tomaram em conta a qualificação militar e as con­dições ffísicas e morais, mas também os antecedentes de tra­balho e a formação política. Apesar deste rigor, são incon­táveis os casos de voluntários que lograram enganar os filtros da selecção. Sabe-se de um en­genheiro qualificado que se fez passar por condutor de camiões, de um alto funcionário que se fez passar por mecânico, de uma mulher que esteve prestes a ser admitida como soldado raso. Sa­be-se do caso de um rapaz que foi sem licença do pai e que, mais tarde, se encontrou com ele em Angola, porque o pai também tinha ido às escondidas da família. Em contrapartida, um sargento de vinte anos não conseguiu que o mandassem de maneira nenhuma e, contudo, leria de vir a suportar o seu machismo ferido, por terem mandado a mãe, que é jornalis­ta, e a noiva que é médica. Al­guns deliquentes comuns, encar­cerados, pediram para ser admi­tidos, mas nenhum desses casos foi contemplado.

A primeira mulher a partir, em princípios de Dezembro, ti­nha sido preterida muitas vezes, com o argumento de que «aqui­lo era muito pesado para uma mulher». Estava a preparar-se para ir clandestinamente de bar­co, e até já tinha escondido a sua roupa a bordo, com a cum­plicidade de um companheiro que era fotógrafo, quando veio a saber que tinha sido escolhida para ir legalmente e por avião. O seu nome é Esther Lilia Diaz Rodriguez, uma ex-professora de vinte e três anos que ingres­sou nas Forças Armadas em 1969, tendo uma boa nota em tiro de infantaria. Com ela par­tiram, também, três irmãos, cada um de sua vez: César, Ruben e Erineldo. Todos por sua conta e, sem terem combinado, os quatro contaram a mesma men­tira à mãe: que iam para as manobras militares de Camaguey, por causa do Congresso do Par­tido. Regressaram sãos e salvos, e a mãe está orgulhosa por te­rem estado em Angola, mas não lhes perdoa a mentira sobre as manobras em Camaguey.

As conversas com os que re­gressaram permitem concluir que alguns cubanos queriam ir para Angola por motivos pes­soais muito diferentes. Pelo me­nos Um, infiltrou-se com o pro­pósito simples de desertar, e lo­go sequestrou um avião portu­guês e pediu asilo em Lisboa. Nenhum deles foi à força, todos tiveram de formar filas de vo­luntários. Alguns negaram-se a partir depois de escolhidos e fo­ram, depois, vítimas de toda a espécie de insultos públicos e desprezo em família. Mas não há dúvida que a imensa maioria foi para Angola com a plena convicção de cumprir um acto de solidariedade política, com a mesma consciência e amesma coragem com que quinze anos antes tinham rechaçado o de­sembarque em Playa Giron e, por isso mesmo, a Operação Carlota não foi uma simples ex­pedição de guerreiros profissio­nais mas antes uma guerra po­pular.

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