BART 6221/74 - A HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA 6221/74 - ANGOLA 1975

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ONDE FICOU O BART 6221/74 EM NOVA LISBOA


Quando comecei esta saga de tentar contar a História do BART 6221/74, consegui identificar o quartel onde ficou o Batalhão em Nova Lisboa (mais tarde falaremos na estadia no Luso), no Google Maps, por causa do inconfundível lago artificial que lhe ficava ao lado e onde por vezes iamos “ao banho”. A minha dificuldade foi em saber a designação do referido quartel. Escrevi então a um amigo da adolescência, que por coincidência havia encontrado em Nova Lisboa na altura.

Eis a resposta desse meu amigo:

Ok Jorge aqui vai o que sei, o que recordo e o que ouvi dizer.

O aquartelamento em Nova Lisboa situava-se a 3/4 km a norte
[é a sul, mas ele enganou-se] da cidade e era composto pelo RI salvo erro 10 portanto RI10 e contiguo a este outro que apenas conhecia pela Escola, devia ser qualquer escola militar destinada a formar especialidades dos militares angolanos mas que estava praticamente desativada por recrutamentos internos.

Esta escola serviu aliás para um acontecimento caricato no processo de independência. Quando da tentativa de formar as Forças armadas angolanas fundindo os 3 movimentos, Nova Lisboa foi o palco do juramento de bandeira do 1º batalhão destas ditas forças, compostas por oficiais e praças dos 3 movimentos e ficaram aquarteladas na dita Escola. No dia seguinte a Escola estava vazia de homens e armas pois tinham todos desertado para os seus movimentos originais.

Quanto a mim não estava integrado em nenhum batalhão pois era de rendição individual e pertencia a uma oficina avançada de Transmissões cuja sede era em Luanda o ATMA (Agrupamento de Transmissões Militares de Angola).

O teu batalhão não foi render o que se encontrava no RI10, vocês vieram do Luso inseridos no processo de retirada gradual das FA Portuguesas e ficaram em Nova Lisboa para depois virem para Portugal.

Quanto a nós encontramo-nos também em Nova Lisboa e estivemos no apartamento em que eu vivia 1 ou duas vezes porque eu estava de saída para Luanda e posteriormente para Portugal.

Isto é o que vivi e me lembro. Agora o que ouvi dizer e o que não tenho bem a certeza.

Segundo soava nos meios militares, e tu podes confirmar ou não, é que o comboio que transportava o teu batalhão do Luso tinha sofrido uma emboscada pela Unita e que vocês tinham sido feito reféns sem ter tido tempo de se defenderem. Os vossos pertences e armamento tinha sido confiscado e até deram uma alcunha ao batalhão que era o batalhão do pé descalço. Inclusivamente tenho uma vaga lembrança de quando estivemos no meu apartamento te ter cedido alguma roupa dada a situação acima descrita. Se não foi a ti foi a outro tipo do teu batalhão que eu conheci que era aqui da Piedade e cujo nome não me recordo pois não era da minha malta e só conhecia de vista mas que nessas alturas todos nos conhecemos. Mas isto tu poderás tirar as certezas pois se foi verdade passou-se contigo. Chegou aliás a haver um processo de despromoção do Coronel comandante do teu batalhão numa punição pública na parada do Regimento.

O RI10, isto é um facto, não tinha nenhum batalhão aquartelado. Com a retirada gradual das Forças Portuguesas era um posto de passagem para Portugal e na altura em que eu lá estive tinha apenas uma CCAÇ (companhia de caçadores) que regressaram depois de mim e que era o pessoal com quem eu me dava. No entretanto todos os militares recrutados em Angola (nativos brancos e negros) tinham sido desmobilizados.

Bom por agora é o que me lembro mas se tiveres alguma pergunta concreta apita ok?

Um abraço


E a minha contra-resposta:

Caríssimo,

Fixe! Esta tua resposta às minhas questões ajuda muito na minha rememoriação dos acontecimentos. Embora com algumas coisas que não corresponderam à verdade e que foram transformadas em “lenda”. Mas mesmo essa informação também me é preciosa.

O meu Batalhão foi de facto assaltado pela UNITA, mas não houve reféns nenhuns – pelo menos no tal comboio, onde eu estava. Isto porque houve também uma coluna auto que saíu do Luso com escolta de uma companhia (por acaso a minha, mas onde eu não segui) que também foi atacada pela UNITA em “General Machado”. No comboio fomos assaltados e desarmados, unicamente. Cheguei a Nova Lisboa com todos os meus haveres (que nem eram muitos), apenas sem a G3. Enfim, essa do “pé-descalço” correu pela informação e transformou-se no tal mito, que não correspondeu à verdade – ninguém chegou descalço a N.L.. Sei de alguns soldados, que em pânico entregaram as malas onde traziam as roupas e outros pertences, etc... daí haverem alguns que só chegaram a N.L. com os fardamentos que traziam vestidos. Mas ninguém, que eu saiba, chegou descalço ou em cuecas!!!

Devo dizer e isto é uma coisa que não saiu na imprensa da altura, que aquele comboio tinha 50 vagons, puxados por duas locomotivas. Era uma coisa monstruosa. E nós vinhamos dispersos por toda aquela composição, que englobava dois vagons cheios até cima de armas da polícia do Caminho de Ferro de Benguela e que foi o motivo do ataque da UNITA.

Não houve possibilidades de defesa num comboio com aquela extensão, para mais com cerca de 500 civis em fuga do Luso pelo meio, aquilo foi tudo mal programado – a UNITA tinha sido expulsa do Luso pelo MPLA na véspera da nossa saída e estava desesperada, quase sem armas e munições.

Mas tudo isto vai, evidentemente, constar da minha narrativa, como é óbvio.

Depois, eu não estive no teu apartamento (encontrámo-nos no portão do R.I.21 – descobri anteontem fotos desse portão e recordei-me da situação), mas essa informação que me dás – acerca de forneceres roupas a um tipo do meu Batalhão –, serve-me para complementar algumas coisas de que não tive conhecimento – mais aquilo que me dizes sobre as F.I. – as tais “forças armadas angolanas” que nunca chegaram a existir. E, já agora, não houve nenhum processo de tentativa de despromoção do Tenente-Coronel João Faria Amado. Houve outras coisas, mas não essa. 


Por outro lado correu o boato de que eu tinha morrido durante a viagem de Luanda para o Luso e tu sabias desse boato, não sei como o sabias, mas recordo-me de que falámos disso. Este boato aconteceu porque o camião onde eu devia vir, na viagem de Luanda para o Luso, que trazia, como todos os outros, um bidon de gasóleo de reserva, para cima do qual um soldado atirou uma beata, o bidon explodiu e morreram seis tipos, incluindo o que vinha ao lado do condutor e que deveria ser eu, como furriel do pelotão. Só que, a dada altura, tinha trocado o camião pelo jeep Willis que ia à frente da coluna, com o furriel enfermeiro (que era fotógrafo profissional) para irmos fazendo fotografias “turísticas” pelo caminho... Daí que tenha escapado. 

Já agora, só por piada, também fui dado como morto em 1997 (depois do divórcio), numa situação imbecil de um “amigo” que resolveu espalhar um boato cretino e muitos amigos meus acreditaram nisso, até eu lhes aparecer (passaram a chamar-me "o ressuscitado"). Portanto, fui dado como morto duas vezes já. Penso que à terceira – e se for só boato – acho que devo ganhar a eternidade, eh, eh...

Bem, falando sério, já consegui encontrar referências aos quartéis de Nova Lisboa – o RI 10 de que falas era o R.I.21 – Regimento de Infantaria 21! Em frente do 
R.I.21 ficava o I.I.V.A. – Instituto de Investigação Veterinária de Angola. Depois o quartel da tal “escola”, era a Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA), que foi onde nós ficámos e tinha o lago artificial ao lado a que chamavam "lago dos Recrutas".

Portanto isto está a compor-se. Estou à espera que o Arquivo Geral do Exército me envie a lista do pessoal do meu batalhão (lista que já paguei) para tentar entrar em contacto com alguém via internet.

Se me lembrar de mais alguma coisa, podes crer que te escrevo.

Obrigado pela tua resposta e um grande abraço,


OS MAPAS
ONDE FICAVAM OS QUARTÉIS DE NOVA LISBOA



Vista aérea parcial actual da Escola de Aplicação Militar de Angola (Google Maps ampliado), onde ficou o BART 6221/74

FOTOS

Vista aérea actual da E.A.M.A.

Vista aérea actual do R.I.21 (Já semi-restaurado) e da E.A.M.A.

Vistas da E.A.M.A. nos anos sessenta...

Vistas actuais do edifício principal da E.A.M.A

Vistas do portão do R.I.21 nos anos sessenta...

Vista actual do mesmo portão, depois de ser restaurado nos anos noventa.

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A SEGUIR
DE ONDE VEIO O BOATO 
DO "BATALHÃO PÉ-DESCALÇO"?

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2 comentários:

  1. vou tentar compreender este texto pois fazia parte desse batalhão, julgo que não e tudo verdade Teixeira EX.Furr.M.

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  2. Camarada, do bart 6221/74,está enganado em muita coisa,começando por exemplo quando diz que o RI 21, não tinha nimguém aquartelado, pois quando o vosso batalhão, chegou a NOVA lisboa, estava no RI 21, O Batalhão de Cavalaria 8325, do qual eu fazia parte. Nõ vamos falar de outras coisas que realmente passaram, mas que continuam a negar ,enfim já passou. A parte que refere dos militares angolanos que fugiram de noite para os seus movimentos eu lembro-me perfeitamente disso. Já agora só para imformação, o RI 10, era em Aveiro, nessa altura. um abraço.
    Ex-1-º cabo Atirador de Cavalaria do batalhão de cavalaria 8325.

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